Bolívia: Áñez quer impedir 45 mil eleitores em solo brasileiro de votarem em outubro

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A Embaixada da Bolívia – controlada por representantes da oligarquia que destituiu o presidente Evo Morales no ano passado – comunicou, nesta sexta-feira (28), que nenhum boliviano que se encontre em território brasileiro poderá votar nas eleições presidenciais do próximo dia 18 de outubro.

“A decisão de não colher os votos de 45 mil eleitores é completamente absurda e viola frontalmente os direitos assegurados aos bolivianos que vivem e votam no Brasil. É uma medida arbitrária e imoral que afronta à Constituição Política do Estado Plurinacional”, denunciou Mario Tordoya, do movimento internacional Unidos pela Wiphala, que reúne representantes de entidades populares.

Para se ter uma ideia do significado desta participação, declarou Mirna Chávez, do Movimento Wiphala de São Paulo, “todo o departamento (estado) de Pando conta com apenas 72 mil eleitores habilitados para votar”. “O voto no exterior representa 4,7% do eleitorado boliviano, 90% concentrado em quatro países: Argentina (161.057), Espanha (72.602), Brasil (45.793) e Chile (30.943)”, explicou Mirna, lembrando que “são centenas de milhares de pessoas que têm se expressado contra o golpismo que está destroçando o país, desmontando o patrimônio público e fazendo voltar a miséria”.

De acordo com Tordoya, “a armação é grotesca e precisa ser desmascarada”. “Nas eleições de 2019, mais de 70% dos votantes no Brasil elegeram os candidatos do Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP) e, neste ano, a perspectiva é que a derrota dos vende-pátria se amplie. Saltam aos olhos os inúmeros crimes, as perseguições e assassinatos que foram cometidos, atropelos sangrentos que se somam à forma desastrosa com que o governo de Jeanine Áñez conduziu o combate ao coronavírus e à crise sanitária, gerando milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas”, declarou.

Mentiras da embaixada

A alegação do encarregado de negócios da Embaixada, Wilfredo Rojo, é que os bolivianos se encontrarão impedidos de exercer o seu direito ao voto devido a medidas restritivas impostas pelo governo brasileiro para o combate à Covid-19. “Sobre esta Representação Diplomática em particular”, disse Rojo, “as medidas das autoridades federais e do governo do Distrito Federal seguem restringindo a aglomeração da população”, resultando “impossível que estas disposições permitam a realização das eleições de outubro nas instalações desta Embaixada”. Questionado sobre a inconsistência da nota, não obtivemos resposta.

“Wilfredo Rojo é um dos nomes que teve participação direta no golpe contra o presidente Evo. Quando foi enviado para o Brasil, já tinha a responsabilidade de armar este cenário de fraude e de violar direitos constitucionais”, ressaltou o ex-juiz da Corte Suprema de Santa Cruz de la Sierra, Willian Torres, que é também candidato do MAS ao Senado. Torres apontou que “se antes a missão de Rojo tinha este peso, ela se reforça agora quando o regime de Áñez se despedaça e bate o desespero”.

“O fato é que estão buscando de todas as formas se perpetuar no governo para continuar roubando, enchendo os bolsos com recursos tirados dos cofres públicos com casos de corrupção que se multiplicam vergonhosamente”, condenou.

Ex-cônsul boliviano no Brasil, o cientista social José Luiz Mendez Chaurara (Lucho) esclareceu que “mesmo que a Embaixada quisesse não haveria eleitores para aglomerar em Brasília, onde vivem poucos bolivianos, tratando-se, portanto, de uma afirmação vazia de conteúdo, que serve apenas para desinformar”.

Chaurara lembrou que o Brasil tem 5.570 cidades e que pelo fato de os bolivianos estarem dispersos, foram criados os consulados de Brasiléia (AC), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Corumbá (MS), Rio de Janeiro (RJ), Guajará Mirim (RO) e São Paulo (SP), além do consulado Honorário de Salvador (BA). “Como a maior parte dos bolivianos está na capital paulista é aí onde devemos nos concentrar para dar respostas à questão e assegurar a participação, em vez de criar problemas”, frisou.

“Não houve uma única denúncia"

Quanto à alegação do governo boliviano de que outro problema seria o fato de que o TSE não alterou os delegados eleitorais indicados durante o governo Evo, o ex-cônsul lembra que “não houve uma única denúncia sequer sobre fraudes ou qualquer tentativa de alteração dos resultados”. No caso brasileiro, em particular, assinalou, “tudo transcorreu de forma completamente transparente e democrática”.

Para o ex-cônsul, “o objetivo central da autoproclamada presidente Áñez neste momento é fazer com que os bolivianos que se decidiram majoritariamente pelo MAS não votem em países como o Brasil, a Argentina e a Espanha”. “Especificamente em relação à Argentina, que dá todas as garantias para a realização do pleito, e onde 83% dos votantes optaram pelo MAS”, ponderou Chaurara, “o governo Áñez argumenta que está havendo intromissão e anuncia que vai mudar todo o pessoal eleitoral”. “Já em relação aos Estados Unidos, onde vivem assassinos como Carlos Sánchez de Lozada (Goni) e seu ministro da Defesa, Carlos Sánchez Berzain, responsáveis pelos massacres do Outubro Negro e seus mais de 60 mortos, nenhuma palavra”, apontou.

Segundo o representante do movimento internacionalista Wiphala, “o que está evidente é o medo que Áñez e os neoliberais têm das urnas, pois completamente diferente dos quase 14 anos de governo do MAS, o que houve nestes nove meses de gestão foi uma verdadeira calamidade para o emprego, o salário, a educação e a saúde pelo total descaso com a gestão pública”.

“Por isso Luis Arce e David Choquehuanca, como candidatos à presidência e à vice, trazem tanta esperança, porque os bolivianos recordam da sua experiência como ministro da Economia e como chanceler de um governo que fortaleceu a democracia e a soberania, investindo no papel do Estado e redistribuindo a riqueza”, acrescentou Tordoya.

Leonardo Severo é jornalista e colaborador do Correio da Cidadania.

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