“Renan Calheiros é retrato profundo da crise institucional do país”

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Após mais um domingo de manifestações tingidas de verde e amarelo, sob o mote de combate à corrupção, o Brasil vive a balbúrdia, em uma semana que ficará marcada pelo desacato à decisão do STF de tirar Renan Calheiros da presidência no Senado, seguida de decisão que o mantém, ainda que proibido de constar da linha sucessória presidencial. Sobre esses temas, e os projetos que o governo tenta aprovar, o Correio da Cidadania conversou com o deputado federal Ivan Valente, um dos responsáveis pelo veto à anistia ao caixa 2, na semana passada.

 

“Esse caso é um retrato profundo da crise institucional vivida no país. O STF pode afastá-lo definitivamente. E, sem dúvida, Renan é figura marcada para morrer politicamente. Agora, Temer tenta influir na decisão do Supremo, para não deixar de votar a PEC 55, mantendo por isso Renan na Presidência e com ele a podridão deste governo”, afirmou.

 

Sobre a corrupção, Ivan lamenta o afastamento da esquerda de uma pauta tradicionalmente importante para suas fileiras e destaca a importância de associar projetos como a Reforma da Previdência e a PEC do Teto de Gastos à corrupção e cultura de privilégios aos grandes sócios dos grupos políticos dominantes.

 

“Estão no poder para desmontar o Estado Brasileiro em nome do mercado financeiro. As suas principais medidas visam institucionalizar o ajuste fiscal. A PEC 55 (do teto dos gastos), a reforma da previdência, a reforma trabalhista, o enxugamento do papel do Estado como indutor da democracia, a entrega do patrimônio nacional”, enumerou.

 

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

 

 

Correio da Cidadania: Como você avalia as manifestações de domingo contra um pacote anticorrupção votado no Congresso?

 

Ivan Valente: A manifestação de domingo em favor do pacote anticorrupção foi muito contraditória. Por um lado, grupos de direita e extrema-direita convocaram o ato para denunciar a corrupção somente de alguns. Optaram por blindar o governo Temer, profundamente chafurdado na lama da corrupção. Isso demonstra uma grande incoerência. Muitas manifestações de ódio e intolerância foram vistas, inclusive o pedido de intervenção militar – algo assombroso.

 

Por outro lado, muitas pessoas realmente interessadas no combate à corrupção foram levadas às ruas. Passaram a defender intransigentemente o pacote de medidas apresentado pelo MP. Esse sentimento é legítimo, embora muitas vezes venha sendo canalizado para um radicalismo estéril capaz de aceitar violações ao Estado Democrático e de Direito.

 

O PSOL tem sido vanguarda na luta contra a corrupção como no caso Cunha, na anistia ao caixa 2 e tentativas de impedir investigações. Mas não cederá a medidas arbitrárias e autoritárias que eliminem o direito da defesa e a justa produção de provas contra os acusados. Além disso, é preciso ir às ruas contra a retirada de diretos, como na PEC 55 e na Reforma da Previdência, e associá-la à corrupção sistêmica no Brasil.

 

 

Correio da Cidadania: Acredita que a Operação Lava Jato está prestes a ser estancada?

 

 

Ivan Valente: Não podemos dizer isso. A operação foi longe demais para parar de repente. Muitos políticos dos grandes partidos estão assustados com o potencial aterrador das investigações. Não à toa, buscaram anistiar o caixa dois, tentativa que foi frustrada pelo PSOL e outros parlamentares. Ao mesmo tempo, temos visto um viés seletivo da Lava Jato, que concentra atrações em alguns e alivia para outros. Ainda há muita água para rolar e esperamos que todos os envolvidos em esquemas criminosos sejam responsabilizados pelos seus atos, sem nenhum tipo de seletividade ou parcialidade.

 

Partidos como o PSDB, o PMDB e base aliada que sustenta o governo Temer não podem ser protegidos. Esperamos, e o povo também, que a operação vá fundo nesta direção para não ser desmoralizada e acusada de proteger quem quer que seja.

 

Correio da Cidadania: Como avalia a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado em meio a este contexto, para depois voltar em manobra que o mantém no posto, mas o tira da linha sucessória presidencial?

 

Ivan Valente: Esse caso é um retrato profundo da crise institucional vivida no país, crise esta que é um desenrolar do golpe institucional que levou Michel Temer ilegalmente ao Planalto. Não temos como afirmar qual será o seu resultado. Renan Calheiros não aceitou a decisão monocrática do ministro Marco Aurélio de afastá-lo.

 

O STF pode afastá-lo definitivamente. E, sem dúvida, Renan é figura marcada para morrer politicamente. Agora, Temer tenta influir na decisão do Supremo, para não deixar de votar a PEC 55, mantendo por isso Renan na Presidência e com ele a podridão deste governo.

 

Correio da Cidadania: Acredita que as esquerdas perderam o rumo da pauta da corrupção?

 

Ivan Valente: A esquerda sempre vestiu a camisa do combate à corrupção. A ética para nós não é uma virtude, mas, sim, uma obrigação. O PT, infelizmente, ao aceitar a lógica do presidencialismo de coalizão, reproduziu mecanismos corruptos para a manutenção do poder. A direita aproveitou para associar a corrupção cometida por membros do PT a toda a esquerda, algo que teve consequências terríveis.

 

Nosso papel é politizar o debate e esclarecer a raiz da corrupção, que durante décadas teve no financiamento privado de campanha sua base. Para além disso, precisamos de uma reforma política que restitua a democracia, conceda poder real à população e impeça a influência deletéria do poder econômico nos rumos do Estado. Esse esforço faz parte da reconstrução da própria esquerda.

 

Correio da Cidadania: O que você pode falar da atuação do Congresso nos últimos meses, dentro deste contexto?

 

 

Ivan Valente: A votação do impeachment mostrou como o Congresso está distante dos anseios do povo. O conservadorismo tem dado a tônica dos debates e decisões que Câmara e Senado assumem. Medidas altamente impopulares como a PEC do teto dos gastos e a reforma da previdência estão em tramitação. Por essas e por muitas outras, percebe-se uma crise enorme de representatividade.

 

Correio da Cidadania: Considerando que Michel Temer virou presidente em abril, que avaliação você faz desses 7 meses de sua presidência e suas tentativas de tirar o país da crise?

 

Ivan Valente: O governo Temer é ilegal, ilegítimo e golpista. Estão no poder para desmontar o Estado Brasileiro em nome do mercado financeiro. As suas principais medidas visam institucionalizar o ajuste fiscal. A PEC 55 (do teto dos gastos), a reforma da previdência, a reforma trabalhista, o enxugamento do papel do Estado como indutor da democracia, a entrega do patrimônio nacional, especialmente o petróleo, pautam os interesses dos golpistas. Além do aspecto econômico, existe o político. Eles querem fazer com que a democracia brasileira seja cada vez mais de menor intensidade e para impor esta agenda atacam toda a esquerda e os defensores da democracia. Por essas razões, não reconhecemos esse desgoverno de Michel Temer.

 

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Gabriel Brito e Raphael Sanz são jornalistas do Correio da Cidadania.

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