Fim de ciclo

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A crise política continua arrastando o país em direção à paralisia e não há qualquer sinal de que tal dinâmica se altere no curto ou médio prazo.

 

Não à toa, vemos a volta do fantasma do impeachment, sustentado por notícias que dão conta de irregularidades técnicas nas contas, sejam de governo ou de campanha, além de todos os capítulos da Operação Lava Jato.

 

PMDB e PSDB, nesse sentido, entendem-se telepaticamente, cada um capitalizando a seu modo a sangria do mandato petista; o primeiro aproveita para exercer, de fato, o poder; já o segundo grupo, trata de se credenciar para fazê-lo na sequência.

 

Tanto é assim que Eduardo Cunha, às vésperas do recesso parlamentar, finalmente deu a letra do futuro, ao deixar claro que seu partido “não aguenta mais aliança com o PT”. Um claro, e provavelmente bem vindo, sinal ao tucanato.

 

É na incapacidade de lidar com a grave conjuntura que reside o grande drama do governo Dilma 2 e, em última instância, do lulismo. Trata-se de governo que, de maneira envergonhada, se ajoelha às exigências do mercado – onde entende residir sua governabilidade – e que, a cada pronunciamento de sua mandatária, parece enfraquecer-se ainda mais.

 

Aliados do governo, ícones anteriores de uma militância social progressista, inserem-se nessa mesma rota de submissão. A principal central de suporte ao lulismo, a CUT, aprova a nova MP que reduz em 30% a jornada de trabalho e o salário, chamada de Medida de “Proteção ao Emprego”. O aumento no crédito consignado em até 35% da renda é inócuo frente a esse quadro.

 

O projeto que se anunciava popular e emancipador, e que se opôs com veemência à entrega do patrimônio público durante o governo FHC, atira uma a uma as suas bandeiras de reformas democratizantes no lixo. Acomoda-se sob o mesmo modelo ao qual outrora se insurgiu, e agora é incapaz até mesmo dos reparos assistencialistas e distributivistas dos momentos de bonança econômica internacional.

 

Enquanto as manifestações de junho, e suas similares subsequentes, clamaram por ainda mais presença do Estado nas áreas sociais, vemos o mesmo cortar exatamente nessas pastas, além de se blindar ainda mais para o atendimento de interesses corporativos. Como também o demonstram a Reforma Política em tramitação no Congresso, que tem como um de seus pontos centrais legalizar de vez o financiamento privado de campanhas – ou a compra antecipada de mandatos –, e a reforma eleitoral de Cunha, que visa despolitizar de vez os processos eleitorais.

 

A crise que agora chega no topo mostra a fragilidade do governo, mas também do Estado brasileiro e sua incapacidade de ação pública. Estamos diante de um Estado que nunca foi público e cujos problemas atuais são análogos aos que acontecem historicamente nesse país, em tantos outros governos.

 

Corrupção e prisões mostram a relação íntima de empresas com governo, em nossa longa tradição de promiscuidade público-privada. Trata-se de lógica que engolfa todas as forças políticas tradicionais, indiscriminadamente, sem uma única exceção. A corrupção extrapola, portanto, a questão moral e mostra hoje o seu caráter sistêmico de forma pronunciada.

 

A grande mídia corrompe ainda mais a atual trajetória regressiva do país -  utiliza-se da conjuntura para fazer guerra política. Apropria-se da crise unicamente para fritar Dilma, contribuindo para a perda de uma oportunidade histórica de se entender o caráter sistêmico da corrupção.

 

Se a crise persistir sendo utilizada como guerra fratricida, a consequência será apenas um troca-troca entre os grupos poderosos, em uma disputa para ver quais serão os grupos que passarão a arbitrar a economia. No canto do ringue, permanecerá a imensa maioria da população, carente de um projeto alternativo. As forças que, por sua vez, poderiam oferecer novas saídas ainda hesitam entre o novo e o velho, entre as alianças cabíveis ou não em uma possível “Frente”.

 

O agravamento da crise econômica e das denúncias de corrupção, que agora também explodem contra Cunha e outros senadores, vai aprofundar a crise política no mês de agosto, quando o Congresso voltar do recesso. Greves dos servidores públicos deverão estar no auge e manifestações à direita e à esquerda voltarão a ocupar as ruas.

 

Será o momento de os movimentos sociais combativos, os movimentos grevistas, os partidos coerentes da esquerda socialista e os movimentos de luta pelos direitos de minorias se unirem em torno a ideias que não se confundam com pautas demagógicas e o discurso fácil do condomínio tucano. E que, igualmente, fiquem longe de um projeto de esquerda vergonhosamente falido, ao aderir ao balcão da corrupção e governar com o ajuste neoliberal como receita para a crise.

Comentários   

0 #2 RE: Fim de ciclo Sandro 11-08-2015 05:49
E que essa nova esquerda [ se e' que o PT foi de esquerda ] tenha tambem como valor o respeito ao meio ambiente e tenha uma politica ambiental de respeito .
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0 #1 RE: Fim de ciclo lepre 27-07-2015 22:06
fim de um ciclo...início de outro, para o bem da esquerda o PT tem que dasaparecer, não porque são ladrões, ineficientes, estúpidos, etc, mas para dar lugar a um outro modelo de esquerda, é a dialética
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