Saíram os norte-americanos, entrou a barbárie. Ou não?

Fuga em aeroporto de Cabul, no Afeganistão, deixa mortos
Terminou mais uma guerra norte-americana, a terceira depois da Guerra da Coreia. Em todas elas – no Vietnã, Iraque e Afeganistão – os EUA saíram derrotados, embora sua superioridade de forças fosse gigantesca.

Tio Sam sempre justificou suas guerras como em defesa de valores éticos civilizatórios ou de justos interesses, inclusive de outras nações: nada a ver com razões econômicas ou geopolíticas.

Em todas elas, com o objetivo de instaurar a democracia nas nações palco das beneméritas intervenções ianque, o governo de Washington teria sido obrigado a assumir o poder de fato por tempo indefinido, através de colaboradores políticos locais.

Nessas três iniciativas bélicas, os EUA acabaram tendo de retirar suas forças apressadamente sem terem conseguido realizar os objetivos de suas intervenções.

Vietnã

No fim da guerra do Vietnã aconteceu exatamente o que eles pretendiam evitar. Tudo começou numa luta entre o Vietnã do Sul, parcamente democrático e pró-Ocidente, e o Vietnã do Norte, comunista e pró-União Soviética. Ambos disputando o país inteiro para si.

Estávamos nos anos 60, tempos de Guerra Fria, os EUA não admitiam perder terreno para Moscou. Louco por entrar na guerra, o governo Johnson fabricou um incidente no Golfo de Tonkin, uma suposta agressão de navios norte-vietnamitas a pacíficos destroieres estadunidenses. E, com base nessa legítima fake news, conseguiu aprovação do Congresso para declarar guerra aos apadrinhados pela União Soviética.

E os EUA entraram em ação com todo o peso das suas forças armadas.
A guerra do Vietnã durou quase 18 anos, custou cerca de 1 trilhão de dólares aos EUA, tendo provocado pesadíssimas perdas humanas.

Morreram cerca de 2 milhões de civis vietnamitas habitantes do norte e do sul e 1,1 milhão soldados norte-vietnamitas e da sua milícia aliada, os vietcongues. Estima-se que foram mortos entre 200 mil e 250 mil soldados sul-vietnamitas; 58 mil soldados norte-americanos morreram, sendo que 75 mil veteranos voltaram da guerra inválidos ou portando sérias deficiências físicas ou mentais.

Visando vencer os inimigos pela fome, a aviação dos EUA lançou chuvas de bombardeios às terras cultiváveis do Vietnã do Norte, usando gases (hoje, seria crime de guerra), o chamado agente laranja. A agricultura da região foi arrasada, mas a ação teve um efeito bumerangue, pois seus soldados também foram atingidos. O Departamento de Assuntos de Veteranos calcula a ocorrência de efeitos malignos em 668 mil soldados, expostos ao agente laranja.

A guerra acabou com a entrada dos soldados e guerrilheiros comunistas em Saigon e a fuga tumultuada dos norte-americanos e amigos vietnamitas, mostrada em cenas de uma multidão tentando desesperadamente sair do país, via aviação dos EUA.

Temendo represálias dos vencedores, cerca de 2 milhões de vietnamitas fugiram por mar, sendo que 250 mil deles morreram afogados.

Depois do acordo de paz e da retirada norte-americana, os soldados do Vietnã do Norte e os vietcongues tomaram todo o país, praticamente sem oposição das desmoralizadas tropas do governo, unificando-se o Vietnã num Estado socialista.

Iraque

A guerra do Iraque foi também provocada por uma fake news. Em 2003, os EUA viviam os começos da Guerra ao Terror, decretada pelo governo Bush, na reação ao atentado das Torres Gêmeas.

Embalado pelo apoio em massa da população, ao mesmo tempo profundamente assustada e indignada, o presidente estava ansioso para se apresentar como um herói protetor do povo. Com base em informações duvidosas, a inteligência nacional considerou existir um suposto programa nuclear no Iraque do ditador Saddam Hussein. Bush e seu cercle intime sentiram que a oportunidade chegara: seu governo não poderia admitir que armas capazes de destruírem os EUA e o mundo ficassem nas mãos sanguinolentas de um tirano brutal e inescrupuloso.

Com apoio das tropas inglesas do submisso Tony Blair, primeiro-ministro inglês, Bush ordenou a invasão do Iraque. No começo, tudo deu certo: o exército adversário foi facilmente desbaratado; o país inteiro foi ocupado pelas forças invasoras; instaurou-se um regime vassalo de Washington e Saddam Hussein preso e devidamente enforcado.

No fim das operações principais, o belicoso Bush proclamou orgulhosamente: nosso trabalho está feito.

Não estava. Descobriu-se que o tenebroso programa atômico iraquiano não existia. Bush não se tocou: ficaremos dando as cartas no país para construir uma democracia. E garantir seu apoio total e irrestrito às políticas de Washington.

Faltou combinar com os iraquianos. Inconformados, surgiram muitos grupos de insurgentes, tanto sunitas quanto xiitas, que lançaram ataques furiosos e atentados contra as tropas ianques. Entre esses grupos, contavam-se vários financiados e treinados pelo inimigo Irã. Em todo o país, prevalecia a revolta contra a ocupação estrangeira.

Passaram-se anos, anos de lutas contínuas, até que Bush e seu sucessor, Barack Obama, desistiram, não dava mais continuar remando contra a corrente da condenação do próprio povo e da opinião internacional.

Assim, em 2011, as tropas deram seu adeus ao Iraque, deixando como seu legado um país em ruínas e um regime de maioria xiíta altamente instável, sofrendo constantes ataques de movimentos fundamentalistas. O principal deles, a Al-Qaeda, revigorou-se na insurreição contra os estrangeiros invasores, dela saindo uma horda de fanáticos, particularmente violentos, que se organizaram num movimento à parte, o Estado Islâmico (EI), cujos tenebrosos malefícios encheram o Oriente Médio de crimes e terror, durante vários anos, até sua derrota por forças iraquianas, norte-americanas e milícias comandadas pelo Irã.

Na guerra do Iraque, a população civil do país foi duramente castigada, perdendo cerca de 205 mil vidas. Entre os grupos insurgentes, morreram quase 42 mil combatentes. No lado oposto, 4.800 soldados norte-americanos foram mortos, além de 3.800 soldados e funcionários contratados. E os EUA também torraram 2 trilhões de dólares em despesas militares desta superprodução sem happy end, dirigida por George W. Bush.

Afeganistão

A terceira guerras norte-americanas, a do Afeganistão, acaba de se concluir com o fracasso que já se tornou rotina.

Os EUA a iniciaram em 2001. O motivo: seria vital para o país e as demais nações civilizadas invadir e conquistar o Afeganistão para destruir a al-Qaeda, ali homiziada, impedindo assim que esses celerados continuem praticando crimes contra a humanidade, como o que matou cerca de 3 mil cidadãos no atentado das Torres Gêmeas. Intimado, o governo afegão recusara-se a entregar o supervilão Bin Laden, tornando-se assim cúmplice do chefe do terrorismo mundial.

Essa narrativa vem sendo repetida incansavelmente por jornalistas na TV, rádio e imprensa escrita para explicar o porquê da guerra. Nenhum deles conta a história inteira.

A verdade é que depois do atentado das Torres Gêmeas, planejado e executado pela Al-Qaeda, o governo Bush estava ansioso por vingança. Destruir a Al-Qaeda e seu líder, Osama bin Laden, seria necessário para punir os terroristas e mostrar o tamanho da ira de Tio Sam, sem contar os incontáveis votos que os eleitores gratos dariam aos republicanos.

Esse bando de terroristas demoníacos estava no Afeganistão, ergo, cumpria ao governo talibã entregar aos EUA o chefão bin Laden e expulsar seus liderados do país. Diante da negativa, a Casa Branca decidiu pela invasão do território afegão, à qual o solícito Tony Blair aderiu imediatamente.
No prosseguimento do ataque norte-americano, a Al-Qaeda mudou-se para o Iêmen e a África e Osama bin Laden foi morto por forças especiais da Marinha, em solo paquistanês.

E assim desapareceram as razões da guerra. Missão cumprida, seria hora de se reunir com o governo afegão e forçá-lo a aceitar a paz de acordo com os interesses da justiça e dos estadunidenses.

Nem pensar, bradou o presidente Bush, “vamos é mudar nossos objetivos”: a partir de agora lutaremos para transformar o Afeganistão numa legítima democracia, fiel ovelha do rebanho de Tio Sam. Foi o que os EUA tentaram, com os resultados conhecidos.

Tudo isso é verdade, ninguém nega. Só que essa verdade não está completa. O New York Times, em 23 de agosto último, levantou o pano que cobria o palco.

Segundo o respeitado jornal, depois dos primeiros dois meses da invasão, os devastadores ataques norte-americanos convenceram os talibãs de que não teriam chances. Foi então que, seu chefe, o mulá Omar, escreveu a Hamid Karzai, político bem-visto pelos estadeunidenses (posteriormente, posto por eles na presidência afegã), pedindo que levasse aos adversários uma proposta de rendição. Queria reunir-se com o comando dos EUA para acertar os termos de um acordo, no qual os talibãs garantiriam seu adeus às armas, a entrega de todo o país aos invasores e o sumiço dos jihadistas na vida política nacional.

Nada feito.

Dos talibãs, os norte-americanos não queriam paz, queriam sangue. E o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld respondeu: “os EUA não estão inclinados a negociar rendições”. E acrescentou o que seu governo queria era o mulá Omar preso ou morto.

Aí, deu no que deu: 20 anos de guerra sem tréguas, na qual foram mortos cerca de 48 mil civis afegãos e mais de 51 mil guerreiros talibãs.

Do lado dos EUA, reforçados pelo Reino Unido, de Tony Blair e depois também por vários países da OTAN, morreram 2.450 soldados, 3.937 auxiliares contratados pelo Pentágono, 1.144 soldados de países da OTAN e 66 mil militares e policiais do governo títere de Cabul.

O total das despesas da guerra atingiu 2,3 trilhões de dólares. O dinheiro que o presidente Biden hoje reserva para reformar toda a infraestrutura dos EUA e socorrer os muitos milhões de famílias pelos danos sofridos na pandemia.

Como já está virando rotina, o governo norte-americano saiu perdendo em mais uma das suas guerras, tendo esquecido seus objetivos de redemocratizar o Afeganistão. O país voltou a ser o que era em 2001, quando os EUA recusaram-se a aceitar a rendição dos talibãs, preferindo a guerra.

Durante a ocupação norte-americana, o país continuou campeão mundial de produção de ópio, classificando-se ainda no 169º lugar no índice mundial da corrupção, aliás, ampliada aos vários setores da administração pública. Inclusive no militar, onde os EUA dissiparam 64 bilhões de dólares na formação e treinamento de um exército, que dispondo de 300 mil soldados modernamente armados e 100 aviões e helicópteros contra menos de 80 mil talibãs, sem tanques, nem aviões, preferiu fugir ignominiosamente.

Com os talibãs vitoriosos, toda a nossa imprensa e as redes sociais passaram a focar a cenas dramáticas de multidões de afegãos desesperados, atropelando-se para conseguir entrar num aeroporto, onde esperavam embarcar em aviões para se salvar das violências aterrorizantes que temiam receber dos implacáveis talibãs.

Nos dias seguintes, ao lado de fotos de guerrilheiros armados e ferozes, explodiu uma massa de informações sobre o retorno às práticas extremamente cruéis e retrógradas e ao esmagamento dos direitos das mulheres, marca registrada do anterior regime dos talibãs, de antes da invasão norte-americana.

Estas acusações, em geral, não indicam nem locais, nem nomes, nem fontes, fica difícil distinguir quais são fatos ou fake news.

Pode ser verdadeiro que um bando de talibãs, em Cabul, foi, de casa em casa, com péssimas intenções, em busca de quem prestara serviços às tropas de ocupação.

Já não dá para acreditar em casos como aquele de um talibã que, talvez sendo um refinado gourmet, tenha incendiado a cozinheira para demonstrar sua reprovação a um prato mal temperado.

Reconheçamos que devem ter acontecido violências dos vencedores contra civis em diversos locais do país. Mas é de se supor que são casos pontuais. Não refletem diretivas da liderança talibã.

Embora os rostos barbudos, as expressões patibulares e os assustadores fuzis, sempre empunhados, passem a impressão de que os guerreiros talibãs se integrariam com louvor nas hordas de Átila ou Gengis-Khan. Também não é nada tranquilizador o chefe do grupo terrorista Haqani ter sido nomeado para garantir a segurança em Cabul. Parece uma raposa escalada para proteger um galinheiro.

No entanto, há outros pontos a se levar em conta. Os chefes talibãs de hoje não são os mesmos dos tempos anteriores à guerra. Passaram-se 20 anos, talibãs que eram então adolescentes ou meninos, hoje são homens feitos, líderes, que podem ter aprendido muito com as vicissitudes sofridas nos anos de chumbo grosso.

Ao contrário dos primeiros governantes talibãs do Afeganistão, expulsos pelos norte-americanos em 2001, a geração atual tem mostrado em declarações e atos que possui uma visão pragmática, capaz de enxergar os caminhos impostos pela realidade para seu país.

Eles têm reafirmado que as mulheres não perderão os direitos conquistados de estudar, trabalhar e circular pelas ruas sem a companhia obrigatória de um guardião. Só precisariam cobrir os cabelos com um lenço, não seria obrigatório (como antigamente) vestir a incômoda e nada elegante burka, que cobre totalmente o corpo, só deixando duas frestas para os olhos. Poderão agora optar pelo ameno hijab, que apenas esconde cabelos.

Dizem também que os funcionários do ancien régime não serão perseguidos e o novo governo terá participação de elementos estranhos ao talibã, o que, aliás, deve mesmo acontecer.

Fontes da ANI News ( 23/08/2021) revelam que dois políticos liberais, Abdullah e Karzai, aceitaram convite oficial para integrar o conselho de 12 membros, encarregado de governar o país.

Essas coisas geram esperanças de que estaria surgindo um Afeganistão mais civilizado, sem penas aplicadas em público de degola, amputações, apedrejamento, chicotadas e outras barbaridades desse jaez.

No Afeganistão, sob o antigo governo talibã, vigorava a sharia (conjunto de leis derivadas de princípios do Alcorão), estabelecida segundo interpretações distorcidas ou mesmo rigorosamente ao pé da letra, como acontecia nas comunidades mais remotas e atrasadas do Oriente Médio, na Idade Média.

O sistema jurídico atual continuará sendo a sharia, porém numa versão adequada ao nosso século, levando em conta não o que está escrito, mas o sentido buscado pelo legislador.

Nota-se que alguns jornalistas ficaram chocados com a informação oficial de que o novo Afeganistão não será democrático.

O tempo dirá

Surpreendente seria se adotassem uma democracia, coisa rara entre os países do Oriente Médio. Em alguns, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein - todos grandes aliados dos EUA - o governo é exercido por monarquias ditatoriais e nenhum dos grandes países do Ocidente se preocupa com isso.

Aparentemente, os líderes talibãs são sinceros nos seus propósitos de bom comportamento. Estão conscientes de que o novo Afeganistão precisa ser legitimado. Não pode ficar isolado, visto no exterior como um país subjugado por bárbaros atrozes, alheios às regras universais de convívio entre as pessoas e nações.

Se o Afeganistão dos talibãs não for devidamente reconhecido pela comunidade das nações estará flertando com o colapso. Perderá acesso ao crédito internacional e a ajudas humanitárias, de que carece. O país é árido, produz poucos alimentos e os rendimentos arrecadados pelo governo são baixos; 80% das despesas orçamentárias vinham sendo pagas pelos EUA e aliados.

Por enquanto, há uma expectativa, que provoca interrupções nas ações da área econômica internacional.

Depois da queda do governo de Cabul, o FMI e o Banco Mundial interromperam o andamento de importantes operações financeiras em princípio aprovadas. Os EUA bloquearam bilhões de dólares do governo afegão depositados nos seus bancos. Os novos líderes talibãs podem ser radicais, mas não são loucos.

Por outro lado, talvez os seus milicianos e lideranças intermediárias insistam em impor ideias e comportamentos inaceitáveis face aos direitos humanos e leis internacionais. Será que seus chefes conseguirão contê-los?

Uma possível resposta pode ser inferida nas afirmações de Zabihullah Mujahid, porta-voz do Talibã, ao The New York Times (24/08/2021). Ele pede que, por enquanto, as mulheres se ausentem do trabalho, fiquem em casa, pois os soldados do Talibã “sempre mudam e não são bem treinados”.
Isso seria temporário e permitiria ao grupo encontrar maneiras de garantir que as mulheres não sejam “tratadas de maneira desrespeitosa” ou “Deus me livre, que se machuquem”.

O futuro próximo dirá o que será do país.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça