Correio da Cidadania

Não há o que temer no comunismo

Já não é de hoje que toma corpo a esquerda paz e amor. Essa ideia insana de que é possível humanizar o capitalismo. E nesse diapasão vamos vivendo lutas por políticas públicas, de apaziguamento da miséria, propostas alternativas isoladas que não enfrentam o capitalismo ou ainda a ingênua intenção de um desenvolvimento sustentável no rumo de uma nação com bem estar social. Tudo bem se essas batalhas forem encaradas como reformas necessárias num caminho para outra forma de organizar a vida. Mas, crer nessas propostas como um fim em si mesmas é ilusão. Há que avançar para a ruptura. O capitalismo – já nos mostra o alemão Karl Marx – tem determinações muito claras e nelas não cabem nossas propostas. Sua característica principal é a exploração. Sem ela não há capitalismo. Logo...

Os últimos acontecimentos no Brasil, no que diz respeito às ações do judiciário, levaram muitas pessoas a perceber que o Estado existente é um Estado de Exceção. De repente, aquilo que só valia para os empobrecidos, os negros, os índios, os esquecidos, os trabalhadores assalariados, passou a valer também para os inimigos tradicionais. Quebrou-se o código que funcionava como um acordo tácito: os ricos e os que carregam algum poder tinham tratamento diferenciado. E, de repente começou a brotar o bordão de que “a lei é para todos”, como se isso fosse uma verdade. Não é. O Estado de Exceção é uma realidade desde a sua formação. Ou alguém acha que lá na Europa, onde essa forma de organização nasceu, o Estado existia ou existe para proteger as gentes? Não. Nunca foi assim. Foi sempre para proteger os que estão no comando, a burguesia, os ricos, os grandes proprietários. E os que estão no comando pertencem a uma determinada classe, que não é a dos trabalhadores. Se, como agora no Brasil, há uma disputa intraclasse, é sempre conjuntural. Logo as abóboras de acomodam e os acordos são refeitos.

Foi Marx quem desvelou essa verdade oculta ao estudar as determinações dessa forma de produção chamada capitalismo. O Estado Burguês é o balcão de negócios da classe dominante, é o responsável por fazer acontecer o processo de acumulação de riqueza apenas para alguns, tais como as grandes transnacionais, como a Monsanto, a Odebrecht, as petroleiras e outras. Ele existe para atender aos interesses da minoria que se encastela no poder e governa em nome de todos, sem que os interesses de todos sejam levados em conta. Só o que vale é o interesse da minoria que tem a propriedade privada dos meios de produção, os bancos, as terras, as máquinas, as indústrias, as grandes empresas.

Olhemos o Brasil. A quem representam os legisladores, os que fazem as leis? Representam interesses bem específicos: latifúndio, indústria, igreja. Apenas aqueles que produzem mercadorias, deixando claro que hoje inclusive a fé das gentes é uma mercadoria. A maioria fica de fora. Vez em quando ganha um afago, para aliviar a pressão. Mas, basta que se apresente algum risco aos lucros, e lá são tirados os direitos. Como agora, na reforma trabalhista, no congelamento dos “gastos” públicos, na reforma da previdência. “Tirem dos trabalhadores. Tirem dos mais empobrecidos. Tirem da maioria”. Essa é a regra. O Estado de Exceção agindo, como é da sua natureza.

Qual a saída para isso? Melhorar o capitalismo? Humanizar? Clamar por compaixão? Não. Há que apostar na comunidade, na constituição comum dos bens. O capitalismo é um metabolismo insaciável, precisa se expandir a todo custo. Não pode parar. Por isso vai passando por cima das gentes. Não há misericórdia.

Marx apontou uma possibilidade: o comunismo. E o que é isso que as pessoas tanto temem? É o uso comum das riquezas, das terras, das fábricas. Cada um recebendo conforme suas necessidades, sem acumulação ou exploração. É uma sociedade em que todos participam, a sociedade do comum, numa convivência em que os que produzem a riqueza também podem usufruir dela. O comunismo é um momento em que até a batalha pela democracia deixa de ser necessária porque ela será capilar. E nesse modo de organização da vida não haverá Estado, porque a forma estatal é, naturalmente, uma forma de exceção.