Obama e Mario Soares mereciam o cantochão?

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Duas despedidas marcaram o noticiário dos últimos dias na mídia conservadora brasileira. Uma, de um mandato. Outra, de uma vida. Ambas, falaciosamente, gerando loas imerecidas.

Do mandato, falamos de Obama

Snowden, banido como traidor, por ter revelado espionagem ilegal dos órgãos de segurança. Assange, encerrado num quarto de embaixada por conta do exercício de um incontestável jornalismo investigativo, que revelou as vísceras dos podres poderes do complexo industrial militar ianque. Guantánamo, única parte do território cubano onde comprovadamente se exerce a tortura sobre inocentes. Drones batendo recordes de execuções de supostos “terroristas” nas mais diversas partes do mundo, com efeitos colaterais significativos, sobre populações civis. Uma diplomacia pautada por interesses estratégicos do país, onde a ética e a coerência foram para o brejo em inúmeros exemplos.

Imaginemos se fosse esse o dossiê do fim de mandato de Putin, Evo Morales, de Rafael Correa, de Chávez ou de qualquer outro governante que ousasse se defrontar com a hegemonia imperialista do Departamento de Estado norte-americano. No mínimo o boletim oficial da direita brasileira mais reacionária lhe dedicaria as laudas que hoje endereça diariamente a Nicolas Maduro.

Pois, trata-se apenas de uma síntese dos dois mandatos de Obama, preto sestroso, malemolente, performático, que limpa, na forma, sem tocar na essência, a imagem de um país conservador, fundamentalista na religiosidade, expansionista, racista e xenófobo. E que a direita de todo mundo reverencia como “exemplo de democracia”.

Louvá-lo é desonrar o legado de um antecessor, esse sim digno da maior admiração, respeito e saudade: Franklin Delano Roosevelt. Um reformista liberal que, não tivesse falecido no início de seu quarto e último mandato, certamente teria deixado um legado de 50 anos de Paz, sem a Guerra Fria que se transformou na marca de seu medíocre sucessor, o reacionário Henry Truman.

Do que deixou a vida, falamos de Mario Soares

Demetrio Magnoli, um dos teóricos da direita sofisticada – e, por isso, muito perigosa – estende infindáveis tapetes vermelhos ao ex-dirigente português, que alguns querem como pai da pátria, por ter brecado o ímpeto da Revolução dos Cravos, sem contar o principal. Terminou a carreira política com um estrondoso fracasso eleitoral. O que faz compreender a lamentação de um cronista conservador português, contra a “ingratidão” do povo, em sua coluna no jornal Público:

“Não faltou nada ao funeral de Mário Soares. Honras de Estado. Três dias de luto nacional. Fotografias espalhadas pela capital. Altos dignitários. O rei de Espanha. Uma cerimónia impecavelmente organizada. Momentos íntimos e comoventes. (...). Jornais e revistas desdobrando-se em homenagens. Não faltou nada. Exceto gente”.

E pour cause. Mario Soares foi o primeiro exemplo de socialdemocrata pronto a fazer o jogo sujo do grande capital, na contrarreforma neoliberal que, nos anos 70/80, transformou seu partido, e vários outros semelhantes da Europa, em social-liberais, meros servidores dos banquetes ao grande capital em sua globalização financeira.

Nada mais natural, portanto, que não só o primeiro-ministro Antonio Costa não tivesse interrompido sua viagem à Índia, como a grande maioria do povo lusitano se lixasse para o espetáculo que se pretendeu armar em torno da despedida de Mario Soares.

Antonio Costa sabe o que enfrentou para levar o PS português a uma aliança com o PCP e o Bloco de Esquerda, algo que era abominado pelos partidários internos de Soares.

Já o povo, esse quando se ausenta – coisa que não fez quando do funeral de Alvaro Cunhal, ou da vitória da seleção portuguesa na Eurocopa – é porque sabe o que merece sua presença nas ruas.

Mario Soares não estava no rol.

 

Milton Temer é jornalista e ex-deputado federal.

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