Crise, incerteza e briga de facções

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Crise profunda, incerteza galopante e briga entre facções. Se alguém chegar de fora, e precisar de um retrato arguto ou rápida definição do Brasil nesse exato momento, essas poucas palavras são precisas.

 

Mas é sempre possível aprofundar o raciocínio, com novas avaliações, ou até repisando ideias já batidas.

 

Uma novidade, talvez, seja o fato de que os governistas e petistas de primeira hora, que acreditaram ou fingiram acreditar no ‘coração valente’ de Dilma na última corrida eleitoral, estão ficando cada dia mais sem chão pra negar o que pode estar se insinuando como o derretimento da ‘hegemonia lulista’.

 

Uma hegemonia que buscou atender aos abastados e aplacar a base da sociedade, enquanto a economia internacional crescia e reinvestia parte de seus vultosos lucros no Brasil. Essa hegemonia se baseou, em um dos extremos, no aparelhamento do Estado pela burocracia e dirigentes petistas;  no outro extremo, ela prosperou a partir da passividade das massas populares, atraídas por uma pauta assistencialista e por políticas públicas de redistribuição de renda.

 

Fim da farra com os recursos fartos que vinham d’além mar; fim de possibilidades de conciliação de classe. Não há mais, portanto, como não enxergar o grau de rendição que atingiu um ‘governo dos trabalhadores’, quando a corrupção em uma das maiores empresas públicas do país salta aos olhos; quando alguns dos grandes formuladores que restaram na oposição bradam para o país que a presidente não tem mais o que fazer: ou se rende a Levy (ministro da Fazenda, que prioriza uma política econômica recessiva de ajuste fiscal e cortes de direitos sociais), ou cai no mais absoluto imobilismo; quando, ademais, o PMDB dá tombos diários no atual governo, noticiados triunfalmente na mídia corporativa  - um dos mais recentes, ameaçando a presidente Dilma com o corte de quase metade do número de ministérios, com os quais, diga-se, o PMDB tem sido dos maiores agraciados.

 

De fato, estes são reveses que não constituem surpresa para quem observou com alguma dose de realismo as contradições impressas no modelo de desenvolvimento dos últimos 12 anos, com um governo se equilibrando entre duas pontas inconciliáveis. Mas persistem ingredientes ainda notáveis e surpreendentes nessa conjuntura, em que se desnudam as armadilhas do pacto de desenvolvimento dos governos petistas, já introjetadas por membros do próprio governo. Chega a ser incrível a persistência de um clima de “nós contra eles”, ou do “eles contra nós”. Duelo alimentado por governo e oposição, indistintamente, a carregar consigo muito do inconsciente coletivo.

 

É aí que mora a grande armadilha em que está metida a nação – armadilha que esse jornal vem buscando descortinar com suas matérias e editoriais, a cada nova mudança de conjuntura. As manifestações governistas, que começaram no dia 13 de março, e as oposicionistas, desde o dia 15 de março, e a repercussão que passaram a ter, são bastante simbólicas do espírito que toma conta do país: personalização do mal, palavras de efeito, jargões pra lá de primitivos recheiam mentes e comentários, pessoais e midiáticos, deixando remotas as chances de se entender estruturalmente as reais causas de tamanha degringolada econômica, política, social e institucional.

 

A crise no petismo/lulismo, com a decorrente e profunda reorganização da sociedade brasileira, aponta, sem dúvidas, para o cenário atual de crise política e institucional, mas também para uma mudança de qualidade na luta política. Um reposicionamento e eventual unificação da esquerda progressista está na ordem do dia. Assim como já está em andamento uma reorganização de setores expressivos da população à direita, que corre paralelamente à unificação dos setores dominantes, com vistas a humilhar a presidente.

 

Sangrá-la até o fim, submetê-la a processo de impeachment ou induzir sua renúncia estão no horizonte desses setores, e não há possibilidade de prever o que vem pela frente - o que muito dependerá do grau e impacto da desaceleração econômica.

 

Não se perca de vista, no entanto, que, de um lado da quadra histórica, está a direita escrachada, conservadora, fascista e golpista, que foi às ruas no dia 15 de março (mas não somente ela, ressalte-se), que jamais ligou para a moralidade das instituições públicas e a ética da representação política. Do outro lado, por sua vez, está um partido que, juntamente com a CUT, organizou as manifestações do dia 13 de março e, justamente por se intitular ‘dos Trabalhadores’, praticou uma das maiores imposturas históricas para um partido que nasceu progressista, ao lado dos trabalhadores e à esquerda do espectro político: usurpou a bandeira da direita, corrompeu o sistema de representação política, fragilizou em boa parte a esquerda e desestabilizou o país.

 

Se o primeiro grupo não estivesse também perdido com o fim da possibilidade de reciclar o neoliberalismo a partir da hegemonia lulista, certamente optaria pelo ‘golpe democrático’ – afinal, para tocar o programa do PSDB, bem melhor seria um quadro do próprio partido. Quanto ao segundo grupo, o que propõe de novo desde o dia 13, a não ser gritos de guerra em defesa da Petrobras e falas etéreas para uma reforma política que nem de longe vai atingir o essencial das estruturas de poder?

 

E o que ambos os grupamentos questionam quanto ao ajuste fiscal, que virá a mexer em direitos sociais, a desempregar, em breve, parte substancial da classe trabalhadora, a qual, muito provavelmente, irá sair da toca e engrossar os clamores da classe média pelas ruas? Absolutamente nada.

 

O Brasil está hoje diante de uma briga de facções. Não tocam no que é primordial. E não têm, nenhuma delas, a mais mínima condição moral para falarem uma da outra.

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