Na Itália, uma campanha com “ódio puro como só os meus pais conheceram”

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Muitos italianos esperavam as eleições políticas como um momento resolutivo, uma linha de demarcação entre o retorno ao nacionalismo e a continuação do caminho europeu. A campanha foi a mais “quente” desde a década de 70, com confrontos nas ruas em ocasião dos comícios da direita xenófoba e facadas na noite durante o rotineiro “lambe” de cartazes eleitorais. Ódio puro como só os meus pais conheceram, um contínuo alerta contra o retorno do fascismo na península.

No dia 5 de março, olhando os resultados das eleições, podemos dizer que os partidos da extrema-direita já não são um risco (se nesta definição colocamos os partidos que se referem abertamente ao passado ditatorial, falamos do 0,8% dos votos). Mesmo assim, a campanha foi combatida na dialética fascismo/antifascismo, deixando de lado as problemáticas do dia a dia das pessoas. Mas porque a esquerda não conseguiu sair desta cerca criada também pelo sensacionalismo da mídia nacional?

Talvez seja útil retomar uma expressão de Gramsci quando fala de “guerra de movimento” e “guerra de posição” aplicada aos movimentos políticos. O filósofo italiano “pega por empréstimo” esses termos do grego militar: o primeiro indica um uso dinâmico das tropas, deixando de lado a demarcação do confim ocupado para golpear objetivos em diversas posições ao mesmo tempo; a segunda indica a guerra de trincheiras, onde numa área delimitada se confrontam duas ou mais tropas e o objetivo é conquistar metro a metro o terreno do inimigo. A segunda é mais desgastante e precisa de mais organização e disciplina, enquanto na primeira é a estratégia e a intuição que contam.

No entanto a esquerda italiana se movimentou somente desafiando os fascistas numa guerra de posição com manifestações, iniciativas culturais e apelos à criminalização e à dissolução por via judiciária de partidos xenófobos. As demais formações políticas do centro-direita e do Movimento 5 Stelle (não menos conservadoras que os grupos declaradamente fascistas) conduziam uma guerra de movimento, conquistando o eleitorado com discursos de política internacional (em particular, a proposta de retorno ao protecionismo e a saída do sistema Euro), de segurança pública (barrar as fronteiras) e colocando medo sobre uma possível vitória dos extremistas de qualquer um dos lados.

O resultado é evidente: há um movimento que já foi antieuropeu e radical (Movimento 5 Stelle), mas que assumiu uma atitude bem mais moderada por meio da qual conseguiu se eleger como primeiro partido. Contudo ele está sem capacidade de formar uma maioria (quase 30%). Em seguida, no segundo posicionamento, há as forças tradicionais: centro-direita com 34% e centro-esquerda, com 24%.

As implicações do voto na Itália até agora são as seguintes:

1. A mais que provável formação de um governo de coalizão centrista (no modelo alemão da “Grosse Koalition”);

2. Uma oposição que não é um partido, mas sim um movimento que age somente nas redes sociais e não tem base na realidade (Movimento 5 Stelle);

3. O perigo do extremismo é usado para apavorar os eleitores e os parceiros europeus - operação que tem sucesso pela repercussão na mídia e pela cumplicidade de uma parte da esquerda pós-negriana, que só existe se grita contra o perigo do retorno do fascismo.

4. A esquerda está sem argumentos. Para além do discurso antifascista há uma unidade sem princípios entre grupos que às vezes mal conhecem a própria história. Será por que os pais ensinaram aos filhos esquecerem do passado?

Jacopo Paffarini é  professor de Direito, italiano radicado no Brasil
Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

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