Santiago: mais um desaparecido

0
0
0
s2sdefault


Os argentinos foram às ruas na sexta, 11, em Buenos Aires, e lotaram a Praça de Maio, para exigir a aparição com vida do jovem Santiago Maldonado, que foi preso por soldados durante a desarticulação de um protesto da comunidade Mapuche e desde aí não foi mais visto.

Santiago é artesão, tem 28 anos, e estava vivendo na cidade de Bolsón, na província de Rio Negro. A cidade é bastante conhecida na argentina, pois durante muito tempo abrigou uma comunidade hippie e até hoje atrai pessoas de estilo alternativo. Santiago estava trabalhando na região, fazendo tatuagens em feiras artesanais.

Tocado pelo drama dos povos originários de seu país ele decidiu viajar até uma localidade próxima, Cushamen, onde desde o ano de 2015 a comunidade Mapuche ocupa um território que considera seu, mas que foi comprado por um empresário italiano, Luciano Benetton. Sua intenção era prestar solidariedade aos Mapuche, participando de algumas de suas ações de resistência, como a dos bloqueios da estrada que liga a região ao Chile. Os protestos estavam sendo feitos para pressionar o governo argentino pela libertação de uma liderança Mapuche, Facundo Jonas Huala, preso em junho, e que esta em vias de ser extraditado para o Chile.

Santiago chegou à comunidade Mapuche no dia 31 de julho e no dia seguinte, primeiro de agosto, a Gendarmeria Nacional também chegou com a ordem de desfazer os bloqueios e desalojar as famílias que ali se concentravam. O confronto com a polícia foi, como sempre, violento. Os soldados chegaram atirando com balas de borracha e também com balas de verdade. A violência do ataque e as balas fizeram com que a maioria dos ativistas corresse para o rio, e boa parte dos Mapuche conseguiu cruzar o rio Chubut a nado. Santiago não teve essa sorte. Segundo testemunhas, ele tentou subir numa árvore e foi aí que os soldados o pegaram. Há relatos de que ele foi bastante golpeado e depois jogado em uma camioneta da gendarmeria. Os soldados negam que tenham levado o rapaz.

Desde aí a família de Santiago tem procurado sem descanso. E, com a solidariedade de sindicatos e movimentos sociais, os protestos pedindo a aparição de Santiago não param. A Argentina vive um momento de eleições legislativas e os ânimos estão bastante acirrados. Os movimentos insistem que é responsabilidade do governo de Maurício Macri dizer onde está o rapaz, afinal, quem o levou foi a polícia, que representa o Estado.

Os familiares contam que os policiais fizeram buscas no local, mas não encontraram vestígios do jovem artesão. A cunhada de Santiago diz que as camionetes foram todas lavadas, o que é bastante suspeito. A família tem esperança de encontrá-lo com vida. “Pode ser que estejam esperando para que sumam as marcas da violência”, dizem. Mas, também é bem possível que ele esteja morto.

Acompanhando a manifestação em Buenos Aires, na cidade de Bolsón umas 300 pessoas também se concentraram ontem em frente ao 35º batalhão da Gendarmeria, exigindo a aparição de Santiago. Entre gritos de “gendarmes assassinos” e “Estado opressor” os manifestantes queimaram uma bandeira argentina, provocando outros manifestos em defesa da bandeira. “Desde quando uma bandeira é mais importante que a vida de um jovem?”, reclamam.

Para os argentinos, que ainda buscam os milhares de desaparecidos do tempo da ditadura, Santiago virou um símbolo a mais nessa luta que parece não ter fim contra a permanente violência dos aparelhos repressivos.

Que apareça com vida, ou não se calarão.

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC, onde este texto foi originalmente publicado.

Comentários   

0 #1 Santiago mais um desaparecidoJosé Jésus Gomes de 26-08-2017 14:40
Interessante como, superada uma ditadura, não se desmontam seus instrumentos de opressão. Aconteceu na Argentina. Aconteceu no Brasil. É como uma espada de Dámocles que se mantém, continuamente ameaçadoras, sobre as cabeças dos cidadãos e que, algumas vezes, é baixada e decepa alguma.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados