Vamos? Da unidade na ação ao silêncio da estratégia

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O lançamento público do ciclo de debates programáticos e da plataforma “Vamos! Sem medo de mudar o Brasil” (1) – uma iniciativa da Frente Povo Sem Medo – está suscitando um importante debate na esquerda socialista. Muitos setores que defendem sinceramente a superação pela esquerda do lulismo estão apostando nesse ciclo. Esperam elucidar uma esquerda militante que transita entre as referências reformistas e socialistas como etapa fundamental para a superação do projeto de conciliação de classes que a dominou por décadas sob a liderança de Lula e do PT. Não é dito explicitamente, mas o formato e o momento em que o movimento foi lançado sugerem que se trata da construção de uma plataforma programática para uma campanha presidencial em 2018.
 
Para entender o movimento político intitulado “Vamos”, é preciso resgatar a breve trajetória da Frente de Povo Sem Medo, campo político que o impulsionou, além de, inevitavelmente, realizar um balanço sobre as intervenções da esquerda socialista na conjuntura recente, marcada por um golpe parlamentar.
 
Do povo sem medo à aliança popular
 
Lançado há quase dois anos (no dia 8 de outubro de 2015), a Frente Povo Sem Medo reuniu movimentos importantes, como o MTST, e partidos políticos de esquerda, como o PSOL, além de coletivos e ativistas independentes. A aposta nessa construção parecia acertada naquele período, em que o campo se colocava contra “o ajuste fiscal” e a “retirada de direitos” do povo (2).
 
Até o início de 2016, a Povo Sem Medo (PSM) defendia uma atuação tática comum com amplos setores para combater o ajuste fiscal no país. Sem localizar diretamente na figura de Dilma, ainda assim tinha um viés crítico ao seu governo, pressionando-o para que o mesmo não avançasse numa agenda de cortes sociais e retirada de direitos da população. No momento em que avançou no Congresso a perspectiva de afastamento da presidenta eleita pelo crime de responsabilidade, os movimentos sociais se dividiram entre aqueles contra o Impeachment, e movimentos que empunhavam a bandeira do “Fora Todos”.

Nesse período, por volta de março e abril de 2016, a Povo Sem Medo passou a articular ações com outra Frente, a Brasil Popular (FBP), formada por movimentos e setores defensores dos governos petistas. Entidades como UNE, CUT, MST, além do PT e PCdoB incorporavam a FBP.
 
Esta relação de proximidade silenciou, naturalmente, o discurso da PSM contra o ajuste fiscal, em detrimento da “luta contra o golpe”. Deste ponto em diante, os balanços sobre a natureza do golpe parlamentar cederam espaço para a defesa da unidade possível apenas entre os setores com uma visão comum sobre o momento político. Neste contexto foi formada outra iniciativa, a Frente de Esquerda Socialista, localizada no Rio de Janeiro, que buscava a unidade entre movimentos e partidos não apenas em torno do combate ao impeachment, mas também em defesa de um programa socialista para a classe trabalhadora.
 
Considerado o movimento social mais pulsante e dinâmico da PSM, o Movimento dos Trabalhadores(as) Sem Teto (MTST) apontava a partir de sua principal figura pública, Guilherme Boulos, já em abril de 2016 (3) o início da luta contra o presidente interino, Michel Temer, vice-presidente do governo Dilma e antigo aliado dos petistas. Nós, do grupo Comunismo e Liberdade, nos somamos a esta luta, assim como a FES. Isso passa pelo raciocínio político da tática da Frente Única.

Num de seus mais importantes textos políticos, intitulado “As táticas da Frente Única”, León Trotsky afirmava que a tarefa do Partido Comunista é a de dirigir a revolução proletária e, para isso, precisaria alcançar a maioria da classe trabalhadora como meio de conquista de seu objetivo estratégico e fundamental. Partindo deste pressuposto, em 1924 o revolucionário russo defendeu a construção de uma “Frente Única na luta contra o capitalismo” em unidade com setores reformistas na França, no intuito de dirigir as massas francesas sem a maioria numérica do Partido Comunista naquele momento (4).
 
Na proposta de Frente Única, embora houvesse unidade em consignas práticas, a exemplo do “Fora Temer”, há uma necessidade de diferenciação dentro do movimento unitário entre revolucionários e reformistas. Parece-nos inegável reconhecer que, embora não seja obrigatória, a associação do processo político em debate na França dos anos 1920 com a unidade contra Temer nos parece muito fortuita. Desde o período inicial de mobilização do “Fora Temer” identificávamos que o objetivo do PT com esse movimento, além de se vitimizar e se esquivar de um balanço sobre a longa aliança com partidos burgueses, especialmente o PMDB de Temer, era o de forçar uma diferenciação política que, na prática, não existia entre PT e seus antigos aliados. Uma obrigação para a esquerda socialista era a de explicitar sempre a diferença estratégica entre o nosso campo e o de traidores da classe trabalhadora.
 
Greve Geral e a salvação de Temer
 
Mesmo a unidade ampla contra Temer não o impediu de avançar numa agenda de ataques impressionante, num ritmo jamais visto, nem mesmo nos governos petistas, e até mesmo governos reconhecidamente neoliberais, como os mandatos de FHC. A PEC do congelamento de investimentos sociais e a Reforma do Ensino Médio, por exemplo, foram aprovadas no final de 2016 com pouca resistência dos movimentos, mesmo em unidade.
 
A partir do início de 2017, os movimentos sociais começaram a reagir, partindo da intensa mobilização do Dia Internacional das Mulheres, no dia 8 de março, e nas mobilizações contra as reformas dos dias 15 e 31 de março. Estas mobilizações serviram como ensaio para uma greve geral, aprovada depois de muita pressão da militância de base, para o dia 28 de abril. Esta foi a maior greve geral do século, teve repercussões incríveis e contribuiu para abalar o já extremamente impopular Michel Temer. Todo o movimento combativo se encheu de confiança de que sua principal pauta, o “Fora Temer”, alcançaria a vitória final.
 
Dois movimentos transformaram a vitória unificada em derrota melancólica. Centrais como a Força Sindical e UGT passaram a negociar com o governo Temer a retirada do fim do imposto sindical da pauta congressual (5). O segundo movimento, impulsionado pela Frente Povo Sem Medo e parcela da Frente de Esquerda Socialista, foi o de priorizar a defesa das “Diretas”, apostando na renúncia de Temer e uma manobra do Congresso Federal para substituí-lo por um presidente eleito indiretamente pelo legislativo.
 
Estes dois movimentos esvaziaram o “Fora Temer” e, na semana de julgamento de sua chapa no TSE, as mobilizações pela impugnação dela foram irrisórias. Não por acaso, CUT, CTB, PT, PCdoB e amplos setores do ex-governismo petista se colocavam contra a saída de Temer por impugnação de sua chapa com Dilma. Não houve, ao contrário do período do impeachment, qualquer argumentação jurídica a favor da chapa Dilma/Temer, apenas que isso “legitimaria ainda mais o golpe”. Politicamente a chapa petista, em termos de financiamento, feria profundamente qualquer perspectiva republicana de eleições justas, e foi bancada pelas principais transnacionais do Brasil, boa parte delas envolvidas no escândalo de corrupção investigado na Operação Lava-jato (6).
 
Ainda sobre o debate das “Diretas”, para fortalecer esta iniciativa foi criada a Frente Ampla Nacional pelas Diretas Já! Era, portanto, uma iniciativa que não mais diferenciava socialistas e reformistas, lulistas e oposição de esquerda aos governos petistas. Com a vitória de Temer no TSE, a pauta das Diretas refluiu, mas não a diluição gerada por este movimento. Esta diluição que arregimentou o movimento “Vamos”, lançado nesta semana.
 
O projeto por trás do “Vamos!”
 
Com uma proposta de renovação política dentro da esquerda, o movimento “Vamos!” foi pensado a partir de uma reunião com algumas lideranças do MTST, PSOL e PT, no dia 18 de junho de 2017. Tratada como uma reunião apenas para organizar um ciclo de debates, a mesma foi agitada pela esquerda socialista como uma disputa do “pós-lulismo” (8).
 
O setor majoritário desse partido-movimento tem estabelecido há tempos diálogos tanto com a esquerda socialista (PSOL, PCB etc.) quanto com setores lulistas, inclusive o próprio Lula. Pelo que vemos com exemplos como a PSM, a Frente por Diretas e agora o Vamos, o projeto colocado no médio/longo prazo é o de reunificar num mesmo campo político, sob novas bases (um protagonismo maior deles), a “esquerda”, com Guilherme Boulos emergindo como o novo Lula.
 
Possível candidato presidencial do movimento “Vamos”, Boulos possui um discurso crítico às alianças petistas, mas em constante diálogo com o ex-operário e atual lobista (9). Por mais que se agite que o “Vamos” aponta para debates ditos democráticos e amplos, toda a trajetória política dos grupos, que culminou com a organização destes debates, mostra que a direção real desse processo é bastante verticalizada nas mãos do MTST.
 
Fazemos nossa leitura sobre o “Vamos” a partir dos seguintes pontos: uma postura pública de ampla defesa de Lula diante das acusações de corrupção, colando a imagem de Boulos com a do ex-presidente; o reconhecimento de erros e acertos dos governos petistas, como se fosse uma questão de colocar na balança pontos positivos e negativos e não de localizar o conteúdo de classe de tais administrações; a reivindicação de um programa próximo ao do PT pré-eleição de Lula, não um programa socialista; a busca por atrair setores de peso do PT (Tarso Genro, Lindbergh etc.), não apenas militantes de base, sem cobrar uma real autocrítica em relação à participação destes nos governos de Lula e Dilma; e a recusa em se diferenciar publicamente do PT/ PC do B.
 
De certa forma, o objetivo do suposto novo movimento é o de reeditar, com nova roupagem (nova legenda, por exemplo), o PT da década de 90, sem reconhecer que essa experiência se esgotou. Não percebem que boa parcela do que anteriormente era a esquerda transformou-se em parte da ordem capitalista, em “ex-querda”, pra usar um joguete amplamente utilizado com esta palavra. Estão pensando no pós-Lula, sem superar efetivamente o lulismo.
 
Isso fica evidente na mudança de discurso do próprio Boulos entre maio deste ano e nos últimos dias, quando foi entrevistado para divulgar o “Vamos”. Num primeiro momento o líder dos sem tetos fez uma crítica a Lula, exigindo o fim de alianças com os chamados partidos golpistas. Agora diz que “não há nada sobre autocrítica (da esquerda). Cabe uma discussão sobre o futuro, muito mais do que uma discussão sobre o passado”.
 
Outra evidência do desmascaramento da perspectiva de renovação do “Vamos” é que o mesmo deixou de ser apenas com parte das lideranças petistas, para ser apoiado pela presidência do PT, como mostra a imagem ao lado. Ao contrário do que possa parecer num primeiro momento - esse projeto pode ter bastante utilidade para Lula, pois dificulta a construção de uma verdadeira alternativa ao lulismo e ainda pode contribuir para o surgimento, diante da grave crise de credibilidade do PT e do gradativo fechamento do regime, de uma saída como um partido-frente, ao estilo da Frente Ampla do Uruguai, que unifique, sob a hegemonia de Lula, a “esquerda” - hipótese que já vem sendo aventada por dirigentes do PT.
 
Quem disputa quem?
 
Ao participar dessa iniciativa, as forças da esquerda socialista contribuirão, mesmo que involuntariamente, a diluir suas diferenças, aos olhos das massas, em relação ao lulismo; atrasando a construção de uma verdadeira alternativa; emprestando sua credibilidade, alcançada ao longo de anos de oposição aos governos petistas, para Lindbergh e afins; validando o argumento petista de que é sim possível unir toda a “esquerda”; e conferindo legitimidade a um projeto que, em última instância, não lhes interessa.
 
No atual contexto, em que a única iniciativa programática colocada é o “Vamos!”, a esquerda não disputará bases petistas, mas sim será disputada pelo lulismo, que utilizará o apelo da unidade contra o “golpismo” e a ausência de outras propostas para colocar na defensiva as forças revolucionárias. Seria diferente se a esquerda estivesse construindo prioritariamente outra iniciativa e enviando alguns quadros para disputar o “Vamos!”. Ao contrário, no momento em que os socialistas poderiam denunciar com autoridade ao que levaram as alianças com partidos da ordem, feitos pelo PT aos montes, há a ausência de uma saída que aponta para uma estratégia socialista.  
 
O que fazer?
 
A necessária superação do lulismo é, sem dúvida, o nosso maior desafio e não será alcançada através de atalhos ou “manobras inteligentes”. Não será obtida com o foco voltado quase que exclusivamente para a disputa do “velho”, ou seja, das organizações, ativistas e eleitores que ainda nutrem ilusões com o lulismo (que, aliás, só diminuem), ignorando a disputa do “novo”, ou seja, da enorme parcela da classe trabalhadora e da juventude que não tem mais o PT (e PC do B) como referência e está carente de uma alternativa.
 
Ela exigirá, ao mesmo tempo: a) uma contínua e rigorosa demarcação com o lulismo; b) a construção e afirmação de um programa socialista para o Brasil, que tenha como ponto de partida a crítica radical aos governos de conciliação de classes petistas; c) a conformação de um polo socialista e revolucionário, reunindo o PSOL, PCB, PSTU e ativistas dos movimentos sociais combativos, que se apresente como uma alternativa política para o país; d) a construção da mais ampla unidade de ação na luta contra a ofensiva do capital (reforma da previdência etc.). Sem isso, continuaremos reféns da falsa polarização PT (e aliados) x direita tradicional, facilitando o deslocamento cada vez maior de parcelas da classe trabalhadora e da juventude para a órbita de influência da direita e da extrema-direita – um prelúdio de novas e profundas derrotas.
 
Nesse sentido, em vez de se afundar no pântano do “Vamos!”, a esquerda revolucionária deve apostar na construção de um ciclo de debates programáticos que busque formular uma resposta socialista para o Brasil e acumule concretamente para afirmação de um terceiro campo, que represente os interesses imediatos e históricos dos explorados e oprimidos no cenário nacional.
 
 Referências:
 
(1 http://vamosmudar.org.br/ 
 
(2 http://esquerdasocialista.com.br/movimentos-sociais-lancam-a-frente-povo-sem-medo/
 
3) http://www.pt.org.br/brasil-nao-quer-presidente-bionico-garante-guilherme-boulos/
 
4) https://www.marxists.org/espanol/trotsky/eis/frenteunicocomunistasfrancia.pdf
 
5) http://blogs.correiobraziliense.com.br/vicente/paulinho-negocia-imposto-sindical-em-troca-de-apoio-as-reformas/
 
6) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/08/1496943-tres-empresas-bancam-65-da-arrecadacao-de-presidenciaveis.shtml
 
7) https://www.brasildefato.com.br/2017/06/05/frente-ampla-nacional-por-diretas-ja-e-lancada-com-apoio-de-amplos-setores-sociais/
 
8) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1894224-psol-petistas-e-movimento-de-sem-teto-discutem-plano-para-esquerda.shtml
 
9) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2017/05/29/lula-nao-unificara-esquerda-se-propuser-mais-do-mesmo-diz-lider-dos-sem-teto.htm
 
10) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2017/05/29/lula-nao-unificara-esquerda-se-propuser-mais-do-mesmo-diz-lider-dos-sem-teto.htm
 
11) http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,apos-pressao-pessoas-de-lula-participam-de-movimento-sobre-futuro-da-esquerda,70001935926
 

Daniel Monteiro e Vinicius Almeida são militantes do PSOL-RJ.

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