Brasil e Argentina, dentro e fora de campo

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Destaques do Diário da Copa do Mundo que o editor deste Correio escreve para os parceiros da Central 3, a respeito de Brasil e Argentina, dentro e fora de campo.

Croácia 3 x 0 Argentina – O cambalache

Um desastre absoluto a derrota da albiceleste para o bom time croata. Só podemos fazer a mesma leitura que o 7 a 1 nos obrigou: um futebol descaracterizado, europeizado, com atleta alienados da realidade que, dessa forma, perderam aquilo que defini como “senso de urgência na vida” na sala do nosso amigo Paulo Junior.

Não representam mais o povo que veste a mesma camisa, pelo simples fato de que vivem vidas dionisíacas demais para sentiram aquilo que ainda desejamos quando vestem uma camisa com o escudo da federação nacional, em puro e simples passe de mágica.

E no futebol cada vez mais científico nossos apelos à magia e à mística de antes são cada vez mais patéticos, lunáticos.

Mais patéticos ainda se sabemos de todo o processo argentino que desaguou nesta Copa. Como dito por um jornalista hermano, “queremos milagres, mas o milagre é a Argentina ter chegado à Copa”.

Três técnicos depois do vice no Maracanã, de estilos totalmente desconectados um do outro. Uma geração que claramente já tem a cara da derrota, um Mascherano cansado e incapaz de liderar outra epopeia, Aguero e Higuain indecifráveis. E Messi. Que cara foi aquela no hino, se não a da derrota antecipada, da depressão profunda na alma?  

De resto, Sampaoli armou contra a Islândia o time que deveria enfrentar a Croácia – linha de 4 trás, meio mais preenchido e Messi no centro de tudo – e vice-versa.

O time axadrezado é bom, tem jogadores até melhores que a Argentina no meio campo. Neste aspecto, a vizinha simplesmente acabou. Exportou tanto, formou tanta gente apta a ser vendida de acordo com as demandas do mercado europeu e seu modo de jogar que, quando foi olhar o estoque, viu que não dispunha de volantes decentes. Enzo Perez ser resgatado a essa altura da vida é mostra cabal.

Como estudante que leva tudo na flauta e na hora do grande exame quer acertar tudo, a Argentina quis aplicar uma complexa ideia de jogo sem o menor lastro anterior. Caballero já ensaiara a cagada histórica que abriu o jogo. Mas o tiki taka virou fetiche né? Mesmo quando você não treinou, não se preparou. E o bom Armani ficou no banco porque um veterano arqueiro tem nome na Europa. O segundo gol jamais aconteceria também. Explosão zero de Willy.

Como dizem os acadêmicos da análise, a partir do primeiro tento o jogou ficou ao feitio dos “controladores” Modric e Rakitic. Que de fato mostraram-se excelentes. A questão é: em que ponto da história a Argentina deixou de ser capaz de formar jogadores dessa estirpe? E por quê?

Quando finalizava o texto, vejo que Sampoli corre risco de demissão antes da terceira rodada. E que Messi foi o segundo argentino que menos tocou na bola na partida.

Dito isso, se somamos o 4-0 pra Alemanha em 2010 com a debacle de Nizhny Novgorod, temos um 7 a 1 na vizinhança também, simbolicamente falando.

Naquela vez, o grondonismo senil achara bacana a ideia de colocar o chefe da torcida em 2006, no caso Maradona, como técnico. Agora, o pós-Grondona lembra nosso pós-Teixeira, a reafirmar a velha máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar.

Nosso futebol exportação é uma tragédia. E, como tentamos avisar em 2014, não pensemos que haverá mudanças estruturais. Isso tudo dá dinheiro como nunca. Para “ellos”, o futebol-mercado é uma delícia. Tais vexames são apenas estorvos circunstanciais. Não tenhamos dúvida: farão de tudo pra que continue assim.

Num futebol que reflete cada vez mais as relações globais do mundo ditado pelo capital, neste rubro, onde encantávamos o planeta, também aceitamos o papel subordinado de exportar o que temos de melhor a troco de (para os torcedores) nada.

Aguardemos a AFA exigir a padronização do campo em 105 x 68 metros, ordenar que as redes dos gols sejam todas iguais e todos assistam ao jogo sentados. São uns desgraçados.

Brasil 2 x 0 Costa Rica – O turbilhão

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No maldito horário da manhã, que prejudicou fortemente o mercado de carnes e cerveja, o Brasil encarou sua primeira decisão de fato, isto é, uma partida em que era ganhar ou ganhar.

Sofreu mais que a conta, mas cumpriu a tarefa. Um 2-0 na Costa Rica não é pra se comemorar, exceto na exata circunstância em que se deu: gols nos acréscimos.

Sofrimento imprevisto, mas talvez necessário a um plantel que carrega um peso indissimulável do passado recente. Talvez seja melhor este elenco encontrar sua própria carga de responsabilidade em vez de tentar reparar aquilo que, a bem da verdade, nem o hexa pode nos fazer esquecer ou perdoar.

Ou seja, é preciso jogar a Copa da Rússia de acordo com os desafios do presente momento, e não para compensar problemas estruturais que se encontram em estágio praticamente irreversível em nossa pobre e espoliada pátria. Até porque, dialogando com o que comentamos a respeito da Argentina, podem chorar mil pitangas, mas no business que descaracteriza tudo ninguém mexerá.

E se há um obstáculo a caracterizar esta Copa do Mundo são os muros defensivos que os times da prateleira inferior têm erguido. As retrancas a exigir doses iguais de técnica e paciência já são uma marca.

A Costa Rica e seu paredão de cinco defensores, neste sentido, foram um bom adversário. Inclusive para testar o time emocionalmente, no que o camisa 10 brasileiro vem se mostrando uma figura temerária.

Como destacado no texto do amigo Paulo Junior, um aspecto negativo deste time é não ter um capitão de fato. O revezamento da tarja não traz nenhum bom augúrio.

Primeiro por evidenciar a ausência de líderes autênticos. Segundo por sugerir (o que está pra se provar) uma espécie de dependência emocional do treinador Tite, mestre na retórica que mistura moral do trabalho, autoajuda e espírito corporativo.

Com isso, somos obrigados a lidar com atletas tão milionários quanto carentes do ponto de vista intelectual e mental.

Parece até negativo o segundo gol, da prima dona Neymar, já depois dos 50 do segundo tempo. Lamentavelmente, é o bastante para vermos disparar o gatilho da fanfarronice midiática e bajulação a uma figura que está longe, longe mesmo, de ser ídolo.

O choro pós-jogo é piada, que me desculpem os sensíveis. Segunda rodada de Copa contra a Costa Rica e o sujeito que ousam comparar aos maiores de todos os tempos desaba assim no gramado?

Outra notícia no pós-jogo estarrecedora: o lateral Danilo, que deu lugar a Fagner, de atuação correta, passou mal pela tensão da partida. Se já era estranha a lesão que o tirou de combate após 90 minutos incólumes na estreia, agora parece tudo claro.

Quanto ao jogo jogado, tivemos um time muito apegado ao desenho tático no primeiro tempo, que fez apenas as movimentações de manual, para o que os costarriquenhos estavam preparados.

Na etapa final, Douglas Costa voltou melhor que o burocratizado William, que tem habilidade pra ir além do óbvio, mas não consegue decolar. O canhoto fez bem para o time e talvez ganhe a posição.

Tite também acertou ao sacar Paulinho e por Firmino para acompanhar Gabriel, considerando que do outro lado havia um time praticamente inofensivo. Trata-se da mesma base que fez uma campanha brilhante em 2014, mas envelhecida, sem nenhuma boa novidade individual.

Neymar mostrou que fora do mundo de Galvão e Arnaldo, inserções comerciais na TV e até no metrô, não goza de credibilidade alguma no universo futebolístico. Pela primeira vez vimos o recurso do vídeo fazer o árbitro voltar atrás em favor da defesa numa marcação importante.

A verdade é que o mundo não o reverencia. E Neymar, ao não querer arrematar em gol e se jogar pra trás no lance da discórdia, pareceu mais preocupado em vencer seu duelo particular com o árbitro.

Histérico, o atacante mais blindado da história do futebol brasileiro saiu de campo pendurado até eventual quartas de final. Adoraria que algum veículo de grande circulação fizesse a enquete: “você prefere o Brasil campeão do mundo com ou sem Neymar?”.

Ouso afirmar que um time sem ele e com Douglas pode jogar até mais leve. Sempre impaciente com certos padrões de comportamento a mídia britânica, mais especificamente a BBC em sua transmissão, fez uma interessante observação: “o time inteiro vive em torno dos dramas de Neymar e isso não deve mudar para os próximos jogos”.

Vitória e testes importantes. Porém, contra a Sérvia necessitada dos três pontos o sarrafo aumenta. No final das contas, o Brasil bateu o adversário mais fraco possível entre todos os que pode encontrar nesta aventura na Rússia.

E com este emocional...

Gabriel Brito é editor do Correio da Cidadania e colabora no podcast semanal Conexão Sudaca, programa de futebol, cultura e política sul-americana.

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