Correio da Cidadania

Garis do Rio de Janeiro: “o prefeito não governa para as pessoas, mas para as cúpulas”

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A cidade do Rio de Janeiro viveu dias de calamidade com as chuvas das últimas semanas. Pouco visíveis no noticiário tradicional, os garis mais uma vez se destacaram na salvaguarda da cidade e das pessoas. Em campanha salarial, a categoria ameaça com uma greve, ainda que sua direção sindical não fomente o processo. Soma-se o 1º de maio e o calendário de atos e greves que podem levar a uma paralisação geral no Brasil. É sobre isso que conversamos com Bruno da Rosa, uma das lideranças dos garis do Rio de Janeiro.

“Temos de ser muito valorizados, pois diante das últimas calamidades havia garis em todos os lugares. Ajudamos no funcionamento da cidade e salvamos vidas, sendo fundamentais nas últimas tempestades. Cumprimos nosso papel e não vamos aceitar desvalorização de trabalhadores que foram fundamentais para a cidade”, disse.

Além de detalhar as principais reivindicações da categoria e o andamento das negociações, Bruno mostra-se favorável ao impeachment de Marcello Crivella, mas considera necessário que o processo conte com a força das ruas. No mais, não faz diferenciações entre a atual e última gestão, além de destacar a necessidade de lutas de alcance nacional, em especial contra a Reforma da Previdência proposta pelo governo de Jair Bolsonaro.

“Nós garis enfrentamos a prefeitura, denunciamos a reforma da previdência, os metroviários de São Paulo preparam um calendário de luta, a educação nacional se prepara contra os ataques e cortes... É evidente que a classe trabalhadora está se unificando. Cabe aos sindicatos chamar a greve geral”, afirmou.

A entrevista completa com Bruno da Rosa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como foi a audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho entre os garis em greve e o poder público pouco antes do fim da greve dos garis?

Bruno da Rosa: A prefeitura apresentou duas propostas. Uma de 4% de reajuste no salário e ticket alimentação, auxílio-creche e outros benefícios. A outra era 4,7% de reajuste em: salário, auxílio-insalubridade, férias, 13º e aposentadoria.

Assim que acabou a reunião, o sindicato antecipou a assembleia já prevista das 17 horas para às 15 horas. Dissemos que não havia condição para encaminhar e votar a proposta, por ser uma assembleia esvaziada e pouco representativa. Ela foi feita mesmo assim e prevaleceu a segunda proposta aqui comentada.

A direção jogou forte contra a greve, não ajudou a fazer atividades de divulgação e convencimento e não ajudou na luta da categoria.

Correio da Cidadania: Como foi o processo de greve até aqui? Por quais razões a categoria novamente cruzou os braços?

Bruno da Rosa: A proposta votada em assembleia da categoria era de aumento de 10% no auxílio-insalubridade e aumento também para os auxiliares de serviços gerais e vigias, PCCS (Plano de Carreira, Cargos e Salários) imediato e 14º salário.

Entramos em greve porque o prefeito ofereceu 3,63%, insuficiente. Todas as categorias do município receberam de 6 a 12% de reajuste. E o prefeito fez essa proposta para uma categoria essencial ao funcionamento da cidade.

Correio da Cidadania: Como é a relação com a prefeitura?

Bruno da Rosa: A categoria segue lutando contra as gestões. Eduardo Paes enfrentou dois anos de greve, pois queria arrebentar nossa classe. Conseguimos avanços importantes e novamente nos colocamos em luta, pois a prefeitura de Crivella tem o mesmo objetivo: tirar dos trabalhadores e garantir lucros dos empresários.

Correio da Cidadania: Há solidariedade da sociedade e da classe política?

Bruno da Rosa: Bastante. Primeiro porque temos contato direto com a população. Ela vê que a Comlurb funciona, que os garis dão a vida pela limpeza da cidade. Tivemos não só apoio das pessoas como várias demonstrações de solidariedade de sindicatos e centrais, também fortalecendo nosso conjunto. Isso deixou claro para todos nós que não estávamos sozinhos.

Temos de ser muito valorizados, pois diante das últimas calamidades havia garis em todos os lugares. Ajudamos no funcionamento da cidade e salvamos vidas, sendo fundamentais nas últimas tempestades. Cumprimos nosso papel e não vamos aceitar desvalorização de trabalhadores que foram fundamentais para a cidade.

Correio da Cidadania: O que pensa da atual gestão da prefeitura?

Bruno da Rosa: Está claro o que ela representa, pois aplica uma série de ataques. Por isso fizemos campanhas salariais e também por condições de trabalho. Além da limpeza, ela corta da saúde e da educação. De fato, querem arrebentar com o conjunto dos trabalhadores. Por isso é muito importante a mobilização e a unidade das categorias para fortalecer a luta e derrotar qualquer ataque contra nós.

Em nível de governo federal, precisamos derrotar a Reforma da Previdência apresentada pelo governo Bolsonaro. Ela terá um impacto muito significativo, vamos mesmo trabalhar até morrer. E os principais instrumentos de luta dos trabalhadores são mobilização e greve. Assim, é urgente as centrais chamarem um calendário de lutas e greves. Precisamos derrotar nas ruas a proposta do governo federal.

Correio da Cidadania: Considerando que vocês também fizeram fortes paralisações na gestão anterior, é possível falar em grandes diferenças entre a prefeitura de Crivella e a de Paes?

Bruno da Rosa: Crivella e Paes seguem um mesmo modelo de cidade, que não garante uma melhor condição de vida para a população, pelo contrário. As últimas gestões, de ambos, foram desastrosas. Eles são parte de um projeto dos partidos da ordem: atacar a população, suas liberdades, os direitos dos trabalhadores.

Por isso a luta deve seguir, contra os governos e principalmente parlamentares que se colocam a favor da Reforma da Previdência.

Correio da Cidadania: O que falar do Rio de Janeiro, de um modo mais geral, neste momento? Você é a favor do impeachment de Marcelo Crivella?

Bruno da Rosa: O Crivella tem o maior índice de rejeição já visto. Está claro que ele, ao dizer que cuidaria das pessoas, mentiu. E a população enfrenta cotidianamente a queda de sua condição de vida. Não tem médicos em postos, os professores não têm condições de dar aula dignamente, 1500 trabalhadores das clínicas da família foram demitidos...

O prefeito não governa para a cidade, para as pessoas. Governa para cúpulas, para banqueiros. Por isso sou a favor de seu impeachment. Mas ele precisa ser derrotado também nas ruas. A pressão do parlamento é importante, mas é na rua que podemos definir as lutas dos trabalhadores.

Correio da Cidadania: E o momento brasileiro, como vê? Acredita que este 1º de maio e o chamado de greve para junho por parte das centrais sindicais possam dar algum impulso às lutas do mundo do trabalho?

Bruno da Rosa: É bom ter um calendário concreto. Assim, temos de jogar todo o peso pra fortalecê-lo, exigir das centrais sindicais que convoquem a greve geral e ajudem a mobilizar suas bases. Isso significa estar nos locais de trabalho e dialogar com trabalhadores e a população para fortalecer a luta, porque o instrumento para derrotar a Reforma da Previdência é a greve geral, a fim de colocar o governo Bolsonaro em xeque.

Apesar de parte da esquerda acreditar que seria um governo forte e arrebentaria o conjunto da classe trabalhadora, vemos muitas debilidades. Todas as pautas que o governo colocou em votação mostram suas fraquezas e sua crise, pois se elegeu falando uma coisa e na prática é outra completamente diferente.

Achamos possível derrotar o governo e sua Reforma da Previdência. Mas é necessária muita mobilização e as centrais têm de apontar o caminho aos trabalhadores. É o elemento fundamental: sair das palavras e apresentar concretamente a saída para a classe trabalhadora.

Nós garis enfrentamos a prefeitura, denunciamos a Reforma da Previdência, os metroviários de São Paulo preparam um calendário de luta, a educação nacional se prepara contra os ataques e cortes... É evidente que a classe trabalhadora está se unificando. Cabe aos sindicatos chamar a greve geral.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.