Confusões globais

0
0
0
s2sdefault

Ao lado das confusões a respeito da crise capitalista e da pretensa confrontação entre as corporações financeiras “multinacionais” e “transnacionais” como contradição principal deste momento histórico, há outras confusões rondando o mundo. Como exemplo, podem-se citar as que dizem respeito ao enfraquecimento da unipolaridade norte-americana, à viabilidade ou não da reversão da tendência de queda da taxa de lucro do capital através do “nacionalismo industrialista”, e ao papel da “multipolaridade”.
 
É verdade que as “fissuras da globalização capitalista”, que alguns reduzem ao “globalismo neoliberal”, são cada vez mais evidentes, fazendo crescer a “insegurança” do sistema capitalista. Alguns até mesmo supõem inusitado que, dentro da nação capitalista hegemônica, os EUA, haja cada vez menos oferta de trabalho e sejam excluídas frações do próprio capital financeiro. Deduzem que isso desemboca no desgaste da globalização e, inclusive, do capitalismo como sistema. Portanto, tarde ou cedo, a economia global tenderia a uma re-regulação a nível mundial, com mudanças em profundidade, em meio a tempestades que poriam tudo de cabeça para baixo.
 
Por isso mesmo é impressionante que a eleição de Trump seja considerada um “motim popular eleitoral” e “uma das insubordinações políticas mais espetaculares”. Sequer há atenção ao fato de que Trump teve 3 milhões de votos a menos do que os da candidata derrotada, colocando a nu a natureza elitista e corporativa do sistema eleitoral da “democracia americana”. Também é impressionante que tal “eleição” seja considerada, além de um sinal de aprofundamento da crise, uma “impulsionadora do colapso da hegemonia neoliberal”, tendo como “alvo comum” “rechaçar a globalização das grandes corporações globais, o neoliberalismo e o establishment político que os respalda”.
 
Em outras palavras, a globalização capitalista é vista por alguns apenas como “neoliberal” e “desindustrializante”. Deixam de lado seu viés “industrializante” global e fazem com que o sistema corporativo financeiro apareça como totalmente desvinculado dos sistemas de produção industrial e agrícola e de circulação das mercadorias. Esquecem que já faz tempo que o sistema financeiro substituiu os setores industrial e comercial como fração hegemônica do capital, sem nunca deixar de ser o organizador, regulador e dirigente das demais frações do sistema capitalista como um todo.

A partir da crise dos anos 1970, o problema chave desse sistema, comandado pela fração financeira e tendo como epicentro os países desenvolvidos, passou a ser o nível de desenvolvimento científico e tecnológico, ou de produtividade, alcançado por ele. Por um lado, tende a concentrar e centralizar o capital ao máximo, descartando a utilização de força de trabalho. Por outro, agrava a tendência de queda da taxa de lucro e torna cada vez mais destrutivas e desestabilizadoras suas crises cíclicas.
 
Nessas condições, mesmo que o capital dos países avançados só houvesse globalizado a política neoliberal de exportação de capitais financeiros especulativos, que descapitalizaram e desindustrializaram os países que se subordinaram ao Consenso de Washington (como foi o caso do Brasil), a centralização do capital em poucas mãos e o desemprego estrutural nos países centrais, assim como os tremores de crises globais, continuariam avançando. Tais problemas estão relacionados à elevação da produtividade e à crescente exploração da mais-valia relativa criada pela força de trabalho decrescente. Nesse sentido, não é estranho que a concorrência capitalista tenha se acentuado e que parcelas das frações industriais, comerciais e financeiras não só tenham sido engolidas por outras que se organizaram em corporações multinacionais e transnacionais.


 
A verdadeira novidade nesse processo avassalador de concentração e centralização interna e de globalização externa do capital, previsto por Marx em O Capital, consiste em que os Estados de diversos países atrasados em seu desenvolvimento capitalista tenham decidido industrializar-se, aproveitando-se da busca incessante do capital em deter a queda da taxa de lucro através da exploração de força de trabalho mais barata.

Tal exploração, por outro lado, só é possível com a exportação de capitais na forma de plantas industriais segmentadas ou completas, e é isso que está na origem da desindustrialização e da aceleração do desemprego dos países capitalistas centrais, mais intensamente nos EUA e mais moderadamente nos europeus, mesmo antes da crise global de 2008.
 
Contraditoriamente, aquela possibilidade também está na origem da industrialização acelerada da China, Índia, Vietnã e outros países periféricos. Portanto, bem vistas as coisas, a globalização do capital contém tanto o aspecto neoliberal, de desmonte das finanças e dos parques industriais de alguns países retardatários, quanto os aspectos democrático liberal e/ou socialista de mercado de outros países retardatários, intensificando a concorrência econômica e comercial global, desmontando a unipolaridade norte-americana e intensificando a multipolaridade. Que a hegemonia financeira tenha contribuído para levar o mundo a essa situação faz parte da natureza contraditória do desenvolvimento do próprio capital.  
 
Assim, a crise global irrompida em 2008, que continua sem solução e atinge indistintamente países desenvolvidos, países em desenvolvimento e países em desestruturação, apenas traz à tona todas as novas contradições do desenvolvimento do capitalismo como sistema. E, como não poderia deixar de ser, gera reações sociais e políticas diferenciadas.
 
Os votos em Trump e Le Pen, por exemplo, expressaram uma reação contrária à crise e à forma de capitalismo desindustrializante interno e industrializante externo, tendo como solução o “capitalismo nacionalista e industrialista”. No caso dos EUA, acreditam que tal forma de capitalismo tem história e base social na luta contra o antigo imperialismo britânico e seu sistema financeiro. Mas não se dão conta de que isso significa passar um borrão sobre a história do desenvolvimento do modo de produção, circulação e distribuição capitalista e sonhar com a volta à indústria fordista e ao renascimento da falsa política exterior isolacionista.
 
Parcelas significativas dos trabalhadores e das classes médias dos países capitalistas centrais têm se revoltado contra seu desemprego e sua queda de padrão de vida, resultantes dos movimentos das “finanças globais” e das políticas internas neoliberais. Algumas dessas parcelas, incluindo correntes dos movimentos sociais, nutriram ilusões quanto à possibilidade da dos capitais centrais globalizados elevarem seu padrão de vida, mesmo à custa do empobrecimento dos povos periféricos. Em certo sentido, elas se aliaram às políticas dúplices do capital financeiro, industrial e comercial globalizado.
 
No entanto, nos Estados Unidos e demais países centrais, os resultados da globalização consistiram na concentração e centralização do capital em 1% de suas populações, em contraste com a devastação da indústria manufatureira, a queda dos salários reais, o aumento da precariedade laboral e do desemprego estrutural, o assalto à seguridade social e a devastação do que antes era a classe média, seja do American Way of Life nos EUA ou do Estado de Bem-Estar Social europeu.
 
Em vista disso, uma parcela das maiorias negativamente afetadas tende a acreditar que a solução consiste em voltar atrás, supondo que Trump está contra Wall Street. Outra parcela, em sentido contrário, crê que Wall Street está “contra” Trump porque ele deixaria o sistema capitalista em estado de debilidade máxima. E alguns torcem para que Trump leve a cabo sua política nacionalista industrialista porque isto seria um “sintoma de decomposição” capitalista que poderia levar à “tentação” de construir o novo, em lugar do “globalismo financeiro imperial”, num momento de crise e de confrontação estrutural inter-imperialista.
 
Há ainda os que enxergam que, no limite, o “nacionalismo industrialista antioligárquico” de Trump tende a ser reduzido a um “continentalismo militarista”, baseado no “poder do complexo industrial militar” e em sua “ameaça de guerra termonuclear”. Mas acreditam que tal “continentalismo” seria incapaz de dar solução aos problemas do declínio norte-americano porque terminaria por ser contido ou subsumido pelo “continentalismo financeiro militarista”, que conduziria à fragmentação de ambos.
 
A possível guerra mundial que tal “fragmentação” poderia produzir não parece estar no horizonte desses pensadores. Mesmo porque eles acreditam que, em tais condições, qualquer “nacionalismo industrialista antioligárquico”, de Trump ou de países centrais como a Alemanha e a França, seria necessário para o desenvolvimento do “universalismo multipolar industrialista” dos Brics e do “Humanismo Ecumênico-Interreligioso” (sic), mas não poderia ser “seu motor”, nem seus “países centrais”.
 
Com isso, em lugar de esclarecerem as possibilidades reais do “nacionalismo industrialista antioligárquico” resolver os principais problemas do atual desenvolvimento capitalista e superar sua presente crise, assim como as possibilidades de desenvolvimento de alternativas capitalistas e socialistas multipolares, ou mesmo de superação do capitalismo, essa miríade de confusões torna o quadro global ainda mais nebuloso, exigindo paciência e persistência na análise crítica dos embates em curso, incluindo os Brics.  

Leia também:

Por falar em Trump

 
 

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados