A crise e suas escalas locais

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Vivemos em um cenário muito difícil. A crise por que passa a economia, a sociedade e a política no mundo inteiro se faz presente também no Brasil. E as saídas apontadas por aqueles que criaram a crise insistem nos mesmos erros: concentração de riquezas, aumento da miséria e eliminação de direitos sociais para aumentar ainda mais a já insuportável exploração sobre os recursos humanos e naturais.

A raiz de nossos problemas está no fato de vivermos em um mundo no qual o dinheiro tem cada vez mais valor do que as pessoas. Os altíssimos lucros dos bancos estão aí para confirmar essa situação: nada mais são do que os recursos que faltam a todas as medidas que são necessárias para garantir uma vida digna ao povo. No final de 2016, o ilegítimo governo Temer aprovou a Emenda Constitucional 55, que é emblemática da prioridade absoluta da especulação financeira sobre os direitos sociais.

Prólogo de um país derretido

O contexto em que vivemos é marcado por medidas que visam destruir conquistas históricas da sociedade brasileira, como a aposentadoria, os direitos trabalhistas e os direitos sociais à educação, saúde e assistência social. Não menos importantes, e que também estão sob forte ataque, são os direitos dos povos tradicionais, como indígenas e quilombolas, e as normas de proteção ambiental.

Sob o argumento da modernização e do progresso, o poder político-econômico dos bancos, do agronegócio, das mineradoras, das empreiteiras e dos monopólios midiáticos está empurrando o país para regulamentações sociais que remetem ao século 19. Apesar de todas as possibilidades que o desenvolvimento do conhecimento e da ciência nos oferece, de toda a riqueza que produzimos e somos capazes de produzir para o bem-estar de todos, estamos em uma rota de reversão neocolonial, na qual a ideologia da intolerância, da ignorância e do individualismo dá sustentação a essa ponte para o passado. Reassumimos como nosso papel principal a função de fornecedores de matérias-primas ao mercado internacional – antes pau-brasil, açúcar, ouro e café; agora carne, soja e minério de ferro.

As mudanças da legislação trabalhista apontam claramente para uma atualização do velho e odioso trabalho escravo. O presente e o futuro do país já carregam como principais características a segregação social, a violência e o medo. As maneiras pelas quais as classes dominantes impõem seu projeto de sofrimento e humilhação ao povo brasileiro têm sido cada vez mais antidemocráticas e autoritárias. Desde iniciativas de restrição do debate sobre nossos problemas nas escolas públicas até o assassinato de quem se coloque como obstáculo às suas negociatas, passando pelo estelionato eleitoral ou pela definição de presidentes através de golpes parlamentares.

Os protagonistas desse projeto sombrio para o povo brasileiro, entretanto, estão sendo desmascarados nos próprios termos moralistas com que costumam encarar a política e todas as relações sociais. As denúncias e evidências de práticas políticas que só beneficiam grandes empresários não param de vir à tona. Vai ficando evidente que o favorecimento dos ricos à custa do povo trabalhador é a referência de funcionamento do Estado brasileiro.

Os principais partidos e personalidades políticas do país se tornaram especialistas no favorecimento dos grandes grupos econômicos usando as políticas “públicas” e sendo agraciados por esses mesmos grupos econômicos, além de reverenciados pela grande mídia empresarial como “os que podem colocar ordem ou dar rumo ao país”. Na falta de reflexão profunda sobre nossos problemas devido, principalmente, à falta de interesse em transformar nossa estrutura econômica, profundamente injusta e desigual, são vendidos de tempos em tempos novos “messias” ou “heróis”.

No entanto, não tem sido necessário muito tempo para que a população brasileira consiga desmascarar um caçador de marajás, um justiceiro de toga, um pai ou uma mãe dos pobres, um empresário de sucesso ou um representante direto do mercado financeiro. Quando observamos que os partidos e políticos envolvidos nos esquemas de corrupção são os mesmos partidos e políticos que têm governado o país há décadas e os esquemas de corrupção remontam à década de 80 ou ao período da ditadura militar (quando a censura os tornavam menos conhecidos), percebemos que a corrupção não é simplesmente um desvio moral de pessoas mal intencionadas, mas, sim, é a forma de fazer política que expressa e dinamiza uma sociedade profundamente injusta e desigual. Se não colocarmos a necessidade de superar nossas históricas injustiças e desigualdades, que são indissociáveis, as referências de falta de liberdade e de autonomia de nosso passado colonial estarão sempre colocadas como referência e só agravarão nossos problemas.

Uma composição política liderada por PT e PMDB foi substituída, por meio de um golpe parlamentar, pela composição política liderada por PMDB e PSDB, que agora está à frente do governo federal. Assim, são os tucanos e os peemedebistas os protagonistas da aprovação de medidas contra o povo no cenário nacional nos últimos meses. O PSDB é o partido que tem governado o estado de São Paulo nas últimas décadas, período em que piorou sensivelmente a situação da educação e da saúde, dentre outras áreas.

Reflexos locais



É preocupante a situação da nossa cidade, Vinhedo, que atualmente é governada pelo PSDB, em uma coalizão também composta pelo PMDB, como na esfera federal. Não tranquiliza tampouco olhar para a trajetória do atual prefeito, Jaime Cruz (PSDB), e verificar que ele chegou ao poder por conta da renúncia do antigo prefeito, Milton Serafim (PTB), para que este não fosse cassado devido à sua condenação por corrupção – condenação que ocorreu pouco tempo após deixar o cargo.

Com os escândalos recentes que vieram à tona em maio de 2017, em que um ex-candidato a presidente e senador afastado, Aécio Neves (PSDB-MG), está sendo desmascarado como o artífice de uma série de crimes, também nos preocupa muito que Jaime Cruz tenha escolhido ingressar nas fileiras do PSDB em um momento no qual o partido estava sob a presidência de Neves.

Em Vinhedo, a falta de planejamento financeiro do executivo municipal para garantir um mínimo de respeito aos servidores públicos e à população por eles atendida e a incompetência administrativa do governo Jaime (o que ficou patente no episódio do vencimento de centenas de medicamentos) estão articuladas com as prioridades distorcidas de gastos com propaganda e com as políticas clientelistas de beneficiamento dos aliados políticos vinculados à administração municipal. Esse conjunto de desmedidas do governo do PSDB de Jaime Cruz só faz agravar a situação geral de crise em que nossas elites econômicas e políticas nos colocaram.

O cenário político nacional é conturbado e tem reflexos em todas as esferas da União. O grande desafio nesse momento é nos prepararmos para superar a política marcada pelo favorecimento privado e pela corrupção. Temos que combater as políticas de privatização e de apropriação do Estado para fins particulares. Não podemos fugir dessa tarefa em um contexto no qual o poder econômico colocou como ocupantes de cargos eletivos pessoas e grupos comprometidos com a manutenção de privilégios à custa dos direitos do povo.

A defesa republicana dos interesses públicos está mais do que nunca na ordem do dia. Precisaremos lutar em todo o Brasil (e também em Vinhedo) contra o projeto de destruição dos serviços públicos. O grupo político que tem governado a cidade, a exemplo do que ocorre no restante do país, não se mostra sensível aos sofrimentos da população e utiliza a inserção que tem na administração pública para acomodar privilégios e negócios particulares. Por isso, precisaremos ficar muito atentos aos ataques que virão daqueles que, ao invés de fortalecer, são verdadeiros parasitas das instituições e interesses públicos.

Não é de hoje que vemos a estratégia de precarização das condições de trabalho e de desmoralização dos serviços públicos. Isso torna mais fácil a privatização da saúde, da educação e dos outros direitos sociais para que se tornem fonte de lucro para empresas financiadoras de campanhas eleitorais. Essa estratégia é levada a cabo por oportunistas que se dizem políticos ou que, como parece ter virado moda, nem políticos se dizem mais, na tentativa de enganar melhor sobre a política que defendem. Não nos deixemos enganar!

O PSOL está ao lado da classe trabalhadora e da defesa do serviço público de qualidade, referência fundamental para construirmos uma vida digna ao povo brasileiro e à população vinhedense. Por isso, apoiamos a campanha salarial dos servidores públicos municipais e defendemos a realização de eleições diretas, para que o povo possa decidir os rumos que devemos tomar diante da crise. Vamos às ruas para derrotar o projeto perverso de Michel Temer, Geraldo Alckmin e Jaime Cruz!

Leia também:

“Diretas Já são muito pouco diante das nossas necessidades”

“É preciso anular todos os atos do governo Temer”

“Ao aprofundar seu programa, classes dominantes aprofundam a própria ingovernabilidade do Brasil”

Potiguara Lima é militante do PSOL e da Educação Pública.

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