Correio da Cidadania

O inverno da desesperança do povo afegão



 
Foto: Estrada afegã. Créditos: Massoud Hossaini, USAID/Pixnio.

O inverno já começou no Afeganistão, e será desastroso para o seu povo. As baixas temperaturas e as nevascas tendem a agravar a crise humanitária que assola o país e provocará mais mortes do que o total das vítimas nos 20 anos da guerra do Talibã contra os EUA e aliados (New York Times, 4/12/2021).

O Afeganistão é um país pobre, onde predomina a agricultura de subsistência. Grande parte do seu território é montanhoso, tendo planícies no Norte e no Sudoeste. Suas áreas economicamente aproveitáveis são divididas entre extrações de minérios, culturas de ópio, do qual é o maior produtor mundial, e plantações de cereais, cujas colheitas costumam ser insuficientes para atender às necessidades alimentares da maioria da população.

Em 2021, a soma dos efeitos de 20 anos da guerra, e de uma seca sem precedentes no país, devastaram a produção nacional de cereais, reduzindo substancialmente o volume das colheitas.

O governo recém-derrotado, satélite de Washington, contava com maciços recursos disponibilizados pelos EUA e aliados, o que lhe permitia importar os alimentos necessários para poder suprir ao menos parcialmente as carências de sua agricultura. Neste ano, a dependência tornou-se maior graças a uma seca de duração sem precedentes, que contribuiu para reduzir ainda mais as já insuficientes colheitas de cereais.

Em agosto, com a paz e a retirada das forças americanas, esperava-se que esse auxílio financeiro não fosse retirado, pelo menos até que a economia do país pudesse se movimentar sobre seus próprios pés.

Esperança vã.

Nem bem o último soldado de Tio Sam sumiu no horizonte, e Biden já estava cancelando toda a ajuda que os EUA vinham prestando ao Afeganistão, quando governado pelos fiéis seguidores de Washington.

Não ficou nisso: estendeu para todo o país as sanções que, durante a guerra, haviam sido aplicadas contra os talibãs para criminalizar quem transacionasse com eles e punir violações dos direitos humanos.

Diversificando o ataque, o bom Joe pressionou o FMI e o Banco Mundial para adiarem seus programas de apoio à economia afegã. O Banco Mundial já cedeu a Washington, engavetando todos os seus projetos no país, inclusive o maior deles, o Citizen´s Charter National Priority Program, que injetaria 1 bilhão de dólares na economia do Afeganistão (Tolo News, 1/1/2022).

E, o que pesou mais: manteve fechados a sete chaves os depósitos nos bancos da América feitos pelo governo anterior, com o fim de garantir as reservas do país. Nada menos do que 9,5 bilhões de dólares foram congelados, colocados fora do alcance do governo atual.

Paul Spiegel do Centro pela Saúde Humanitária, da Universidade John Hopkins, sustenta que: “Congelar a ajuda e os recursos do governo (afegão) paralisou quase tudo, infringindo punição coletiva ao povo afegão. É uma política monstruosa.”

Não importa que foi o governo anterior quem depositou 9,5 bilhões de dólares em bancos americanos, representando o Afeganistão. Não era dinheiro deles, mas sim do seu país.

Agora mudou o governo, mas o Afeganistão continua vivo. Os depósitos bancários no exterior lhes pertencem de pleno direito e cabe ao novo governo utilizá-los da maneira que lhes convir. Negar-se a devolver depósitos de propriedade de outro país, me parece um crime.

Com sua blitzkrieg, Biden deixou claro que a guerra contra os talibãs na verdade não terminara. Os EUA estavam apenas trocando suas ações militares por medidas econômicas, bem mais destrutivas do que as bombas: um tsunami de tiros e mísseis disparados nos 20 anos de guerra.

Acho que o propósito desta ofensiva é provocar fome generalizada, cuja responsabilidade recairia fatalmente sobre o Talibã, como governo do país, e jogaria o povo contra ele.

Convém notar que o Talibã que guerreava e matava soldados americanos não existe mais. Ele agora administra o Afeganistão com o objetivo não mais militar, e sim (como é comum nos governos), praticar ações que melhorem as condições de vida da população.

Disparando seus mísseis econômicos, os EUA não estão mais vulnerando o Talibã, nem mesmo os novos líderes do governo de Cabul, que continuarão gozando as delícias do poder (prerrogativa usual de chefes de Estado).

Quem agora os americanos guerreiam é o próprio povo afegão, com a fome, principal consequência das ações predatórias do governo Biden, as quais constituem punição coletiva-  crime de guerra, conforme o art. 33 da Quarta Convenção de Genebra e o Protocolo Adicional II, de 1977.

Isso de modo algum perturba Biden: nenhum tribunal teria a audácia de submeter a julgamento o presidente da maior potência do mundo pela prática de um crime de tal magnitude. Se isso acontecesse, o governo Biden passaria um mau pedaço pois, face a inúmeros testemunhos de fatos graves, ele seria considerado culpado pela crise alimentar do Afeganistão de hoje.

Diz relatório do Programa de Alimentação Mundial da ONU que, desde novembro, 22.8 milhões de pessoas– mais da metade dos afegãos- sofrem altos níveis de insegurança alimentar. Entre eles, 8,7 milhões estão perto da fome – o pior estágio da crise alimentar (The New York Times, 4/12/20210). Note que os EUA começaram a disparar seus mísseis econômicos a partir da entrega do poder aos talibãs.

Recente pesquisa da instituição acima revela que 98% dos afegãos já vêm consumindo alimentação apenas suficiente para não morrerem de fome.

7 entre 10 famílias precisam tomar dinheiro emprestado para poder comprar comida.

Estes dados chocantes se refletem em relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas que apurou nos últimos meses do ano que: 97% da população do Afeganistão deverá cair abaixo da linha da pobreza.
Como sempre acontece, as crianças pagam um preço pesado em situações de crise: de acordo com a UNICEF, uma em cada duas crianças afegãs com menos de 5 anos será drasticamente malnutrida em 2022, devido à crise alimentar e o pouco acesso a água- por sinal, de má qualidade- e aos serviços médicos e sanitários (Tolo News, 23/12/2021).

Diante da expansão da crise humanitária, cerca de 1 milhão de crianças morrerão neste inverno devido a severa e aguda má nutrição (Responsible Statecraft, 10/12/2021).

Admito que, mesmo antes da guerra, a maioria da população afegã era mau nutrida, no entanto, essa situação começou a crescer com a expansão dos combates. Que se acelerou a partir da retirada das forças americanas.

E já configura uma das maiores crises humanitárias do mundo.

Por que um homem brando e humano como Biden está comandando esta devastação, lesiva aos direitos humanitários de uma alimentação ao menos básica? De ter saúde? De viver em paz?

Em primeiro lugar porque, para muitos militares de Tio Sam, sobram razões para os talibãs serem punidos (terrorismo interno, ter vencido o imbatível exército americano, a honra americana).

Por sua vez, o chamado war party, cujos membros clamam no Congresso e em certos jornais e grupos de intelectuais direitistas, na Fox TV, entre os generais-políticos do Pentágono que estão sempre em busca de pretextos para afirmar a supremacia mundial dos EUA pela força das armas.

Há outro grande obstáculo: quase todos os republicanos e muitos moderados democratas duvidam que os talibãs cumpram seu compromisso de jamais fazer do seu país território de treinamento e planejamento de ações terroristas no exterior, na América especialmente .

Não faz sentido. O Talibã é essencialmente um movimento nacionalista. Coerente com esta ideologia, suas lutas cingiram-se a procurar a expulsão de todos os militares estrangeiros. Atualmente, está em guerra contra o ISIS que ocupa uma área nas montanhas do país.

E last but not least, lembro que os EUA têm uma experiência histórica negativa no uso de sanções e outras armas semelhantes da guerra econômica.

O Irã resiste às terríveis sanções de Trump (mantidas por Biden), e a pressões para, nas negociações do Acordo Nuclear, aceitar o desmonte do seu programa de mísseis balísticos e fim de suas ações de apoio a milícias no Líbano (que, aliás, participam do governo desse país) e no Iraque.

A Rússia cresce como ator de destaque nos dramas e comédias no cenário internacional, apesar de sancionada pelos EUA e União Europeia, desde o fim do governo Obama, devido à ocupação da Criméia.

Com o apoio da China e da Rússia, o governo autoritário e incompetente da Venezuela continua mandando, desmandando e dando uma banana para os EUA e o hostil Grupo de Lima.

Condenado pela Liga Árabe e amargando sanções americanas, o governo da Síria praticamente ganhou (com apoio militar russo) a guerra movida por oposicionistas e milicianos, fartamente apoiados pela Arábia Saudita, Turquia e EUA.

É difícil e mesmo perigoso enfrentar todos estes grupos anti-Irã, que têm poder para bloquear no Congresso iniciativas importantes do programa de Joe Biden, de grande interesse do povo americano.

Por enquanto Biden tem cedido a eles, esquecendo que isso implica em perdas sérias para os EUA.

De fato, as posturas agressivas do governo americano no Afeganistão contribuem e muito para piorar a imagem externa dos EUA.

Por outro lado, caso Biden liderasse o mundo para a reconstrução do Afeganistão, ganharia preciosos pontos na comunidade internacional. E estatura para liderar o mundo democrático, posição até hoje apenas autoproclamada.

O furor em atacar o Afeganistão com sanções e bloqueios devastadores mostra a exatidão do antigo provérbio, originado da Bíblia: “Errar é humano, persistir no erro é burrice”.

Eu diria que “fraqueza” é mais correto, embora isso não absolva o governo Biden. “O inferno está cheio de boas intenções”, lembra a Bíblia.

Neste inverno, com as estradas bloqueadas pela neve, impedindo o transporte de comida, excessivamente escassa na mesa dos afegãos, e com o frio extremo e as nevascas, debilitando ainda mais milhões de organismos malnutridos, a crise alimentar deve atingir seu ápice. Não estranho se os talibãs, em desespero, reajam, lançando ações terroristas nos países do Ocidente.

Talvez aí, os EUA e seus aliados da OTAN se animem a fazer alguma coisa.
Só espero que não seja uma nova invasão.

“Os milhões de mulheres, de crianças e de homens na crise atual do Afeganistão são pessoas inocentes que foram condenadas a um inverno de desespero absoluto e morte potencial.” Mary-Ellen McGroarty, diretora para o Afeganistão do Programa Mundial de Alimentos.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça