Correio da Cidadania

A impossível governabilidade das direitas

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Quando começou o declínio do ciclo progressista, aproximadamente cinco anos atrás, analisamos que os eventuais governos de direita que os sucederiam seriam instáveis, assediados por um nível elevado de conflito social, aprofundariam a já existente crise sistêmica e ainda tentariam promover mudanças nas relações entre as diversas classes sociais (1).

O fim do progressismo é muito mais do que a desaparição desses governos e não será sucedido por um governo direitista ou conservador senão por um período de instabilidade. Isso quer dizer que veremos mudanças bruscas no cenário político, guinadas da extrema-direita para a esquerda moderada, e vice-versa, sem que nenhuma dessas forças consiga estabilizar qualquer governabilidade.

As razões são as mesmas que provocaram o fim do ciclo anterior. Mas antes, vejamos brevemente a situação nos três principais países da América do Sul.

No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro entrou em crise apenas umas semanas depois de assumir. A uma forte queda de sua aprovação se soma o enfrentamento entre o setor militar, que dá forma ao núcleo do seu governo, e as travas à Reforma da Previdência, com um pano de fundo de estancamento da economia. A forma principal que está assumindo a crise do governo são as rusgas abertas e públicas entre os bolsonaristas e o vice Hamilton Mourão, que agudiza a instabilidade.

Por baixo, os movimentos não pararam um só momento. Entre janeiro e fevereiro, em pleno verão, o Movimento Passe Livre (MPL), que desencadeou as jornadas de junho de 2013, voltou para as ruas com cinco grandes marchas em São Paulo. Nestes dias as organizações indígenas estão acampando na Esplanada dos Ministérios em Brasília, provocando uma aguda resposta repressiva do governo, que mobilizou a Força Nacional contra a Articulação dos Povos Indígenas.

Na Colômbia, o governo uribista de Iván Duque teve de enfrentar uma onda de manifestações indígenas, negras e camponesas desde 10 de março, que bloquearam as principais estradas do país, em particular a estratégica Panamericana que corre de norte a sul e é a via das exportações para o Equador e o resto do continente. A organização correspondeu a uma ampla confluência, realizada em fevereiro, com 380 delegados de 170 organizações, que questionaram o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) do governo.

A Minga Indígena e popular (trabalho comunitário) foi a primeira grande mobilização nacional posterior à assinatura dos acordos de paz entre o governo e as FARC, que mostrou a acumulação de muitos mal-estares, em particular contra o modelo extrativista em curso. Houve 25000 pessoas nas estradas, acampadas ou mobilizadas de forma permanente, o que forçou o presidente a negociar com os movimentos.

A Argentina é o caso mais paradigmático da impossível governabilidade direitista. A crise desatada em abril de 2018, que levou o dólar de 18 a 44 pesos, disparou a inflação aos 50% anuais e multiplicou a pobreza, mas também a fuga de capitais. Começou em dezembro de 2017 com os protestos massivos contra a reforma da previdência. Os de cima compreenderam que Mauricio Macri não podia impor seu programa e começaram a especular freneticamente.

Nesse momento, um panorama de crise de credibilidade do governo, uma onda de protestos com marchas diárias (na qual se destaca o ativismo dos movimentos de mulheres) e a possibilidade de que Macri perca as eleições de outubro. No meio, um inaceitável acordo com o FMI que multiplica a dívida e fará com que os próximos governos, do signo ou partido que sejam, tenham enormes dificuldades para tirar o país da lama.

Nessa situação, vejo três aspectos que vão aprofundar a crise de governabilidade nos próximos anos, gerando maior instabilidade e implantando profundos desafios aos movimentos antissistêmicos.

A primeira é a potência do campo popular. Mas para além da opinião que se tenha dos governos progressistas, é evidente que nas duas últimas décadas houve um fortalecimento dos setores populares, ainda que suas organizações aos poucos tenham ido se debilitando. Este é o núcleo do déficit de governabilidade.

A segunda radica nas consequências do agravamento da crise global, que entra em uma fase de caos sistêmico. Com isso se reduzem as chances de estabilidade econômica e política.

A terceira é que nenhuma força tem a capacidade para estabilizar a situação. Para isso, a direita deveria derrotar o campo popular, o que não está em condições de fazer.

A esquerda pode governar se consegue romper com o modelo extrativista, com agências globais que o sustentam e as elites globais que o levam adiante. Mas não apresenta o ânimo para iniciar um ciclo de lutas que deveria ser tão potente, que não apenas varreria o extrativismo, mas também poderia expulsá-lo do cenário.


Nota:
1) Acelera-se o fim do ciclo progressista, La Jornada, 30 de outubro de 2015.
Em espanhol: https://www.jornada.com.mx/2015/10/30/opinion/021a1pol 

Raul Zibechi é jornalista e cientista político uruguaio.
Traduzido por Raphael Sanz editor-adjunto do Correio da Cidadania.