Qual o balanço da greve geral?

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Vista a partir de São Paulo, a greve de 28/4 coloca uma questão: por que a cidade parou, mas os parados não protestaram?

A manifestação não foi pequena: os organizadores estimaram 70 mil participantes. Mas considerando que o movimento pautou a cidade em um dia de fato parado, a adesão esteve aquém. Ainda não foi desta vez que os trabalhadores tomaram as ruas.
    
Para além das dificuldades de se locomover aos protestos, é preciso pensar o vivido.
    
Há sentimentos misturados: o povo entende que o golpe foi espúrio, mas não tem claro o porquê; intui que as reformas o atacam, mas não vislumbra como se defender.
    
Há um desprestígio generalizado das organizações associadas à esquerda, partidos e sindicatos. Neste contexto, o discurso da saída individual pelo trabalho, como antítese e antídoto da política, avança. Quem emerge como um (falso) terceiro ante o desgaste da ordem PT-PSDB é Dória.
    
Neste cenário, a movimentação popular vive um dilema. Disciplinada pelos trilhos PT-CUT, mobilizam-se os mais politizados. Mesmo que alguns torçam o nariz, não deixarão de comparecer.     

Mas o teto desta frente é baixo. O povo percebe que este é um caminho passado. Portanto, é sem futuro. Só o novo na esquerda pode disputar o discurso da modernização com a direita.
    
Enquanto a ambiguidade der o tom nas mobilizações, patinaremos. A associação entre a resistência aos ataques com a defesa do PT, reforçada pela mídia, atrapalha. Porque o PT está desmoralizado como política alternativa. É preciso dissociar a agenda da esquerda da agenda do PT.


    
As manifestações não devem ser antipetistas, mas não podem ser petistas. O partido, ou ao menos sua militância, se somarão: desde que subordinados a um programa contra o ajuste estrutural. Esta é a única garantia de que o Fora Temer não seja manipulado para fins eleitorais.
    
Porque a estratégia petista é fazer o governo Temer sangrar, para voltar em 2018. Lula está no banco de reservas de Temer: é o partido do mal menor, tanto para a direita como para a esquerda. Um Brasil além do ajuste exigirá uma política além do PT.
    
Não ouvi discursos nesta direção em 28/4. Houve quem falasse em derrubar Temer como único meio para restituir a presidenta legítima (não se imagina como); o deputado Paulo Teixeira, como outros, defende eleições gerais: como se a politicagem pudesse guinchar a si própria do atoleiro, e salvar o Brasil.

Como se uma bancada melhor esperasse na esquina da história. É uma proposta cínica: entrega a solução a quem encarnou o problema, absolvendo o PT. Enquanto isso, o representante do MST sequer lembrou os companheiros massacrados.
    
A unidade é importante, mas precisa ter norte. Uma agenda consequente exige a denúncia do ajuste em qualquer grau, reivindicando um Brasil para os brasileiros.
    
A polarização ensaiada foi um avanço, porque tem substância: a defesa de direitos, inclusive à manifestação. Porém, esta luta não será vencida neste ano pela política derrotada no ano passado. Somente com sangue – ou seja, se as manifestações atingirem um grau muito superior ao presente, esta batalha pode virar.
    
De todo modo, é preciso se preparar para continuar a guerra. Usando as armas do passado, já perdemos.

Leia também:

“As bases impuseram a greve às centrais sindicais, não o contrário”

Fabio Luis é professor da UNIFESP e autor de “Além do PT. A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana”.

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