Corrida contra o tempo

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É evidente que há uma disputa intestina nas forças reacionárias, embora todas elas pretendam liquidar os direitos democráticos e populares, tanto formais quanto reais, além de aprofundar a dependência e a subordinação econômica e política do Brasil aos interesses das potências capitalistas estrangeiras.
 
Bem vistas as coisas, embora nem sempre tenham consciência do vendaval a que estão sendo submetidas, as classes populares (assalariados e excluídos), assim como setores significativos das classes médias e de alguns poucos setores da burguesia cabocla estão sendo levados a uma batalha feroz. Nesta está em jogo retornar, de forma ampliada e ainda mais destrutiva, ao neoliberalismo tucano dos anos 1990, ou seguir um caminho mais profundo de reformas democráticas e populares que foram apenas arranhadas durante os governos Lula e Dilma.
 
Como essa disputa se manifesta principalmente na decisão de manter ou não as velhas representações políticas (tipo Temer et caterva), encalacradas em processos de corrupção, ou jogar as fichas na emergência de novas representações de origem empresarial, ainda não manchadas pesadamente (tipo Dória e Maia), isso tem levado alguns setores democráticos e de esquerda a flertar com estes setores na esperança de deter a ofensiva reacionária.
 
No entanto, a pergunta chave que deve ser respondida para enfrentar tal ofensiva, principalmente após o juiz Moro haver abolido a exigência de escrituras públicas como prova de propriedade de imóveis e condenado Lula com base nessa aberração jurídica, não é a que lado dos setores reacionários se aliar, mas sim como deter tal ofensiva em seus aspectos estratégicos e, em consequência, como ganhar as batalhas táticas?
 
Pelo menos teoricamente parece ser consensual entre as diversas forças democráticas e de esquerda que a única forma de conter a ofensiva reacionária e vencer as presentes batalhas táticas consiste em transformar a maior parte do povo brasileiro numa força cujo poder de mobilização seja capaz de impor derrotas às diversas frentes (governamental, parlamentar, judiciária etc.) de atuação das forças que pretendem liquidar os direitos políticos e sociais democráticos e a soberania nacional.
 
No entanto, não é consensual entre aquelas forças democráticas e de esquerda que medidas adotar para transformar o povo nessa força poderosa. Isso ocorre, em grande medida, porque até mesmo o partido de maior quantidade de filiados, o PT, não está enraizado como deveria no seio das classes populares, seja em seus locais de trabalho ou de moradia. Em consequência, o trabalho de organização dessas classes para lutar por seus direitos elementares foi relativamente abandonado, perdendo-se grande parte dos laços que existiam entre o partido e aquelas camadas sociais. Restou apenas a influência de Lula, que pode eventualmente ser neutralizada se a ofensiva reacionária de prendê-lo e impedir sua candidatura tiver sucesso.
 
Essa situação da relação entre as forças políticas democráticas e de esquerda com os contingentes sociais que constituem as principais massas populares se deve, em grande medida, ao fato de que tais forças políticas parecem haver abandonado ou enfraquecido seu trabalho com base em núcleos de locais de trabalho e de moradia como os principais instrumentos de organização e de ação social.
 
Há muito não há um esforço contínuo para desenvolver as diversas formas de organização de base da sociedade e participar ativamente delas para a conquista e manutenção dos direitos, a partir dos elementares. Como resultado, as lutas e mobilizações massivas muitas vezes fazem grandes barulhos, mas apresentam pouca eficácia. Não é raro que as mobilizações sejam espontâneas, mal planejadas e com reduzido potencial, o que permite à repressão policial não só atacá-las, mas infiltrar agentes seus para realizar quebra-quebras e desmoralizar as manifestações.
 
Em tais condições, mesmo que as organizações partidárias possuam estratégias e táticas políticas corretas para o momento histórico que o Brasil atravessa (outra condição essencial para barrar a ofensiva reacionária), sem núcleos atuantes e estreitamente ligados às organizações democráticas e populares de todos os tipos, não será possível derrotar as forças reacionárias e garantir a preservação dos direitos democráticos e populares.
 
Será necessário, então, correr contra o tempo para restabelecer fortes laços com as organizações sociais de base e se empenhar na criação dessas organizações onde elas não existam, tendo como eixo principal a luta pelos direitos sociais básicos, de modo a evitar que se concretize o perigo de elas serem completamente tratoradas pela ofensiva reacionária. Mesmo porque é isso que pode permitir um trabalho consistente no sentido de, através da própria luta, elevar a consciência política e ampliar a participação massiva do povo, refletindo seus anseios, defendendo-os e transformando-os numa ação poderosa.
 
Do ponto de vista político, é isso que pode forçar as forças reacionárias a terem de recuar em sua determinação de impedir que Lula seja candidato às próximas eleições, vença e tome posse. É isso, também, que poderá forçar a esquerda e as demais forças populares e democráticas a adotar uma estratégia de reformas que supere a conciliação de 2002 a 2016, ao mesmo tempo impedindo que a direita tente novos golpes.
 
Se as forças democráticas e populares forem capazes de vencer essa corrida contra o tempo, pode abrir-se um novo período de ampliação dos direitos democráticos, de desenvolvimento soberano da economia, e de aprofundamento da luta contra as desigualdades sociais, contra o monopólio das terras agrícolas e urbanas e contra grande parte das mazelas que infelicitam o povo brasileiro. É isso que desejamos.

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Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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