Eletrobrás: não há inocentes nessa história

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O nível de desinformação sobre energia elétrica de grande parte das pessoas é de deixar qualquer um chocado. A sensação que tenho é a da total inutilidade do mostrar dados e fatos que revelem o oposto do que a maioria da sociedade pensa. Num assunto fundamental como a privatização de uma estatal como a Eletrobras, falsas questões vicejam. Todos se preocupam com as “fake news”, mas ninguém nota as “partial news” da grande mídia, divulgando apenas fotos instantâneas. O filme, que conta a trajetória, nunca surge no noticiário. Como os cidadãos já sofrem a carência de itens básicos tais como educação, segurança, transporte e trabalho, as “partial news” são um sucesso!

O insumo energia elétrica é tão precioso que ouso compará-lo ao sangue num corpo vivo. Exagero? Pois vou além nessa metáfora: o Brasil parece estar “leucêmico” nessa energia tão básica. Estamos com uma doença silenciosa que avança sem ser percebida. Com a devida licença da área médica, o paciente não sabe que está doente.

Um país como o nosso, que tem a sorte de contar com usinas hidroelétricas, não deveria punir seus cidadãos com altas tarifas! O sol evapora a água, ela forma nuvens, chove sobre os continentes, a água desce os rios e turbinas giram transformando essa energia cinética em grande quantidade de eletricidade. Ao contrário de outros sistemas, nós ainda temos a vantagem de poder guardar água dos períodos chuvosos para usar nos períodos secos! E ainda temos ventos que ventam mais nos períodos de baixa hidrologia!

Precisa falar do sol? O que pode ser mais patrocinador de preços baixos?
Se “a crise da educação no Brasil não é uma crise, e sim um projeto”, como disse uma vez Darcy Ribeiro, não se pode esperar que cidadãos que não têm direito ao básico saibam o que está acontecendo.

Por outro lado, como é possível a parcela da sociedade educada estar tão mal informada?

Como temos um território longitudinal, com 4.000 km no sentido norte – sul e clima tropical, o sistema foi arquitetado para aproveitar essa dádiva trazendo energia de onde chove para regiões que fazem sol. Essa diversidade é frequente e permite que linhas de transmissão “transfiram rios” por mais de 2.000 km. Essa configuração física não é encontrada em outros países, pois depende muito da geografia. Todo esse sistema foi imaginado e implantado pela “ineficiente” Eletrobras. Toda a metodologia de operar essa rede, que exige coordenação, justamente o que vamos precisar com a entrada das fotovoltaicas e eólicas, é obra da Eletrobras.

Portanto, a pergunta é: como algo eficiente perde a eficiência? Só corrupção e influência política?

Nós, brasileiros, temos muita dificuldade ao lidar com o espaço público. Todos nós percebemos isso nas desobediências às regras de trânsito, no tratamento do lixo e principalmente no comportamento dos políticos. Talvez isso faça parte da nossa história e da nossa cultura. Entretanto, desconfiem do diagnóstico fácil de atribuir os problemas da Eletrobras à corrupção. As políticas impostas foram muito mais nocivas.

Hoje, depois de o governo Dilma obrigar que metade das usinas da Eletrobras entregue energia por menos de 1/5 dos preços privados, um consumidor brasileiro paga por 1 kWh o dobro do que paga um norueguês ou um canadense, cidadãos que também moram em pedaços abençoados do planeta. Por acaso essa compulsória redução de tarifa foi um projeto para os pobres? Claro que não!

Já imaginaram o alívio do capital privado, quando, em 2012, percebeu que toda a responsabilidade por reduzir tarifas cairia sobre a Eletrobras? Ufa! Nenhum diagnóstico! Na verdade, foi um segundo presente, pois, além dos empréstimos subsidiados do BNDES, esse capital privado, que hoje esbraveja, se aproveitou caladinho das parcerias “camaradas” da Eletrobras. Adivinhem se foi um bom negócio para a Eletrobras?

Se ninguém sabe, ou, convenientemente, esqueceu desses detalhes mais recentes, tente imaginar o “Bolsa Megawatt” de 2003, quando, mesmo com preços mais baixos, a Eletrobras perdeu os seus contratos, foi obrigada a gerar por ter fontes hidroelétricas e ficou por mais de três anos “patrocinando” o crescimento do mercado livre, onde estão os grandes capitais privados.

Nas redes sociais, a privatização da Eletrobras provoca acaloradas discussões, mas, o que chama atenção é que existe um grupo que desconhece que o setor já é majoritariamente privado. Parece que precisam de um ente estatal qualquer para colocar a culpa na alta tarifária.

Isso, como se, no Brasil, não tivéssemos inúmeros exemplos de sofríveis e caros serviços prestados pela iniciativa privada! A Eletrobras virou a Geni, onde muitos “jogam pedras”, mas ela só tem 33% da geração, sendo que, em parte, ela é minoritária em projetos privados! Na transmissão, são 47% e a distribuição é dominada por empresas privadas. Portanto, se você é uma dessas pessoas do “privatiza tudo”, lamento informar que a energia que você acha cara já é privada. Aliás, se não fosse a Eletrobras, ela seria ainda mais cara. Data inicial da disparada de preços? 1995, marco zero da mercantilização e privatização. Coincidência?

Chega às raias do ridículo o ar de “não é comigo” das autoridades e executivos do setor privado quando fazem declarações sobre a situação. É como se tivessem chegado de Marte naquele instante e não tivessem participado dessa trajetória que, hoje, só produz alegria aos escritórios de advocacia. É como se, ao receber vantagens, fossem inocentes “vítimas” de agentes estatais, entre eles a Eletrobras.

O problema é o espaço público, essa coisa que não é de ninguém. Se o Brasil insiste em ter um Estado que quer minimizar o risco de alguns setores a qualquer custo, o empresariado não fica isento de não perceber que a deterioração do quadro geral acaba atingindo a todos.

Não há inocentes nessa história.

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Roberto D'Araujo é engenheiro, ex-consultor da Eletrobrás e colaborador do Instituto Ilumina.

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