O capital é genocida, misógino, racista, predador do ecossistema, xenófobo e ocidental (2)

Como lógica de relação social matemática subtrativa do esforço coletivo em favor de si mesmo que é (ainda que beneficie seus detentores capitalistas), o capital não poderia deixar de ser racista.

Assim, uma lógica abstrata desce ao mundo da realidade social para realizar a sua cruel função escravista e segregacionista.

Os negros trazidos da África como mercadorias e propriedade de quem as comprou dos mercadores internacionais de escravos, eram protegidos por uma legislação (isto estava admitido na nossa Constituição imperial e legislação originária, a qual admitia a propriedade dos negros) que assim tornava legal tal absurdo.

Aprendam, Mourão e Boçalnaro, que negam o racismo no Brasil: nosso país foi o penúltimo a abolir formalmente a escravidão. Tal estigma nos acompanha até hoje.

Com a abolição a bela etnia africana passaria a ser escravizada pelo salário, opção até mais cômoda do ponto de vista mercantil, uma vez que passariam a ser compradores de mercadorias dos seus antigos senhores e ensejariam uma forma de acumulação do capital sem riscos de custos de manutenção das senzalas.

Basta olharmos a formação social brasileira e nos indagarmos:

— quantos afrodescendentes são proprietários ou detêm parcela expressiva das ações das grandes empresas nacionais e multinacionais que aqui operam, apesar de 9,4% dos brasileiros se considerarem negros e 46,8%, pardos?

— qual a percentagem de encarcerados negros nos nossos presídios, comparativamente às outras etnias?

— qual a percentagem de negros que ocupam cargos na alta esfera política e institucional brasileira, comparativamente às outras etnias?

— seria justo atribuir-se o alto índice de criminalização dos negros em relação às outras etnias a uma criminalidade intrínseca?

Além de racista, o capital é xenófobo, isto porque as historicamente recentes formações nacionais dos Estados (e seu nacionalismo prepotente, como o America First recém-derrotado) se deram como forma de proteger a produção nacional e as condições de governabilidades existentes a partir dos impostos nacionais arrecadados das transações mercantis internacionais.

Entretanto, como o capital é uma contradição em processo, a dialética de seu movimento conspirou contra esse xenofobismo. A sua busca frenética de vida em face do seu limite histórico de expansão acabou quebrando parte desse xenofobismo nacionalista, ao levar empresas nacionais a se instalarem noutros países atrás de mão-de-obra escrava barata.

Foi assim que os chineses puderam mexer no tabuleiro mercantil nacionalista internacional e assumir um protagonismo decrépito ainda mais escravista (os salários médios dos trabalhadores chineses e as condições de produção industrial do seu povo são aviltantes), a que denomino de crescimento rabo de cavalo: sempre para baixo.

Tal fenômeno está desfalcando substancialmente a reprodução global de valor, questão que se coloca como a ponta de lança do colapso futuro.

Mas os asiáticos chineses não entram nessa história apenas com salários baixíssimos que lhes permitem ganhar a guerra concorrencial de mercado, mas, também, por conta de sua colossal dívida pública e privada (de quase 300% de um PIB cuja percentagem de crescimento vem diminuindo como consequência do limite de expansão capitalista determinado pelo limite de consumo) e com juros diferenciados cobrados pelo sistema de crédito mundial (formado pelos bancos dos países capitalistas hegemônicos) maior do que daqueles cobrados aos países considerados ricos.

O racismo e a xenofobia próprios do capital se quedam diante da sua necessidade de sobrevivência e, assim, o ocidentalismo do capital concilia com os chineses, ainda que mantenha uma visão preconceituosa quanto ao bravo e escravizado povo chinês, que não tem nada a ver com seu capitalismo regido por uma regime político fechado, pseudocomunista.

Por fim, o capitalismo é misógino. As mesmas perguntas que se fazem à inserção dos negros na vida social do ponto de vista humano, podem ser feitas com relação às mulheres, que ganham menos do que os homens em funções idênticas (as exceções apenas confirmam a regra).

Se é mulher e negra, aí a coisa se potencializa. Não são poucas as mulheres negras que têm de se virar nos trinta para alimentar suficientemente os filhos, uma vez que, desde morada, alimento e educação, tudo lhe falta; principalmente respeito!

A pergunta que não quer calar: por que se finge que tudo isso é normal?

Por que a consciência cívica não aceita discutir um novo modo de produção e de organização social que supere todos esses preconceitos, exploração e genocídio suicida?

A resposta não pode ser outra senão aquela que diz: somos submetidos por uma lógica escravista contra a qual, mesmo sendo maioria, não nos insurgimos por ignorância e covardia diante do medo do novo que desconhecemos.


Leia a primeira parte deste texto: https://correiocidadania.com.br/2-uncategorised/14455-o-capital-e-genocida-misogino-racista-predador-do-ecossistema-xenofobo-e-ocidental-1 

Dalton Rosado é economista.
Originalmente publicado em: Náufrago da Utopia.

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