10 anos da ocupação da reitoria: porque amanhã já é hoje!

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Difícil comentar um momento político tão importante para mim como aquele, assim como para tantos outros na luta contra os decretos dos então governador José Serra e reitora Sueli Vilela, que visavam centralizar as universidades e seu orçamento no governo do estado. Seu impacto não se deveu apenas pela forma de ocupações de universidades, já recorrente no mundo, mas por algo distinto de outros ciclos políticos.

Se pudesse fazer uma avaliação nova sobre aquele processo teria de ser um livro, dados os detalhes e a mudança de contexto daquilo que acho que há muito se perdeu em relação à potencialidade imensa do que estava em jogo, ali ao nosso lado. Seja como invenção, como conjugação de esforços, como tensionamento político entre forças e tendências, como início de debates que hoje se tornaram mais comuns no movimento estudantil e político em geral, especialmente a partir de tendências e pautas que eram silenciadas nas pautas mais gerais e novos modos, menos sisudos e mais próximos de formas mais espontâneas e também rápidas, ao mesmo tempo que inteligentes, de ação.

Começo

Muito se pode dizer sobre a capacidade inventiva das pessoas, por exemplo, a forma como os blogs, então na moda como forma de expressão se tornaram politizados, talvez pela primeira vez no país, e criaram uma verdadeira sensação graças ao esforço, primeiro do grupo de alguns geniais militantes do jornalismo, depois ao grupo que o continuou. Refletia, assim, a mudança de tendências políticas da ocupação, quando muitas tendências, avaliando uma repressão próxima, preferiam retirar-se. Disso surgiu a necessidade de se manter o blog constantemente, o que por sua vez demandava manter a internet.

A reitoria notou e tentou cortar a internet, no entanto, não contava que teria resistência tecnológica, que suplantou as 9 formas com que tentaram cortá-la, graças à junção de pessoas de áreas diferentes, de formas de pensar diferentes, como os geniais estudantes da ciências da computação, engenharia e arquitetura que iam desde o uso de um telefone para necessidades especiais até a descoberta de algo que a reitoria jamais iria cortar: o sistema de notas informatizado, o Júpiter, cuja descoberta levou à decisão difícil de tomar: alterar ou não todas as notas dos estudantes da USP em unidades que já não contavam com papel (e, claro, dentro disso, dar dez para todos, zero ou deixar como estava, evitando problemas ainda mais graves). E eu poderia dar outros exemplos.

Politicamente, o início da ocupação da reitoria era decisivamente pautado pelos partidos que iniciaram o movimento de ocupação, quando da não participação da reitoria em uma reunião sobre os gravíssimos decretos e que, como hoje notamos, se pretendia curta, a fim de buscar uma reunião. Mas não contavam com a conjuntura e o conjunto de forças que levou o movimento a uma tendência que fomentou o autonomismo. Primeiro por sua novidade; segundo pela crise dos ânimos em relação aos partidos que então conduziam a política e, a meu ver, obviamente refletiam no cenário externo a primeira crise do PT em relação ao mensalão; terceiro pela centralidade da reitoria, que mantinha no mesmo prédio todo o aparato administrativo da Universidade de São Paulo.

Além disso, ânimos exalados à parte, havia o combustível de um antipartidarismo à esquerda, que se voltava também à possibilidade de reinventar as políticas estudantis e, principalmente, dar voz a certas tendências até então com pouca força no movimento geral, que se congregou com o nome de "independentes". Mas é preciso matizar esse antipartidarismo em relação ao que ocorreu depois, porque uma unidade mínima de ação continuou a acontecer e havia valores comuns compartilhados; não era nada da repulsa aos partidos que se materializou em anos seguintes, apesar da desconfiança mútua. Não era a tendência antipartidária à direita, ainda que manifestações de direita militantes já ocorressem contra a ocupação com atentados diversos contra os estudantes, os piquetes nos cursos e suas estruturas.

O papel do movimento negro na reivindicação de uma audiência sobre o inclusp refletia isso. O movimento negro então aparecia atravessando os próprios horizontes políticos partidários e não partidários e ganhou uma força que foi capaz de acabar com os argumentos da reitoria, antes que conseguisse convencer a própria esquerda que então era majoritariamente contra as políticas de inclusão, pouco a pouco ganhando outros setores da esquerda.

A lista de pautas, que teve de ser respondida uma a uma pela reitoria, refletia também o papel dos grupos independentes na política e um grupo de interesses diversos organizado que compunha a ocupação como um tipo de federação das latências da universidade como uma equiparação com políticas sociais já adotadas com sucesso em outros lugares. Isso tudo ligado de modo mais ou menos intenso com a mobilização e as demandas dos cursos quando se pautava, por exemplo, um prédio para a FOFITO e, claro, uma nova, solidária, ultracombativa e orgulhosa geração de moradores do CRUSP (a moradia estudantil da USP), que trouxe de volta à tona a devolução dos blocos K e L e resultou na conquista de um novo prédio.

Mas havia, é claro, movimentos autônomos organizados, como a Rádio Várzea, a herança do ciclo autonomista de 2000-2001, os ânimos excitados com as potencialidades do então MPL novinho, as coletividades surgidas nos fóruns sociais, os nerds que vieram participar da política e, claro, partidos pequenos e radicais que estavam lá no cabo de força entre aqueles que apoiavam desde o começo a ocupação e aqueles que passaram a apoiar depois, no meio do movimento.


As assembleias de mais de duas mil pessoas em cada vez que eram realizadas acendiam um ânimo intenso, ao mesmo tempo em que davam um trabalho enorme, seja de conduzi-las e até mesmo reinventá-las, como o esforço das manobras políticas de partidos e tendências respondidas pelo chamado democratismo das tendências autonomistas.

Uma vez debatendo com uma militante (que hoje gosto muito) sobre uma decisão do partido dela a respeito de um evento ocorrido, ela dizia não saber a quem recorrer, já que havia muitas instâncias. Respondi: "há a assembleia, a plenária da ocupação, as reuniões extraordinárias e, acima de tudo, as pessoas que estavam ali o tempo todo!" Pensando sobre aquilo notava o quanto cada ação, por espontânea que fosse, encontrava uma forma de decisão e mediação. E eram infinitas as instâncias e reuniões realizadas.

E tudo a despeito daquilo depender principalmente de umas obstinadas duzentas pessoas - em seus dias mais animados -, que muito intensamente tocavam todas as atividades e observaram o quanto era importante também a sociabilidade orgânica. Alimentação, limpeza, segurança, zeladoria, atividades culturais, resolução de conflitos, festas muito loucas, como a memorável festa junina e seu inenarrável locutor (lembrando que a decisão sobre uma festa talvez tenha sido a primeira votação que definiu a mudança da hegemonia política dos partidos para os autonomistas).

Aprendizado

Tudo criava uma dinâmica própria que se potencializou em uma evolução com altos e baixos, mas altos muito elevados que se associavam aos grandes atos e, claro, uma situação em que a presença da PM na universidade ainda gerava certo tabu e acendia um ânimo de comunidade em relação à universidade – inclusive com professores que cada vez mais se abstêm da política concreta da universidade.

Não demorou muito tempo para que a experiência contagiasse outras universidades ainda que não se conseguisse criar um movimento organizado e coordenado nacional, posto que sua coordenação dependeria de uma estrutura que não possuíamos.

Estávamos pensando em como não sermos devorados ou enganados pelos partidos ainda que conversando com eles, em como criar algo novo que perdurasse e, certamente, nosso erro foi acreditar que aquilo duraria para sempre, fosse na energia ou na inventividade. Meu coração se rasgou em mil pedaços de amor que possuía por cada uma daquelas pessoas, nos grandes atos, audiências, nas tarefas pequenas, no trato entre as pessoas, cúmplices e camaradas.

A derrubada dos decretos por si só não conseguiu diminuir os ânimos, mas, mesmo numa conjuntura de um conselho universitário infinitamente mais progressista que o de hoje, era claro que não duraria para sempre. A reitoria aprendeu que precisaria responder a cada uma das pautas para passar por uma assembleia de duas mil pessoas, ainda que o movimento de ocupação que permanecia tocando as tarefas diminuísse - e se reestruturaria profundamente nos seguintes ciclos de embate político. Jamais imaginamos naquela altura o abismo conservador, individualista e privatizador em que a universidade se afundaria.

Depois, tornou-se um mistério a questão de que as pessoas delegam para quem elas confiam e não passam a participar em massa de uma mobilização apenas porque não têm uma direção burocrática. Não é a derrubada de um grupo que simplesmente faz com que as pessoas militem e participem da organização da sua vida em massa.

Mas, certamente, como as tendências partidárias radicais da época, hoje fico pensando no quanto não desperdiçamos certa energia coletiva e radical em um projeto que se focou em um humanismo muito confiante no papel da universidade e do conhecimento. O que se podia notar quando observamos que queríamos recolocar a autonomia universitária retirada pelos decretos para poder reconhecer a possibilidade de reivindicar qualquer coisa, mesmo que a própria universidade quisesse, digamos, cometer suicídio político e administrativo, tornando-se um mero adendo atrelado diretamente ao governo do estado, numa época de relativa folga financeira. O próprio governo chegou a oferecer todas as demais pautas, excetuando a revogação dos decretos, o que sequer foi cogitado aceitar.

Desdobramentos

Achávamos que o movimento autônomo contagiaria as formas de ação e criariam um crescendo de mobilização, que permitiria uma transformação das formas de ação que não seria algo isolado ou episódico. Afinal, trava-se aos olhos de muitos entre os chamados autonomistas, definitivamente, de uma nova energia utópica que continuaria a animar as gerações posteriores (e partidos, mesmo que fosse só como cópia do material visual que também emprestava nossa identidade, como o relógio parado da praça do relógio então aberta à visitação ou o disfarce que muitos partidos adotaram posteriormente, modificando a forma de agir), ainda que não fôssemos ou não pudéssemos materializar sua melhor encarnação.

A história do autonomismo passou e foi escrita de um modo diferente e melhor fora dos muros da USP por parte de estudantes secundaristas e em 2013. Mas com todos os seus defeitos, era o início de uma forma de pensar e sentir a política onde era possível cabermos de corpo e alma sem aceitar as contradições de então e que olhava definitivamente para frente.

Era tudo muito intenso e, apesar do terror que sentia em nos perdermos em guerras fratricidas (eu mesmo beirando ora o colapso, ora a paranoia), da repressão, da anulação de nossas ações e conquistas em relação à reação dos poderes constituídos e de nossos muitos erros (como os excessos do sectarismo), era definitivamente a capacidade de pensar algo novo e voltado para o futuro. E agradeço a todos que participaram daquilo comigo, mesmo os que me odeiam até hoje e reencontro nas trincheiras diversas da luta ao longo da vida, pois podem não saber, e dez anos se passaram, mas saibam que, ainda que secretamente, continuo amando e respeitando a todos os que participaram daquilo e tanto me ensinaram em diversas correntes, tendências, grupos e indivíduos.

Douglas Anfra é doutorando em Filosofia.

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