Encruzilhada estratégica e tática

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As últimas semanas foram ricas em lições sobre táticas e estratégias. O Partido da Mídia, provavelmente o partido político mais forte e atuante da burguesia cabocla e estrangeira radicada no país, parecia irremediavelmente rachado em diferentes correntes táticas. Aturdidas com a esmagadora participação do peemedebismo, do tucanato, dos demos et caterva em corrupções ativas e passivas de bilhões (é isso mesmo, bilhões de dólares, somente nas relações com a Odebrecht), essas correntes e seus diferentes instrumentos (jornais, revistas, tevês etc. etc.) pareciam atirar para todos os lados.

No entanto, de repente, não mais do que de repente, quando uma pesquisa de opinião trouxe à luz que Lula continuava subindo na preferência do eleitorado para a eleição presidencial de 2018, as diversas correntes internas do Partido da Mídia se voltaram, sem vacilação, para um ataque estratégico concentrado contra Lula e, de tabela, contra o PT. Não por acaso há algum tempo haviam transformado estrategicamente “corruptores ativos” e “corruptos passivos” em simples “delatores” dispostos a colaborar em sua ação estratégica. No empenho atual, tentam transformar “delatores” em “testemunhas verossímeis”, cujos “depoimentos” mereceriam a categoria de “verdades irrefutáveis”.

Desse modo, tentam colocar na gaveta do esquecimento as oitenta ou mais figuras políticas golpistas envolvidas nas corrupções da Odebrecht, e os bilhões de dólares correspondentes, e elevar à categoria de lesa-pátria um triplex fajuto de três milhões de reais e os gastos de quinhentos mil a um milhão de reais nos reparos de um sítio.

É evidente que Lula poderia haver evitado isso. Mesmo que houvesse decidido comprar o tal triplex e mandado reparar o tal sítio com o que pode ter sobrado de seus vencimentos em oito anos de governo, poderia ter evitado se considerar “amigo” de um corruptor como o presidente da empresa construtora do triplex (OAS).

Esse corruptor, que se envolveu nos superfaturamentos de bilhões, agora aceitou a proposta de entregar a cabeça do ex-presidente, mesmo que não tenha provas cabais do que declarou em juízo. Quer receber uma pena de prisão domiciliar de luxo e continuar vivendo como um nababo, que é o que está acontecendo com todos os “delatores”. Passam a gozar uma aposentadoria de príncipe árabe e, se tudo der certo com suas “delações”, daqui a alguns poucos anos serão perdoados e poderão viver livremente.

Em outras palavras, apesar de toda a propaganda sobre a “limpeza” da Lava Jato, ela está criando uma casta de nababos que continuará usufruindo de parcela importante do que roubaram do Estado e do povo brasileiros através do superfaturamento.

Mas isso, assim como a verdade dos fatos, pouco interessa ao Partido da Mídia. O que lhe interessa é conquistar a opinião pública com as versões disseminadas por seus meios de comunicação. Nesse sentido, está investindo pesadamente nas possíveis “delações” do ex-ministro Pallocci. Este não só declarou seu desejo de se transformar de “corrupto passivo” em “delator”, como insinuou que pode aumentar substancialmente o fogo “amigo” contra Lula e o PT pelo menos por “mais um ano”. O que deve obrigar a direção do PT a modificar sua “tática de silêncio midiático”.



Afinal, no momento em que o Partido da Mídia unifica todas as suas correntes num bombardeio pesado e cerrado, tendo Lula e o próprio PT como alvos únicos, talvez não baste fazer uma disputa silenciosa ou esporádica da opinião pública, e deixar o barco correr. É verdade que a manifestação de apoio a Lula durante seu depoimento ao juiz Moro, em Curitiba, é importante por seu simbolismo. Porém, o que Lula disser em sua defesa não pode ficar na dependência do espaço que o Partido da Mídia dedicar ao assunto com fingida neutralidade.

No momento em que a própria existência do PT corre perigo, com certeza esse partido precisa de estratégias e táticas que verdadeiramente se contraponham ao bombardeio midiático e às ações golpistas. No mínimo pode argumentar que a melhor forma de comprovar a propaganda do Partido da Mídia, a respeito do suposto apoio do povo brasileiro à condenação de Lula e do PT, é a disputa eleitoral, não a decisão monocrática de um juiz ou de um tribunal.

Ao mesmo tempo, talvez tenha chegado o momento de o PT aproveitar mais intensamente as aulas despudoradas de grandes empresários “delatores” sobre o caráter intrinsecamente corruptor do sistema capitalista e do mercado. O que só foi possível vir à tona porque, para justificar legalmente os ataques a Lula e ao PT, a Lava Jato se viu obrigada a ir além do que pretendia o promotor Dallagnol. Isto é, teve que penetrar fundo no cartel das grandes empreiteiras, destampando o sistema de superlucros e corrupção que, certamente, não está limitado a elas, como ficou demonstrado na operação que flagrou os frigoríficos.

O PT não deve ter medo de reconhecer que foi um erro estratégico supor que a aceitação do sistema de financiamento empresarial às campanhas eleitorais não traria prejuízos ao partido, supondo que apenas faria o que todos faziam há muito, como confessou Emílio Odebrecht. Nem que também foram erros estratégicos supor que o dinheiro fornecido seria religiosamente de Caixa 1 e que tais contribuições representavam um sinal de “amizade” de empresários às políticas de combate à miséria e à pobreza defendidas pelo partido. Tal reconhecimento se torna cada vez mais premente como instrumento de defesa do próprio Lula e do PT, por ser o pressuposto para garantir que não serão repetidos.

Até o momento, apesar de tudo, o PT continua mantendo seu caráter de maior partido de massa da esquerda brasileira. Mas, à medida que os ataques do Partido da Mídia crescem mais poderosos e destrutivos, e o PT se mantém indeciso no duplo processo de reconhecimento dos erros e de construção de novas estratégias e táticas, ele corre o risco de seguir caminhos que o passado histórico demonstraram ser desastrosos.

Nos anos 1960, o povo brasileiro vivia um momento idêntico ao atual. A burguesia se esmerava em vender ao capital estrangeiro tanto as empresas estatais quanto as próprias empresas privadas, na perspectiva de viver de juros, descarregando sobre os trabalhadores e as camadas populares e médias o custo dos superfaturamentos e dos lucros máximos. Apesar disso, o partido hegemônico da esquerda naquele período, o PCB, supunha que a burguesia era não só progressista, mas também revolucionária.

Essa incapacidade de reconhecer erros e adotar estratégias e táticas adequadas levou o PCB à desagregação, e a esquerda a um intenso fracionamento, provocando o surgimento de estratégias e táticas desagregadoras, mesmo quando eram aparentemente idênticas. As derrotas profundas da esquerda, em todos os campos, só começaram a ser superadas nos anos 1980. Assim, se olharmos com realismo o momento atual talvez não seja difícil constatar que, na prática, já se vive um processo idêntico desde o final dos anos 1990.

Pode-se argumentar que ainda é um processo de baixa intensidade. No entanto, ele pode assumir o caráter de avalanche se o PT for incapaz de dar o salto estratégico e tático indispensável para enfrentar a atual ofensiva reacionária, e voltar a se tornar um polo de unificação da esquerda e de mobilização de grandes massas de nosso povo. Talvez não dê para escapar dessa encruzilhada.

Leia também:

Para além da corrupção: “os próximos tempos serão de intensificação da política e das disputas ideológicas”

 

   

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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