Macron presidente

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É preciso muito esforço para encontrar o dado fundamental das eleições: 25% de abstenções, 8,5% de votos brancos e 2,9% de nulos. A mídia hegemonicamente conservadora só se preocupa com os votos válidos, quando esses outros são fundamentais pelo que representam politicamente, quanto ao "ni l'un, ni l'autre", e em sua quase totalidade gerados pelos votos destinados a Melenchon no primeiro turno. Pois bem, eles bateram Marine LePen.

São os verdadeiros ocupantes do segundo lugar. Foram 36% do total de eleitores, enquanto ela se limitou a pouco mais de 33% dos votos válidos. Ou seja; 33% dos 75% que foram às urnas, o que corresponde a pouco mais de 25% do total.

O que isso quer dizer? Muito.

Mostra onde está o espaço de ampliação da esquerda combativa, que poderia ter colocado Melenchon no segundo turno, não fosse o sectarismo do Nouveau Parti Anticapitaliste e da Lutte Ouvriére, que insistiram em lançar candidatos, inexpressivos, roubando votos que certamente seriam endereçados a Melenchon.

Verdade que ainda há as legislativas, para a composição da Assembleia Nacional, onde se definirá a composição do governo. Nada impede que Macron, com sua leitura continuísta da política social-liberal desastrosa de Hollande, fique em minoria.

Porque foi eleito muito mais na onda de um veto a LePen do que por conta do caráter orgânico de sustentação numa base partidária, sobre a qual se organizam as eleições legislativas. E que venha a encontrar, com isso, sérias dificuldades para impor algo que marque submissão aos ditames da Troika maldita e do governo alemão, hegemônico no controle das instituições continentais, como vinha fazendo o social-liberal Hollande.



Oposição pode ser majoritária

Nesse contexto, despontam duas vertentes de oposição. Uma pela extrema-direita, xenófoba e autoritária, mas com uma parcela capturada exclusivamente pela radicalidade da campanha antiglobalização financeira. Parcela fixada principalmente na classe operária dos territórios desindustrializados pela exportação de empresas em busca de mão de obra mais barata em outros continentes.

Mas parcela, também, a ser disputada pelo Front de Gauche, que nessa política tem visão tão radical quanto, mas que se funda em uma visão oposta de políticas sociais. Uma visão humanista, democrática e solidária da sociedade.
 
O problema da esquerda

Tudo sinalizaria para a existência de um campo aberto na base social que votou em Melenchon, não fosse o obstáculo criado pelo sistema distrital francês. Ou seja, o parlamentar é eleito por eleição majoritária em dois turnos no seu departamento.

Com isso, os dois eixos referenciais do Front de Gauche - PCF e Parti de Gauche - vão se defrontar e podem se eliminar caso não cheguem a candidaturas unitárias já no primeiro turno. E a esquerda parlamentar poderia sofrer o que tirou Melenchon do segundo turno: os votos inexpressivos destinados às candidaturas do NPA e da Lutte Ouvrière.

Mas se esse acordo se construir, por necessidade diante do quadro que se apresenta com a fragilidade orgânica de Macron, a direita europeia, e inclusive a da mídia reacionária do Brasil, podem ter tido uma vitória de Pirro. Levam o Executivo, mas ficam barrados em sua rendição por uma oposição majoritária à globalização financeira.

É nisso que temos que apostar, porque o avanço da esquerda combativa e revolucionária na França terá influência em toda a Europa.

Luta que segue!

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Milton Temer é jornalista e ex-deputado federal pelo PT (1998-2006).

 

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