Difícil é descobrir o que não existe?...

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“Entretanto, Hermes, o deus cilênio, ia chamando as almas dos pretendentes. Tinha na mão a bela varinha de ouro, com que, a seu bel-prazer, fecha os olhos dos homens ou os desperta do sono. Com ela pôs as almas em movimento, e elas o seguiam, soltando tênues gritos. Nas profundas cavidades de uma gruta, onde os morcegos se agarram em cacho, se um deles se desprende, os demais começam a esvoaçar, fazendo ouvir estrídula chiadeira: assim iam, em chusma, as almas, soltando tênues gritos, guiadas por Hermes, o deus benfazejo, nas úmidas veredas. Passaram além da corrente do Oceano e da rocha Lêucade, ultrapassaram as portas de Hélio e o país dos Sonhos, e depressa alcançaram o prado de Asfódelo, onde habitam as almas, fantasmas dos defuntos”. (HOMERO, ODISSÉIA, Ed. Nova Cultural, 2003, p. 303-304)

1. A DEMOCRACIA EM GOTAS CRÔNICAS

Nada parece mais
Desnecessário que as
Doenças crônicas;
Nossa democracia
Está mais para doses
Homeopáticas e a
Conta-gotas. A cura
Preventiva nunca chega.
Vive capenga e ameaçada.

Os velhos mandatários
Nada mais são
Do que os velhos
Ideólogos das
Frações da classe dominante,
Dominando por aí.
Só representam seus
Próprios interesses.
Sentem alguma
Coisa na alma,
Mas nada que
Apresente alguma
Mudança. É o velho
Ritmo do ritual do mesmo.
Estão confortados a permanecerem
Onde sempre estiveram;
Apenas querem mudar alguns
Utensílios e inutilidades gerais;
De preferência para
Os outros,
Jamais para eles.

Eleições e voto
São as gotas permitidas.
Aos mortais eleitores
Que quase esquecem
De qual classe pertencem.
No dia da eleição
Podem escolher
Quem não os representará.
A democracia toma seu
Anti-inflamatório e os
Trabalhadores vão para
Casa ver o resultado
Da doença que irão
Enfrentar. O receituário amarelado
Quase já não prescreve nada.
Muita tosse, pouca febre e o eleitor
Passa bem, apesar de mutilado.
Até a próxima eleição
Tudo muda para nada ser mudado.
E o povo? O que é o povo?...  Senão um
Tolo para ser enganado?...

2. OS DESGRACIDOS

No eito
Só havia um jeito
Trabalhar ou passar fome
A crise só tem
Um nome:
Os desgracidos
E são muitos;
Já os que têm sobrenome
E fortunas
São poucos.

Perambulam por aí
Procuram por todos os lados
Não encontram
Os rumos que lhes
Foram roubados...

Se são a força de trabalho...
Se são a sobra de trabalho...
Se são os descartáveis na fila...
Se são os disponíveis no estoque...
Se são os desempregados nas estatísticas...
Se são tudo isso e ainda
Serão condecorados como
Os desgracidos?...

Já se comemora
Em alto escalão republicano
Muitos serão condecorados
Com a comenda da ordem maior:
Os desgracidos do ano!

3. É DESGRACEIRA... BRASIL

É gente chorando
É filha atingida
É gente morrida
É miséria consentida
É muita morte morrida
É gente que sobe moro
É gente que desce morto
É muita gente morrida
Muita nem é
Por bala perdida...
Já que é a nação
Que está perdida...
É muito mais por
Nação desgracida
Governo de poucos
Classe alta protegida
Trabalhador morrendo
Na perambeira...
Desgraceira sem beira...
Até o poeta Drummond já
Deve ter chorado ali...
Não há tanto mar
Em Copacabana...
Um tanto grande do oceano
São lágrimas do povo
Que banham a praia!

4. DEPOIS DO CARNAVAL: OS BLOCOS DO PODER...

Depois do carnaval, uns considerados meio-governantes, saíram para ver o mundo, e quando perceberam já havia passado o carnaval... Tudo deveria mudar, para nada ser feito. Gertrudes cantava um samba e sua vizinha gritava no portão...
    
– Gertrudes, tá em casa?...
– Sim, não tinha ouvido você me chamar...
– Cantava, você...
– Sim, samba...
– É... passou o carnaval...
– Mas, a eleição...
– ...?
– Agora começam os blocos dos candidatos...
– Pois é...
– Nossa! Nossos títulos vão valer alguma coisa...
– Só não escolhi ainda o meu mafioso...
– Mafioso?...
– Ué... Não são eles que dizem que gostam de chefiar quadrilhas?...
– Por isso querem mandatos?...
– Não. Dizem por aí que dessa arte já são mestres... Eles querem se beneficiar com o tal do status quo...
– Estado?
– Também!

5. ESTAMOS PERDIDOS, MAMÃE...

– Mãe, fui procurar no mapa e não encontrei...
– O que procurava meu filho?...
– O GPS da nação...
– O que é isso meu filho?...
– Também não sei mãe; me mandaram procurar no tal do Google e não encontrei.
– Faz tanto tempo que eu vejo tanta gente procurando isso. Vai ver não existe mesmo e você fica perdendo o seu tempo procurando essas coisas...

6. O QUE PODE SER O FUTURO?...

O que é o presente,
Se nem sempre
O futuro é seu espelho?...

Muitas vezes o futuro
Nada mais é
Do que o presente
Superado,
Ou destruído,
Ou o passado esquecido;
Ou ainda,
Seu oposto,
Seu lado
Sem parte,
Sua porta
Sem tramela,
Sua escada
Sem degraus,
Travessia de rio
Sem ponte,
Caminho trilhado
Sem estrada aberta;
Ou jardins que teremos
Que plantar flores
Sem as mudas
Colhidas no passado,
Mas teremos que fazê-las
Germinar!?...

Roberto Antonio Deitos é poeta e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.

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