A pergunta que calou

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"Além disso, constatou a pesquisa, 'a cisão entre a classe trabalhadora e a burguesia também não perpassa o imaginário dos entrevistados'. Isso significa, em outras palavras, que toda a discussão sobre a divisão da sociedade entre ‘nós’ e ‘eles’, promovida incessantemente pelo PT, é significativa somente para as classes médias e as suas redes sociais".

Está aí um parágrafo do editorial desses dias do Estadão, que se funda nos resultados de uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo.

Evidentemente, o Estadão não hesita em se apropriar de uma suposta conclusão final em seu interesse de classe. Seria o próprio discurso do PT o responsável pela ideia de que é o Estado, e não a burguesia, o real inimigo dos segmentos mais sofridos da população.

Cabe à esquerda fazer a sua leitura, para comprovar o que há de falaciosa na verdade parcial que a divulgação da pesquisa permite.

O que é espertamente omitido?

A pergunta óbvia, que não pode calar: por que o Estado é visto como inimigo, quando ele não passa de ferramenta com a qual a burguesia dominante garante a manutenção de seus privilégios?

Arrisco uma resposta, a despeito das pedradas que me virão dos que nunca se admitem em dúvida no apoio incondicional.

Essa falsa conclusão se permite por conta da absoluta falta de compromisso com a politização da política que o governo Lula e seu sucedâneo demonstraram ao longo de 14 anos de ocupação do Planalto.

Sim, foi promovida a despolitização da política, dando apenas um caráter de generosidade caritativa ao combate à pobreza, através de políticas compensatórias. Processo desprovido de campanha simultânea de mobilização permanente para a caracterização do processo como passo gerador de demandas maiores, políticas, sociais e econômicas.

Incompetência? Nem pensar. Opção.

Pois isso geraria obstáculos aos objetivos acomodatícios da "nova administração". “Vamos refrescar os de baixo, mas sem incomodar o andar de cima”, foi a tônica marcante da "governabilidade possível", e das alianças que dela foram resultado, por conta da desmobilização política e ideológica dos movimentos sociais então em ascensão.

O mais do mesmo já foi marcado pelo pontapé inicial das medidas propostas. A contrarreforma da Previdência e o estabelecimento de irrestrito compromisso com serviços e juros de uma dívida nunca auditada deixavam claro que o prioritário seria confirmar o "lulinha-paz-e-amor" com as classes dominantes, nas tratativas conduzidas pela dupla meliante Palocci/Meirelles, e seu compromisso inarredável com um criminoso superávit.

O que começou com os banqueiros privados não tardou a se estender aos dois outros tentáculos da tríade maldita que então se formava, com empreiteiras e agronegócio.

O que isso representou? Muito. A partir da ausência total de reformas estruturais, quando o campo democrático tinha base social significativa, e os convescotes explícitos com os outrora "inimigos de classe". Os elogios intensos a Sarney, Cabral Filho, Maluf (este, inclusive, nos quintais da mansão do perseguido pela Interpol) não se deram impunemente.

A simbologia na política tem peso expressivo. E, na cabeça dos lulistas incondicionais, que aqui no Rio se jogaram nos braços da quadrilha do PMDB, isso passou a ser a política correta. De rendição total aos "amigos" do Planalto.

No contraponto, quem os de baixo passariam a responsabilizar pelas sequelas trágicas que lhe resultam de um regime calcado na manutenção da desigualdade social?

Não poderia ser na burguesia, porque esses, que "nunca lucraram tanto" quanto no regime que deveria ser democrático-popular, mas se manteve no Pacto Conservador de Alta Intensidade, eram os novos parceiros, aliados preferenciais.

Sobrou para a motosserra a culpa do desmatamento promovido pelos criminosos ambientais do “desflorestamento social”.

É tarefa da esquerda se unir em torno de um programa capaz de recuperar corações e mentes das vítimas para a identificação de seus verdadeiros inimigos: os maganos do "livre mercado" e sua mídia canalha, voltada a desfigurar a verdade para impor suas vontades.

Luta que segue!


Milton Temer é jornalista e ex-deputado federal pelo PT (1998-2006).

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