Prisioneira voluntária de conto de fadas: o olhar fotográfico de Melania Trump

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Introdução – por Cassiano Terra Rodrigues, colunista do Correio da Cidadania

Dentre as controvérsias envolvendo a presidência de Donald Trump, sua mulher, Melania, protagonizou algumas. Uma delas foi televisionada para o mundo inteiro: no dia da posse, Melania, atrás de seu marido, fecha rapidamente o sorriso assim que ele deixa de olhar para ela, fato que deu pauta para muito sensacionalismo e especulação mediática. Mas, como mostra Kate Imbach no texto ora traduzido, mesmo antes da posse Melania Trump já se mostrava uma figura enigmática, quase insondável.

Um fato teve alguma repercussão: Melania Trump decidiu não se mudar para a residência oficial em Washington, D.C., suscitando especulações sobre seu papel como Primeira Dama dos EUA. A alegação oficial foi de que prejudicaria o ano escolar de Barron, filho de Melania e Donald Trump. Mas será esse mesmo o motivo? Por que Melania Trump tanto se esconde?

O texto de Kate Imbach ajuda a pensar o que pode se esconder por trás das imagens oficiais, ao analisar as fotografias tiradas pela própria Melania Trump e publicadas por ela em seu Twitter, antes mesmo de seu marido se candidatar. O retrato resultante é um tanto sombrio, mas joga luz sobre uma faceta da personagem que certamente nos diz muito sobre as sombras da nossa época.

* * *

Por que a Primeira Dama não assume seu cargo? Por quê? Fiquei obcecada com essa pergunta e, no fim, fui olhar o histórico do Twitter de Melania em busca de respostas. Pude notar que, no triênio de 3 de junho de 2012 a 11 de Jjunho de 2015, ela tuitou 470 fotos que ela mesma parece ter tirado. Examinei essas fotos como se fossem um conjunto de trabalhos.

Todo mundo tem um olhar, mesmo que não nos vejamos como fotógrafos. O que escolhemos fotografar e como enquadramos nossos assuntos sempre revelam um pouco sobre como percebemos o mundo.

Para alguém como Melania, treinada pela mídia, controlada e enclausurada, sua coleção de fotos no Twitter fornece uma visão da realidade de sua existência que de outra forma não seria pública. Em nenhum outro lugar – certamente não nas entrevistas ou nas aparições públicas – ela abaixa tanto a guarda.
 
E que realidade é essa? Ela é uma Rapunzel sem príncipe e sem cabelos, voluntariamente trancada numa torre e encantada com a previsibilidade e a repetição de seu próprio cativeiro.

Por que não mudar para a Casa Branca? Vejamos.

Julho de 2014

Julho de 2104

 

Em três anos, Melania só postou uma imagem de si mesma junto com Trump. Ele domina o enquadramento; o rosto dela está na sombra e cortado. Ao mesmo tempo em que é uma selfie, a imagem é um apagamento, um retrato da situação dela no mundo deles dois.


 
Melania postou cinco fotos de Trump com o filho do casal. Ela tirou cada foto de trás dos dois, às vezes literalmente do banco de trás. Os meninos na frente, as meninas atrás, o mesmo arranjo que todos ficamos espantados de ver no dia da posse, essa é a norma dela. Ela vive no plano de trás.

Se Melania vê sua família de trás, ela vê o resto do mundo de cima. Ela postou 74 fotografias da vista de sua casa na Trump Tower. Ela fica muito em casa, ou o que parece ser muito para alguém que tem 1 bilhão de dólares e um jatinho particular. Enfim, o bastante para capturar a mesma vista, de novo e de novo, em diferentes horas do dia e diferentes climas, ad nauseam.



Há uma passividade surpreendente nessas fotos de vistas da Trump Tower. Ela nunca mudou a composição dessas paisagens, ela não pôs nenhuma marca pessoal nelas. A hora do dia muda, ela tira uma foto, é isso. Há uma tranquilidade, uma espécie de segurança, nessa maneira de ver. A terra se move em torno do Sol, mas a fotógrafa está estável, na mesma e exata posição, dia após dia.



Todos temos uma tendência a repetir as mesmas imagens na nossa fotografia. Faz parte de ter um olhar. Mas, sabendo o que sabemos agora, que essas fotos foram tiradas por uma mulher que está evitando as responsabilidades de Primeira Dama, que está processando o Daily Mail pelos danos causados à sua “marca” por contarem que ela já foi uma acompanhante de luxo, uma mulher que tem a audácia de se recusar a sair de casa, mesmo que essa recusa venha com um custo de 50 milhões de dólares por ano em despesas públicas com a sua segurança, essas fotografias ganham um ar sombrio. Elas parecem ser a documentação da mudança das estações por uma reclusa arruinada. Deixe que o mundo caia à sua volta – ela não vai a lugar algum.

Mais sombrio ainda é que ela esteja lá agora, olhando para o resto de nós, de cima de seu lar na Trump Tower, como uma rainha.

Essas fotografias colocam ainda outra pergunta: se uma pessoa passa a maior parte de seu tempo fisicamente olhando para baixo para o resto da humanidade, será que ela considera a sua superioridade (pessoal) como um fato?


Melania postou 57 fotos de dentro dos carros. Primeiramente, eu supus que ela tinha feito as 15 fotos postadas do Central Park em pé dentro do parque, quer dizer, que ela tinha saído para um passeio em meio às massas de vez em quando.

Nã-nã-não. Observando de perto, podemos ver que os ramos de árvores estão borrados por causa do movimento do carro, as gotas de chuva não estão caindo, mas grudadas numa janela, e a luz do sol está refratada. Para ela, um passeio no parque é um passeio de carro.



Será que, tipo, ela nunca saiu? Não é bem assim, não ao menos pelo que ela postou. Ela foi para Washington D.C. e Barcelona, mas ela viu esses lugares também de dentro dos carros.



Ela foi muito a Mar-a-Lago, que é o lugar de férias mais mortífero do mundo, e a eventos culturais dos quais desfrutou com segurança em camarotes e na primeira fila, a um custo muito alto.



Esta, como uma pequena nota de rodapé, é da concha de um caranguejo-eremita, é a única fotografia de um animal que ela postou, à exceção daquelas que mostram cavalos de espetáculo em Mar-a-Lago.

Uma criatura que vive dentro de sua própria concha. Parece que ela se identificou, não?

Podemos todos afigurar a monstruosidade emoldurada do lar dos Trump com base em fotos de publicidade (candelabros, um garoto triste montado num leão empalhado, pilares dourados), mas pelos olhos de Melania trata-se de um lugar diferente. Ela tira fotos de dentro de sua casa de ângulos estranhos, de soslaio. É um efeito estranho quando os objetos meio escuros, cadeiras e tetos, tudo é dourado. Parece o que uma garotinha aterrorizada feita prisioneira de um ogro num castelo de contos de fadas veria quando ousasse dar uma olhadela através dos dedos.


Acho que a real razão pela qual essas fotos são compostas de maneira tão estranha é que ela queria que elas aparecessem como atualizações de status para seus seguidores, uma maneira de dizer que ela estava gostando de passar a noite em casa, mas, cuidadosa em não revelar os detalhes do interior de seu lar para o mundo externo, ela escolheu esses ângulos esquisitos como uma maneira de ofuscamento.

Ela faz a mesma coisa com fotografias de si mesma. Raramente ela posta fotos de rosto inteiro. Quando postou, ela estourou as fotos, editando tanto que os contornos são quase imperceptíveis. Seu nariz, aqui, não é muito mais do que duas narinas.



Em fotos onde se pode ver toda sua face e não estão estouradas, ela está disfarçada. Comumente usando óculos escuros, às vezes um chapéu.



Nas selfies não estouradas ou sem disfarce, ela corta de modo a se desfigurar. Que paradoxo! Ela já foi modelo, uma figura pública, “uma pessoa extremamente famosa e bastante conhecida”, uma mulher exposta, e ela só consegue suportar compartilhar selfies que a retratam como um grupo de partes desconjuntadas.

Em outras palavras, mesmo quando se mostra, ela se esconde.



* * *

As fotografias que Melania tira de seu filho são as mais fascinantes da coleção. Ela sempre ofusca o rosto dele, assim como também faz com seu próprio, protegendo-o como faz consigo mesma. Você nunca vai saber se era ele mesmo.



As fotos que Melania tira de Barron são quase todas compostas como essas acima. Ele está centralizado no meio de um grande horizonte, o oceano, o campo de baseball ou de golfe. Ele sempre olha para outro lugar, longe da câmera, olhando não apenas para frente, mas para além, o alto, o futuro.

Aqui não há passividade. Barron é o ator. Ele está em movimento, andando, nadando, olhando. Ele não enfrenta nenhuma das restrições que Melania põe sobre si mesma. Ele não está atrás de ninguém, nenhuma barreira, nenhum vidro. Fotograficamente, ela compõe para ele um mundo que é muito maior do que o dela mesma.



Melania postou só uma fotografia de si mesma junto com Barron. Também foi a única ocasião em que ela postou uma fotografia de todo o rosto dele, mas ela o disfarçou da mesma maneira como faz consigo mesma, na versão garotinho de seus grandes óculos de sol – viseiras para esqui aquático.

A razão pública dada por ela para ficar em Nova Iorque é que ela queria deixar Barron terminar seu ano escolar. Ela não queria perturbar sua vida. Isso é um absurdo, um descalabro que ela poderia ter considerado antes de apoiar a campanha para presidente de seu marido.

Melania quer que o mundo de Barron seja maior que o dela. Ele ocupa um espaço na composição que é totalmente diferente do dela, maior, mais vasto. Ela também quer protegê-lo, penso, mais do que a qualquer coisa. Para Melania, proteger significa esconder.



Melania postou sua última foto no Twitter na Quinta-feira, 11 de junho de 2015, cinco dias antes de seu marido anunciar sua candidatura para a presidência. É uma foto antiga, de um Barron com seis anos (na época), tirada na praia. Ele está olhando para baixo, para o chão à sua frente, dando tchau, com um castelo de areia profissionalmente construído em segundo plano.

Naquele dia Melania soube, é claro, que a campanha estava para chegar. Retrospectivamente, sua escolha de um post para uma ThrowbackThursday pode ser lida como uma profecia: um adeus à sua torre dourada, ao lar destinado a sucumbir. Até hoje ela ainda está lá em cima, na Torre dourada, segurando-se a ela enquanto puder.

Então, por que não se mudar para a Casa Branca?

Ela está se escondendo. Ela precisa tanto se esconder que não se importa com mais nada. Nem com seu país, nem com sua má aparência, nem com o dinheiro que isso nos custa. Ela não tem vergonha, porque, para ela, esconder-se não é algo para se envergonhar. É segurança.

Ela vive por trás do vidro, em carros, na sua casa, em aviões particulares e em resorts particulares. Ela sequer sai do carro para ver os monumentos ou passear no parque. Ela nunca está entre o público, nem por um segundo.

Melania Trump é a mulher menos adequada para o serviço público em toda a história dos Estados Unidos da América. Não devemos esperar nada dela. Ela está vivendo num conto de fadas sombrio, e, em contos de fadas, as mulheres presas em torres nunca salvam ninguém, a não ser a si mesmas.

Kate Imbach é cineasta e escritora.
Publicado originalmente em Medium.

Traduzido por Cassiano Terra Rodrigues, colunista do Correio da Cidadania.

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