Hydro enlameia o mito

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A lama vermelha que a multinacional norueguesa Norsk Hydro despejou, sem o devido tratamento, nas águas do estuário do rio Pará, não poluiu apenas o meio ambiente e prejudicou a saúde e a vida da população da área: fulminou também a própria empresa e seu país de origem. Ambos se orgulhavam se dar tratamento diferenciado à natureza e ao ser humano.

Esta tradição, que, na Hydro, tem mais de 100 anos de existência, foi corroída na entrada da região amazônica, que abriga a maior floresta tropical do planeta e a maior bacia hidrográfica da terra, com 8% da sua água doce.

A 40 quilômetros de Belém, a Hydro se tornou proprietária do maior polo de alumínio do Brasil e dos maiores do mundo. Em 2011, comprou da Vale, maior mineradora mundial de ferro, a maior jazida de bauxita do Brasil, e das maiores do mundo, a maior fábrica de alumina do mundo, a oitava maior planta de alumínio do mundo e a maior da América do Sul.

A Hydro pulou vários estágios no ranking mundial, tornando-se das poucas corporações internacionais a atuar desde a origem, na extração do minério, até a última fase do beneficiamento do metal de alumínio.

O polo de Barcarena, no Pará, recebeu o maior investimento da Hydro fora da Europa. Uma nota que a empresa divulgou no dia 18, em Belém, mostrou que o ganho que a empresa obteve com a sua fixação na entrada do maior rio do mundo, o Amazonas, não correspondeu ao tratamento que dispensou a essa região.

No dia 17 do mês passado, quando ocorreu a contaminação de rios e igarapés próximos às unidades industriais da Hydro Alunorte, poluição comprovada pelo Instituto Evandro Chagas, a companhia alegou que a penetração de lama vermelha se devia ao excesso de chuvas. Não podia ser por uma falha no seu sistema de captação, tratamento e despejo de resíduos sólidos e efluentes líquidos.

Esse sistema era o mesmo que a empresa adotava na Noruega, com reconhecimento internacional sobre a sua qualidade. Logo, teria sido um acidente imprevisível e inevitável.

Na nota a empresa finalmente admitiu que despejou resíduos tóxicos do processo produtivo, com a presença de soda cáustica, produto usado na lavagem do minério. Reconheceu que canais e dutos, que deviam estar desativados ou que funcionavam sem licenciamento ambiental, acabaram levando lama vermelha até o estuário do rio Pará, um dos maiores e mais importantes do litoral brasileiro, em cuja margem está a 10ª maior cidade brasileira.

A Hydro ressalta que se antecipou ao laudo de uma consultoria independente, que só estará concluído no dia 9 de abril. E tratou logo de reconhecer as falhas e seu mau procedimento, combinando o fator ocasional com o efeito causal. Um dia, o funcionamento do sistema iria resultar em acidente porque não estava sendo monitorado adequadamente – nem pela empresa nem pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, que a licenciou e tinha a incumbência legal de fiscalizá-la.

A negligência é agravada porque só agora a Hydro se compromete (com investimento em torno de meio bilhão de reais, 15 vezes maior do que o orçamento do Instituto Evandro Chagas, que comprovou a contaminação) para implantar o que deveria ter existido desde o início, no projeto da fábrica, ou no cumprimento integral das condicionantes do licenciamento.

A Hydro, assim, quer voltar no tempo e corrigir seus erros. É uma iniciativa salutar. Mas essa remissão precisa ser feita por controle externo, apurando as responsabilidades, punindo os responsáveis e garantindo que a natureza e os seres humanos estão adequadamente protegidos de acidentes – e a verdade dos fatos demarcará as relações entre a empresa, o poder público e a sociedade.

Ou a moral da história será que, ao invés de ser tratado como uma Noruega, a Amazônia está mais para um Haiti na visão dos donos dos grandes empreendimentos econômicos.
 
 
Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde e autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia.
Publicado originalmente no Portal Amazônia Real.

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