O ataque “incrivelmente limitado” de Donald Trump

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Poucas vezes um ataque tão limitado como o lançado pelos EUA com mísseis de cruzeiro contra a base aérea síria de Shayrat fez tanto barulho. O presidente Donald Trump autorizou o ataque no anoitecer de quinta-feira, 6 de abril, pouco antes de assistir a cena com seu homólogo chinês, Xi Jinping, em sua mansão Mar-a-Lago na Florida. Com toda a probabilidade, tinha sido o mínimo que planejara Obama quando o regime sírio cruzou a “linha vermelha” em agosto de 2013. Em uma de suas declarações memoráveis, John Kerry qualificou essa opção como um “esforço muito limitado, pontual e de curto-prazo”, um esforço que seria “incrivelmente limitado”.

Que o Pentágono fizesse uso desse antigo plano parece corroborado pela declaração do ministério da Defesa russo, cujo porta-voz descreveu o ataque nesses termos:

Em 7 de abril, das 3h:42 às 3h:56 (de Moscou), dois destroieres da Marinha dos EUA (USS Ross e USS Porter) realizaram um ataque massivo com 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk, a partir da região próxima da ilha de Creta (Mar Mediterrâneo) contra a base aérea síria de Shayrat (província de Homs). De acordo com dados do acompanhamento da missão, 23 mísseis alcançaram de fato a base aérea.

Portanto, a eficácia militar da massiva agressão estadunidense com mísseis na base aérea síria é extremamente baixa. Hoje, fica evidente que o ataque com mísseis dos EUA estava planejado desde muito antes desse acontecimento. É necessário (normalmente, antes de um ataque do tipo) realizar operações de reconhecimento, planejar e preparar as trajetórias de voo dos mísseis e colocá-los em alerta de combate total. Está claro para qualquer especialista que a decisão de atacar a Síria com mísseis se tomou muito antes do acontecido em Khan Sheikoun (quando o suposto uso de gás sarin pelo exército de Assad matou 86 pessoas), que se transformou numa mera justificativa formal do ataque, enquanto a demonstração de poderio militar veio ditada exclusivamente por razões de política interior.

O ataque foi tão “incrivelmente limitado” e seus efeitos dissuasórios tão escassos que a força aérea síria reativou seus bombardeios sobre Khan Sheikun no dia seguinte, enquanto se iniciavam trabalhos de reparação da base aérea de Shayrat. Contrariamente aos numerosos comentários sobre o milagre que se tinha produzido se Barack Obama houvesse determinado uma agressão similar em 2013, o mais provável é que não tivesse mudado grande coisa no curso da guerra síria.

Unicamente, um ataque de muito maior escala poderia ter um efeito importante ao infundir pânico nas fileiras do regime de Assad. Se o anterior presidente tivesse mantido sua “linha vermelha”, em 2013, com um ataque “muito limitado” como aquele que lançou Trump, no melhor dos casos poderia prevenir o assassinato com armas químicas das 86 vítimas de Khan Sheikun, mas não teria salvado a vida de quase meio milhão de sírios que foram vítimas das armas “convencionais” desde o começo da guerra.

A própria linha vermelha de Obama era de todo imoral. Era como dizer: “matem tantos quantos quiserem com armas convencionais, mas não usem armas químicas porque podem respingar além da fronteira”. Essas últimas armas foram proibidas, como declarou Obama em 20 de agosto de 2012, porque é “uma questão que não concerne somente à Síria; concerne aos nossos aliados na região, inclusive Israel”. Assim, as lágrimas de crocodilo de Trump pelos “lindos bebês” massacrados pelas bombas de gás foram incrivelmente hipócritas. Com efeito, é muito difícil acreditar que o presidente dos EUA não tenha visto antes bebês sírios assassinados e mutilados na Fox Neews, sua única fonte de informação “confiável”.

Sua luz verde ao ataque “incrivelmente limitado”, concebido durante a presidência de seu antecessor, não foi de modo algum espontâneo, fruto de uma indignação moral. Apressado desde o ponto de vista militar, o ataque respondeu a uma decisão política bem meditada. Seu impacto político foi enorme. Luke Harding resumiu corretamente seus resultados no Guardian.

Para a Casa Branca, esta quinta-feira trouxe claros dividendos. Depois de um período caótico, no qual o governo se viu acossado pelos seus aparentes vínculos com o Kremlin, as notícias mudaram totalmente de sentido. Durante meses, Trump tinha sido incapaz de eludir as acusações de que se conchavava com Putin antes das eleições estadunidenses. Agora o presidente atuou abertamente contra os interesses estratégicos da Rússia. Ou ao menos aparentou.

Alguns dos críticos republicanos mais severos com Trump em relação à Rússia – os senadores John McCain e Lindsey Graham – aplaudiram sua decisão. Horas antes do ataque, Hillary Clinton declarou que apoiava a intervenção. O grau de aprovação de Trump nas sondagens de opinião se acha em níveis historicamente baixos. Imaginamos que agora começaram a subir.

Mas há muito mais por trás do assunto que essas “razões de política interior” que havia detectado o próprio porta-voz militar russo. O ataque a Shayrat é na realidade a primeira salva da grande estratégia em marcha de Trump. Encaixa perfeitamente na doutrina de Trump em matéria de política externa, que Josh Rogin resumiu com acerto no Washington Post, em 19 de março, dias antes do ataque, com o lema: “escalar para desescalar”. Vale a pena refletir sobre o artigo, pois o mais provável é que apareça retrospectivamente como guia do que talvez vejamos nas próximas semanas.

O ataque a Shayrat poderia muito bem ser a escalada indispensável para a posterior desescalada apregoada há tempos por Donald Trump com a Rússia, e a acomodação com Bashar al Assad, ao mesmo tempo em que foi uma mensagem ao Irã, o arqui-inimigo definido pelo governo de Trump.

Ao se dar durante o jantar de Trump com Xi Jiping também foi – talvez acima de tudo – uma mensagem a China em relação à Coreia do Norte. Trump, que tinha ridicularizado a “linha vermelha” de Obama na relação com a Síria, traçou sua própria com a Coreia do Norte, quando pôs Pyongyang “de sobreaviso” no começo de janeiro, antes inclusive de tomar posse da presidência. Assim, o ataque a Shayrat pode ter sido uma demonstração sobre um objetivo mais fácil, que Trump poderia estar disposto a levar adiante contra a Coreia do Norte se esta seguir desenvolvendo seu míssil balístico intercontinental; uma mensagem que Xi Jinping não pode ter descuidado.

Quem acreditar que o ataque a Shayrat mostra que Trump atuou movido por sentimentos humanos, e marca uma mudança para melhor na política externa estadunidense, faria bem em revisar essa impressão. O novo ataque deve se contemplar unicamente como uma razão adicional muito séria para ficarmos profundamente preocupados com o comportamento errático da nova administração norte-americana nos assuntos mundiais.

Leia também:

Trump: segundo ataque à Síria

Ataque a gás na Síria: expert estadunidense desmente os EUA


Fonte: Jadaliyya.
Traduçãoa ao espanho de Viento Sur e ao português de Gabriel Brito, do Correio da Cidadania.


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