Professores: nem heróis nem vilões, trabalhadores

Após mais de um mês, professores e alunos de Pernambuco relatam ...
“Não vejo possibilidade de continuar o ano letivo. Não tem como a gente voltar sem ter de retomar de onde paramos”, disse recentemente a um jornal a mãe de dois estudantes. Do outro lado da tela, confessa um professor: “está uma mistura de vida de youtuber mambembe com atendente de SAC, não sou formado para isso”. Por sua parte, alunos oscilam entre reconhecer que estamos todos “fazendo o que dá” e abandonar a escola. É esse o sentido da maioria dos relatos que circulam nas redes sociais. Eles refletem as condições a que pais, professores e estudantes estão submetidos. Será que não temos outras alternativas?

A amplitude da crise sanitária que vivemos impôs às instituições de ensino uma suspensão das atividades presenciais por prazo indeterminado, e que pode voltar a se repetir. Diante desse cenário, corremos o risco de ver “saídas emergenciais” tornarem-se “soluções” a longo prazo. É necessário e urgente discutir qual educação desejamos e podemos construir, levando em consideração as relevantes críticas de professores, pais e estudantes.

Apesar das diferentes realidades dos sistemas de ensino no país, a exaustão gerada pela sobrecarga de trabalho e as frustrações do fazer pedagógico têm sido o cotidiano dos trabalhadores da educação (em grande parte mulheres e mães, vale lembrar). Somam-se a isso a apreensão e as incertezas a respeito dos direitos trabalhistas. Sabemos que esses problemas são vivenciados por outros profissionais que, como nós, trabalham em regime de CLT ou como horistas: estamos juntos, na solidariedade e na luta.

Na rede privada, é grande o peso dado aos professores pelo “sucesso” do processo educativo em meio à pandemia, a fim de garantir o funcionamento das escolas a distância. Isso também se deve à pressão por redução de mensalidades que, por sua vez, é repassada a docentes em forma de ameaça (em alguns casos, não só de ameaças) de redução de salários e de demissões. O preço a se pagar pela manutenção das aulas? Sobrecarga de trabalho: 10, 12 horas diárias, incluindo finais de semana, para dar conta de gravações, edições, utilização de recursos digitais, provisão de toda a infraestrutura necessária, processos de avaliação nos quais, muitas vezes, nem alunos, nem educadores acreditam - mas que tomam muito tempo e energia de todos.

Além disso, há imposição de mudanças contratuais, disponibilidade integral para a escola, atendimento imediato de demandas, horas extras não remuneradas, correções mais trabalhosas de tarefas, antecipação de férias que inviabilizam o descanso para professores que trabalham em mais de uma instituição e até mesmo a exigência desnecessária de comparecimento aos locais de trabalho.

Na rede pública, não se criaram condições objetivas mínimas para viabilizar o EaD. Não se leva em consideração a falta de infraestrutura por parte dos alunos para acessar as plataformas, e professores são ameaçados de descontos caso não façam tudo o que lhes é demandado. O grande objetivo parece ser finalizar o ano letivo em 2020 a qualquer custo.

Crianças e adolescentes encontram-se diariamente prostrados diante de aparelhos eletrônicos durante longas horas, e soma-se a todos os medos inerentes à pandemia também a incerteza em relação à sua aprendizagem e a uma possível perda do ano letivo. Além do tempo demandado pelas aulas, são obrigados a realizar uma considerável quantidade de tarefas que exigem mais autonomia do que possuem. Pais e mães, submersos em grande estresse por terem que coordenar o processo de aprendizagem dos filhos, desdobram-se para aprender a lidar com tecnologias que não dominam ou não têm à sua disposição, enquanto cuidam das tarefas domésticas e de seus empregos. Especialmente as mulheres, maioria dos chefes de família do país, viram a sua dupla jornada tornar-se quádrupla.

Que educação vamos construir para nossos alunos? Os ônus dessa situação dificílima devem recair nos ombros dos estudantes? Dos já combalidos educadores? Aceitamos que a educação esteja restrita à exposição de grande quantidade de conteúdos e à demanda de tarefas que sirvam quase que exclusivamente para justificar legalmente o ano letivo ou apenas “ocupar” os estudantes? Alguém acredita que, retiradas do espaço de socialização que a escola representa, crianças e jovens aprenderão da mesma forma? É razoável que continuemos cumprindo nossas funções (e adquirindo novas!) em ritmo acelerado, sem muita reflexão, praticamente negando que há uma pandemia em curso, que nos obriga a repensar a lógica e as prioridades da realidade em que vivemos?

Nós, professores, nunca nos furtamos a assumir responsabilidades em momentos críticos. Desta vez não é diferente. Entendemos a complexidade do momento atual e o esforço que estamos fazendo é a prova disso.

Contudo, assim como os profissionais de saúde, não queremos ser heróis. Queremos condições adequadas de trabalho. Se um “novo normal” está diante de nós, queremos ser escutados; não seremos apenas executores. Temos muito a dizer e a aprender.

Coletivo de Professores Autoconvocados

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados