#HijabDay – não é só pelo lenço que lutam as mulheres

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"Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fiéis que (quando saírem) se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que se distingam das demais e não sejam molestadas..." (Alcorão Sagrado 33:59)
 
Cada vez mais a comunidade islâmica vem organizando formas de atuação política de visibilidade, reconhecimento e alteridade. Um bom exemplo disso é o movimento #hijabday que acontece todo 1º de Fevereiro desde 2013, no qual mulheres muçulmanas e não muçulmanas postam suas fotos de hijab (lenço islâmico) como forma de dar fim ao preconceito e aos estereótipos relacionados à vestimenta islâmica. O movimento organizado por Nazman Kahn alcança mais de 124 países. As pesquisas sobre islamofobia realizadas no Brasil e no exterior apontam que a mulher muçulmana é quem mais sofre com ataques islamofóbicos devido, principalmente, ao uso do lenço islâmico (1).
 
Para ocidentais/não muçulmanos é difícil compreender como uma jovem passa a usar um lenço que cobrem os seus cabelos e uma roupa que demonstra a sua religiosidade. O pertencimento religioso ao Islã é algo ainda estranho, pela falta de conhecimento e entendimento correto da religião por boa parte da população brasileira, mas é preciso indagar o quanto tem sido feito para mudar a má divulgação da religião.
 
Se por um lado o #hijabday faz um trabalho mobilizador dando visibilidade mundial às mulheres que querem usar seu lenço sem serem discriminadas, por outro lado as iniciativas das Instituições religiosas brasileiras no tocante “mulher muçulmana” é muito imperceptível: não há um departamento feminino (expressivo) e quando há são as responsáveis por chás, encontros de assuntos de casa/família/religião, nem sempre a pauta é sobre aquilo que as afetam diretamente como espaços de reza dentro da mesquita, posicionamentos políticos, orientação sexual etc.

A participação feminina em conselhos e congressos são insuficientes, e há pouco tempo eram inexistentes. Mulheres ainda são obrigadas a ouvir “mulher não tem o hábito de rezar às sextas-feiras”, quase que provocando indiretamente que essas fiquem em casa, porque nem sempre há espaços adequados para elas em mussalas e mesquitas (vou me abster de comentar que os sermões são feitos em árabes, com tradução que limita muito o entendimento).

As aulas de religião, os sermões ainda são pautados pelo haram, isto é, mais por regras do que não se pode fazer do que discursos que primam por espiritualidade e conhecimento adensado sobre Ciências Islâmicas, por exemplo. É comum ver nas redes sociais divulgadores (homens) dizendo como as mulheres devem se comportar e pouco, raríssimas vezes se lê algo para homens.
 
Devo destacar, também, que apesar desses aspectos tensos que povoam este universo feminino/masculino na divulgação da religião há várias muçulmanas que têm aderido campanhas internacionais nas redes sociais, mobilizando discursos de autonomia e responsabilidade por aquilo que aprendem e ensinam e impulsionado as campanhas como do #hijabday. As fotos das mulheres nesta matéria são de muçulmanas e não muçulmanas que aderem ao movimento.

Em algumas páginas do Facebook/whatsapp mulheres vêm ocupando espaços, compartilhando matérias do seu interesse, assuntos ligados à religião, política, conhecimento acadêmico sem se prender ao status quo da religião no Brasil. Essas desejam mais que um chá de dia das mães, querem atuar e propor eventos nos quais a pedagogia seja implementada nas mesquitas para recepção de novos revertidos e que não aconteça o que houve na última sexta-feira: uma muçulmana ficar no carro sem rezar, porque lhe foi dito que não tem espaço para mulheres.

Equívocos acontecem, sim, mas quando eles são repetidos é preciso pontuar com maior veemência. #Hijabday no Brasil não é só o direito ao uso do lenço (hijab), mas, sim, a garantia dos direitos concedidos pelo Islã no século VII às mulheres. Alguns muçulmanos se esquecem de que após a morte do Profeta Muhammad, Aisha, sua esposa, ministrava aula para homens na porta de sua casa, e ela divulgou mais de 2000 hadices que hoje são lidos e estudados por muçulmanos e muçulmanas.
 
O que as mulheres muçulmanas querem no Brasil? Fora da comunidade muçulmana elas querem usar seus lenços sem serem importunadas com piadas, com comentários pejorativos e, fundamentalmente, não querem ser discriminadas em entrevistas de emprego. Muitas dessas mulheres que buscam emprego são revertidas solteiras, que estão no mercado de trabalho e precisam sobreviver, mas são descartadas em seleções mesmo apresentando qualificações para o cargo.

Essas moças, muitas vezes, não têm apoio de suas famílias, por desconhecimento da religião que professam e sofrem ainda mais o preconceito no momento de conseguir um emprego. O lenço é uma obrigação religiosa, como já escrevi diversas vezes, uma mulher de lenço destaca sua adoração a Deus. O véu não encobre pensamento, não encobre inteligência.

Dentro da comunidade muçulmana, essas mulheres querem ser ouvidas, querem seus espaços em conselhos, congressos, departamentos, querem aulas com mais densidade, espiritualidade, querem apoio, principalmente diante de problemas de ataques sofridos no cotidiano.
 
Ouso dizer que são as mulheres a roda que faz girar o Islã no Brasil de forma mais propositiva, e estou convicta de que serão as mulheres e principalmente as novas gerações que vão, sim, usar o lenço e, mais que isso, dar fim ao discurso literalista wahhabi (2), porque no Brasil não haverá espaço para um Islã duro (haram, haram) e sim para um Islã mais espiritual, que considera o coração a porta de aceitação dos princípios religiosos e coloca a razão a serviço da prática.

Recentemente, uma amiga muçulmana que vende roupas islâmicas escreveu que ajuda as mulheres na construção da sua identidade islâmica. Como antropóloga, considero que é isso mesmo que ela faz, contribui para construção das múltiplas identidades de mulheres muçulmanas que não são passivas no processo desta construção, são agentes de suas histórias e de suas identidades.
 
Não é só pelo lenço que lutam as mulheres, lutam pela dignidade de serem mulheres propositivas dentro e fora de suas comunidades. Que assim seja!
 
1) Consultar pesquisadores do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes – FFCLRP/USP

2) Wahhabismo movimento ultraconservador, literalista do Islã, propagado pela Arábia Saudita.
 

Francirosy Campos Barbosa é antropóloga e docente do Departamento de Psicologia da USP em Ribeirão Preto, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes, autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: entre arabescos, luas e tâmaras.

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