Luta de classes, sem minimalismo ou desvios

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Friedrich Hayek não hesitava em condenar o combate à desigualdade social como algo nocivo ao desenvolvimento material da sociedade. A desigualdade, para ele, seria o mote do empreendedorismo; da busca da competitividade;  que, no regime capitalista, pode desembocar inclusive na crime financeiro, por via da sonegação tributária, ou do suborno de agentes públicos no aproveitamento ilegal de espaços no aparelho do Estado. Uma proposta fundada também na capacidade de explorar ao máximo a força de trabalho, disponível como mercadoria, por quaisquer que sejam os meios.

Ou seja, nos termos denunciados desde Rosa de Luxemburgo, a possibilidade da barbárie, que já se apresenta com várias faces no mundo e no Brasil, pois para a acumulação da riqueza e garantia da intocabilidade da propriedade privada não haveria limites.

Às favas os escrúpulos éticos. É o retorno à lei da selva, a validação da hegemonia do mais forte sem concessões; do naturalismo substituindo a racionalidade e transformando conceitos humanísticos de solidariedade e fraternidade em peças descartáveis.

A perspectiva socialista, portanto, deveria ser repelida por todos os meios. O apoio e auxílio explícito de Milton Friedman, sucessor direto de Hayek, à ditadura Pinochet logo após o sanguinário golpe contra o governo democrático de Salvador Allende é prova disso.

O neoliberalismo, portanto, e a consequente financeirização globalizada, é o gerador em escala universal da guerra de conquista; do colonialismo; da escravidão, e das ditaduras que implementam tais abomináveis sequelas que são, por modismos dissimulantes, jogadas para o fundo dos arquivos deletáveis nas potências capitalistas que administram tais crimes à distância.

Mas por que todo este prólogo?

Porque esta reflexão se impõe em razão da necessidade, acredito, de a esquerda ter tais premissas bem claras nas elaborações de suas contraditas, sem se render às ondas de reação reducionistas das lutas totalizantes, que se alastram até entre suas melhores cabeças formuladoras. Vamos a elas.

1) A heterodoxia econômica melhorista

Trata-se do crescimento de audiência a um programa neodesenvolvimentista baseado no fortalecimento de “players” nacionais disputando mercados externos. Onda que começa a embrulhar economistas heterodoxos, nada identificados com propostas neoliberais, na esteira de alguns ideologicamente oscilantes pensadores.

É o caso do recém-convertido Bresser Pereira, que tenta nos fazer esquecer o passado recente como ministro que mais operou na contrarreforma administrativa do mandarinato FHC, no sentido de privatizar, por meio de transformação em organizações sociais, várias instituições públicas, principalmente das áreas de cultura e pesquisa científica.

Mas é também o caso mais significativo de Ciro Gomes, em campanha dupla. Ou na ausência de Lula, para a presidência; ou para vice do dito cujo caso ele se desvencilhe das manobras judiciárias que tentam condená-lo como forma de impedir sua participação no pleito de 2018.

Uma onda que procura manter o embate macroeconômico na fronteira melhorista do regime capitalista. Respeitando suas premissas essenciais; operando apenas no método de aplicação. É o caminho da entrega dos anéis baratos para que se mantenham os dedos caros intocados.

Alguém pode afirmar um ou outro como expressões de uma esquerda confiavelmente transformadora? Se nem o próprio Lula tem se manifestado com respeito a uma postura combativa, capaz de desfazer os massacres sendo implementados nos governos Dilma/Michel Usurpador, serão esses os agentes mais compatíveis para um confronto com o grande capital?

Melhor seria vê-los e ouvi-los como porta-vozes de uma onda que procura manter o embate macroeconômico na fronteira melhorista do regime capitalista. Respeitando suas premissas essenciais; operando apenas no método de aplicação. É o caminho da entrega dos anéis baratos para que se mantenham os dedos caros intocados.

Se nem Lula deixa claro que tentará pelo menos recuperar o quadro anterior, serão os novos neodesenvolvimentistas que o farão?

Porque há que tentar. Se a burguesia reata a “aliança”, é certamente hegemonizando muito mais espaços do que antes. O retrospecto histórico só comprova. Na restauração, o que vem é pior do que o superado anteriormente.

2) A pós-modernidade segmentária

O pós-moderno, fenômeno do fim do século 20, nascido do ceticismo com valores postos em xeque pelo desmonte da URSS, é mais um produto do niilismo fragmentário gerado nos períodos de distopia, com vários exemplos históricos anteriores. É a vaga minimalista que vai abrindo espaços a cotoveladas.

Foi assim depois de 68, quando o proletariado esteve perto de chegar ao céu na Europa mais avançada, e terminou batido pelo senso comum acomodatício, do “não ousar além do possível”. Não era ainda o pós-modernismo. Era, melhor dizendo, uma manifestação de niilismo. De ceticismo. E que, geralmente, alcança mais efetivamente os mais sectários do momento anterior.

Os mais radicais da revolta em Paris, por exemplo, se dividiram com suas repercussões nas filiais ao longo do mundo, entre estruturalismo e “nouvelles droites”.

Quando isso bateu no Brasil, um baiano jovem, de menos de 30 anos, botou a boca no trombone. Era Carlos Nelson Coutinho, com seu “O estruturalismo e a miséria da razão”, livro que teve imensa dificuldade de edição, pois ia na contracorrente do que era “novo”. Ia contra o bem pensar reinante, libertário individualmente, mas antirracional e até anticomunista. Paralelo ao “desbunde”.

Mas voltou, agora, por iniciativa sábia da Expressão Popular. Uma nova edição, com posfácio de Zé Paulo Netto, que Carlito releu, para atualizar, até reescrever, com a experiência de mais 40 anos de vida.

Não careceu. O livro se mantinha atualizado, muito embora o “estruturalismo” estivesse reduzido a subnitrato de pó...

E por que o livro do saudoso Carlos Nelson continua atual?

Porque o pós-modernismo apenas mudou de camisa. Vieram os sucedâneos, O que era “estruturalismo” se travestiu em novas formas de renegar a luta maior, totalizante, de classes, pelas dificuldades conjunturais geradas, no Brasil com a decepção profunda que as sequelas do lulopragmatismo provocaram em boa parte da sociedade pensante.  

Primeiramente, com os Verdes, rapidamente cooptados pela direita em toda parte, e nem merecendo comentários. E, mais recentemente, com as “narrativas” do “empoderamento” nas “pautas identitárias”.

Como sempre, reprodução tardia do que antes assolou a Europa, paralelamente à ascensão de um conservadorismo com traços fortes de neonazismo, na grande parte dos casos conduzido por lideranças femininas.
Essa alternativa é a que invade partidos de esquerda combativa atuaelmente. Em função de análises pessimistas da conjuntura, mergulham nas ações fragmentadas, jogando para escanteio a incessante, mesmo que não reconhecida ou considerada fora de esquadro, Luta de Classes.

Mas eis que, nos últimos anos, valor mais alto se alevanta acima da linha do Equador. Mesmo não estando no poder, pontificam as esquerdas e seus líderes em vários países. A começar por Bernie Sanders, que quase chega ao segundo turno no paraíso capitalista, onde apenas citar socialismo ou contestar o capitalismo era heresia superlativa. Na Europa Catarina e Louçã, do Bloco de Esquerda, na aliança tática com o PCP, em Portugal; Pablo Iglesias, do Podemos na Espanha: Melenchon, com o França Insubmissa, Jeremy Corbyn, retornando o Labour à radicalidade de esquerda no Reino Unido. Isso sem esquecer dos vários países da América Latina, em que o Bolivarianismo resiste aos ataques pesados do imperialismo e seus agentes continentais.

O nosso “Que fazer?”   

Não será tempo, portanto, de a esquerda combativa brasileira se apresentar no espaço maior da luta institucional, aquele em que se discute modelo de sociedade – a campanha presidencial –, tentando reproduzir aqui o que pareceu milagre, mas se transforma em realidade crescente nos países capitalistas desenvolvidos? Assumir uma campanha onde a proposta de reforma seja de caráter estrutural, que, por sua aplicação dê passos decisivos na superação do regime capitalista subalterno e perverso que nos hegemoniza neste momento histórico?

Que reformas seriam essas?

Não há desacordo maior na questão programática de quem tem o objetivo estratégico do socialismo. A questão é encontrar o melhor portador da mensagem. Aquele que traduza de forma transparente um programa, naquilo que hoje se apresenta como necessidade inadiável, mas que abra caminhos para conquistas mais amplas na transformação qualitativa que começar a implementar. É obrigação nossa, contra qualquer ameaça de busca de um “mal menor”, pelo que a história recente tem comprovado ser apenas o caminho para o mal com nosso aval. O mal pior, porque dentro de nós. Um nome capaz de espraiar a luz de propostas, sim, exequíveis, mas sem fugir ao confronto com os mantenedores, explícitos ou dissimulados, do status quo.

E que poderiam ser assim enunciadas, preliminarmente: democratização dos meios de comunicação que operam sob concessão de Direito Público – Rádios e TVS -, com uma espécie de Ley de Medios argentina, ajustada à nossa realidade; Reforma Política democratizante, abrindo espaços ao controle social do aparelho do Estado; Reforma Tributária que cancele as isenções concedidas ao grande capital, estabelecendo uma verdadeira justiça distributiva de encargos e a implantação de controle sob o sistema financeiro privado, cortando-lhe asas no domínio que exerceu, desde a vaga neoliberal de FHC até os dias atuais, sobre o Banco Central; cancelamento de todos os projetos regressivos dos governos Dilma e Michel Temer. Pauta, enfim, de abertura de discussão em nível maior.

Quem sabe, reproduzimos, tardiamente como sempre, mesmo sem a vitória eleitoral, mas reconstruindo uma Frente combativa, mais sólida e ampla que a atual, aquilo que as esquerdas nos centros mundiais de poder estão conseguindo implementar? Só depende de nós. Luta que Segue!

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Milton Temer é jornalista e membro do PSOL-RJ.

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