O sistema financeiro sob o prisma ético, segundo o Vaticano

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O sistema midiático corporativo brasileiro, com as exceções de praxe, resolveu aplicar a tese do ‘silêncio obsequioso’ sobre um tema que o Papa Francisco vem tratando repetidamente, ainda que de passagem, em vários pronunciamentos: ‘a nova idolatria ao dinheiro’.

Recorde-se que, de maneira explícita o Papa tratou do tema em 2013 na Evangelli Gaudium; tratou-o também no Moto Próprio (2014): “Para prevenção à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo”, focalizando preocupações específicas aos tentáculos mafiosos por dentro da própria finança do Vaticano. Tratou ainda do tema em sucessivos pronunciamentos destinados aos movimentos populares – segundo semestre de 2014, novembro de 2015 e novembro de 2016. Nas três ocasiões fez claramente a denúncia em linguagem profética da antinomia: Terra, Trabalho e Teto contra a idolatria ao dinheiro.

Nesse ínterim, o Vaticano recebeu pressões de toda ordem, principalmente de círculos norte-americanos, e agora se manifesta de forma mais doutrinária em documento da própria Congregação para Doutrina da Fé, também assinado pelo denominado Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral.

Toda essa introdução serve para contextualizar e caracterizar que, do ponto de vista da comunicação social, independentemente do seu teor, não se pode ignorar um ato de fala, que do ponto de vista da responsabilidade pública de quem fala e do conteúdo da problemática que trata, é de evidente interesse público. Fazer silêncio obsequioso é sinal preocupante de perda de fidelidade e finalidade à liberdade de imprensa, de que tanto se jactam esses meios de comunicação silenciosos.

Nos limites deste artigo, não é possível resumir o documento citado (disponível na internet – “Considerações para um Discernimento Ético sobre Alguns Aspectos do Atual Sistema Econômico Financeiro”); mas apenas enumerar algumas de suas preocupações centrais “no contexto contemporâneo”, que caem feito mão à luva, confrontadas à realidade das finanças públicas brasileiras:

1 - Sobre consumismo autossuficiente (n. 9).

2 - Sobre autovalorização ilimitada e arriscada do dinheiro em sistema sem regulação (ns. 25-28).

3 - Sobre geração e explosão de sucessivas bolhas financeiras globais e suas graves consequências sociais (n. 21 e vários outros).

4 - Sobre circulação de dinheiro mundial em paraísos fiscais e suas procedências ilícitas e práticas idem da chamada finança offshore (ns 28-30).

5 - Sobre sistemas tributários iníquos (n. 31);

6 - Sobre formas iníquas de formação de dívida pública, com menção especial à metamorfose das dívidas privadas em dívida pública (n. 32).

Certamente todos esses tópicos citados nos dizem respeito. O agravante no caso brasileiro, seja para as suas finanças públicas seja para as finanças privadas, é que essas, que já eram de longa data blindadas pelo manto nada sagrado da não transparência, estão agora auto-atribuídas de um quádruplo ‘i’: irresponsabilidade (fiscal e social), ilimitação (de geração de déficit público), iniquidade (tributária) e inimputabilidade (criminal do ilícito financeiro).

Tudo isto significa idolatria ao dinheiro ou grave desvio ético na formação e gestão do dinheiro público, segundo as Considerações Elementares de Fundo deste citado documento, bastando para tal fazer as devidas aplicações dos princípios éticos às práticas sociais contemporâneas.

O leitor e eleitor de 2018 precisam discernir também politicamente sobre a natureza da verdadeira crise moral a que estamos submetidos, que precisamos enfrentar, mais além do farisaísmo de ocasião, que distrai, manipula e finge enfrentar o gigantesco desvio do dinheiro público.

Guilherme Costa Delgado

Doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Guilherme Costa Delgado

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