Correio da Cidadania

Quarentena sabotada: nada poderia ser diferente

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Foto: Rivaldo Gomes, FolhaPress

A troca de ministro da Saúde no exato momento em que cresce a curva de casos de contaminação pelo Coronavírus precisa ser interpretada da maneira mais drástica possível: o presidente da República Federativa do Brasil deliberadamente trabalha pela morte de um grande número de pessoas. E ao bater de frente com Doria e Witzel nos dias que antecederam a saída de Mandetta mostrou-se um feroz praticante da “velha politicagem” contra a qual se apresentou em sua campanha eleitoral repleta de ilegalidades.

É preciso insistir, pois aqueles que ainda monopolizam a mídia de massa e sua possibilidade de formar consensos - por variadas razões, a maior delas o acordo sobre o projeto econômico do atual governo - se recusam a tratar Bolsonaro como o ser humano que é: corrupto, desonesto, ideologicamente totalitário, extremamente racista. Portanto, um candidato a genocida que precisa ser parado.

Um homem que tem na morte o seu impulso vital, como definiu o filósofo Vladimir Safatle em seu artigo “Estado suicidário”, inspirado no intelectual francês Paul Virilio, e encontra na horda de frustrados e excluídos que forma este acidentado país sua base impermeável a qualquer dado da realidade e informação científica.

“O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de uma pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim”.

Outro aspecto que antecipa a derrota brasileira na cafona denominação “guerra ao vírus” é a herança educacional e intelectual que o atual presidente capitaliza com toda a perversidade que a ditadura militar exigida pelos liberais de meio século atrás lhe inculcou.

Que Bolsonaro espalha desinformação de forma criminosa todos sabem. Mas se fôssemos uma sociedade menos analfabeta seus delírios não colariam (é certo que tampouco seria eleito, o que talvez expresse que agora vivemos um filme já rodado no qual somos apenas personagens coadjuvantes tentando, em vão, mudar o desfecho. Mas enquanto a cena final não apresenta pilhas de cadáveres e fossas comuns, tentamos).

O jogo sujo do presidente é incessante: enquanto vende a ideia de que o país não pode parar, promove políticas econômicas deploráveis desde o primeiro dia de mandato. Aliás, sempre vale lembrar que sua primeira medida foi extinguir o Ministério do Trabalho.

Enquanto enrola ao lado do não menos fascista Paulo Guedes na execução da renda mínima de 600 reais por mês, cria as condições para as pessoas furarem o isolamento. Ao mesmo tempo em que inventa uma cura mágica através de um remédio que toda a comunidade científica diz não ser garantia de nada, emite Medidas Provisórias que reforçam a precarização do trabalho sob a justificativa da pandemia. Enquanto instiga seus apoiadores a fazerem carreatas pela retomada da normalidade, trata de fazer ataques a governadores estaduais que tentam implantar a quarentena, já armando o discurso para a inevitável catástrofe econômica.

Trata-se de um jogo duplo de quem age como arruaceiro opositor o tempo todo, jamais um chefe de Estado preocupado com o bem estar de sua população. E tal jogo duplo fornece munição para o discurso vitimista antissistêmico com o qual se elegeu. Em todos os cenários, Bolsonaro poderá se sair como alvo de uma classe política viciada que nunca o deixou trabalhar. Isso apesar de contar com todos os generais, exército, enorme parcela dos policiais a seu lado. Pra não falar do braço armado ilegal com o qual se relaciona desde sempre.

Wishful thinking liberal

Falando em generais, nos deparamos com a pequenez dos falsos críticos do presidente quando lembramos que dias atrás circulavam matérias e furos dando conta de que Bolsonaro já se tornara uma rainha da Inglaterra, uma vez que os adultos na sala, em suas vestes verde-oliva, estariam discreta e responsavelmente tomando a frente. Fosse minimamente verdadeiro, Mandetta seria ministro intocável e com plenos poderes. Ou, admitamos, as eminências fardadas do governo são da exata qualidade do chefe.

De resto, o jornalismo com alcance de massa alterna entre a apatia e a indiferença ao analisar as atitudes presidenciais e suas prováveis consequências. Se de um lado vai bem ao informar dados oficiais e fornecer debates científicos sobre o vírus, de outro lado é frouxo ao não associar diuturnamente a figura do presidente com o que mencionamos acima: “corrupto, desonesto, ideologicamente totalitário, extremamente racista. Portanto, um candidato a genocida que precisa ser parado”.

Isso porque falamos de um jornalismo dominado por reacionários, assessores do interesse privado, carreiristas preocupados em garantir a cadeira de destaque sem desagradar os proprietários das grandes emissoras, rádios, jornais e revistas, todos, sem nenhuma exceção, amigados com o velho regime militar que consagrou Carlos Alberto Brilhante Ustra no imaginário do capitão do naufrágio social mais espetacular que veremos.

Não deixa de ser conveniente lembrarmos a campanha que tal jornalismo empreendeu contra uma Comissão da Verdade que em sua origem propunha Justiça e Reparação, conforme os melhores processos de julgamento de ditaduras que o mundo moderno já enfrentou. Ao militarem tão enfaticamente pela impunidade de Brilhante Ustra e canalhas assemelhados, tais comunicadores não podem ser separados da figura presidencial em termos de valor humano, ético e moral.

Em resumo: não há nenhuma crítica ao presidente à altura da atual necessidade. O tom que vemos hoje nos principais noticiários não chega aos pés do denuncismo diuturno e ataques coléricos de diversos comentaristas nos tempos de governos petistas. O ódio ideológico do nosso jornalismo empresarial não se canaliza na direção do fascismo, simples assim.

Dessa forma, o projeto de “destruir muita coisa antes de construir” segue a ganhar terreno. Com um já conhecido esquema ilegal de desinformação – e como faz falta que a mídia de massa bata nesta tecla todo dia, a fim de reforçar a imagem de corrupção no atual presidente, como fazia até outro dia em relação a tudo que cheirasse PT, com ou sem razão – Bolsonaro é bem sucedido em confundir a população e sabotar a quarentena.

Ao fazer isso, abusa da necessidade material de um povo que não é contemplado por nenhuma política econômica do seu governo (informação devidamente sonegada por essa mesma mídia e sua ideologia “mercado acima de tudo”), aumenta a pressão sobre os trabalhadores, cada dia mais assediados por chefias despóticas que apoiam o presidente fanaticamente, e garante uma grande quantidade de mortes para o futuro próximo.

Nada mal para uma necropolítica que agora assume abertamente o descarte de corpos não rentáveis, desde os velhos até os mais marginalizados, que podem ir para qualquer vala comum caso pereçam pelo vírus, pois o exército de reserva se encontra em momento de grande robustez.

Ainda de acordo com Safatle: “é claro que tal Estado (o brasileiro) se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego. Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada a toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significam 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em ‘garantir empregos’, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?”

Convenhamos: a passagem acima expressa muito mais o capitalismo brasileiro, sua burguesia e ideólogos do que a figura individual do farsante que ocupa o principal cargo do país. Até porque só ocupa justamente com a permissão e financiamento deste capitalismo e de instituições patéticas, como o TSE.

Oportunidade

Como acaba de afirmar João Paulo Lehmann, crise é oportunidade e estamos diante de um momento muito excitante. Que ninguém perca tempo imaginando que os novos dispositivos de regulamentação do trabalho – ou abertura de terreno para sua supressão prática – sairão de cena assim que a pandemia for superada. Mesmo porque talvez não o seja em prazo visível e é provável que haverá um mundo a ser reinventado.

Não à toa, enquanto as pessoas vivem sob o fio da navalha da miséria econômica e resguardo de si mesmas e seus familiares, o governo e o Congresso celebram a aprovação da MP 927, a introdução da carteira de trabalho verde e amarela e a liberação pelo STF da “livre negociação” entre patrão e empregado. E mais uma vez precisamos destacar a má fé com a qual os picaretas da mídia monopólica tratam do tema e fingem não haver total submissão dos empregados à vontade patronal. Cristina Lobo, ao analisar na GloboNews o único voto contrário, de Ricardo Lewandowsky, ressaltou a ligação deste ministro com o sindicalismo. Mas se absteve de mencionar ligações e afinidades dos ministros que votaram em favor dessa medida claramente neoescravocrata. Poderia, por exemplo, mencionar que a ministra Rosa Weber é ré em ação movida por ex-empregada doméstica.

Por fim, o mundo que ainda opera de acordo com o raciocínio lógico absorve a ideia de que a China sairá maior do que entrou na pandemia. Aproveitará as condições do vírus para estabelecer novos padrões de produção e circulação, mais especialmente através da aceleração da implantação do 5G, para o qual já se projetava à frente de todos.

Por aqui, a ideia é apenas espoliar um pouco mais, assaltar o território, escravizar e assassinar o próprio povo. Outro dos delinquentes que brinca de governo acabou de demitir diretor do Ibama que comandou operação contra garimpo ilegal. Trata-se da contribuição à “nova era” do Partido Novo e sua “moderna” visão de gestão e empreendedorismo. Pouco ou nenhum ruído nos monopólios que passam praticamente 24 horas ao vivo em suas incansáveis mesas redondas e lives, destaque-se novamente.

Aliás, que permita o leitor mais uma remissão: no histórico Dia do Fogo orquestrado pelo bolsonarismo os 15 ou 20 minutos de “cobertura especial” do Jornal Nacional não mencionaram o ministro do Meio Ambiente uma vez sequer. A prioridade foi tirar do armário – e do contexto – velhas declarações de Lula sobre o interesse estrangeiro na floresta amazônica e compará-las com as mentiras premeditadas de Bolsonaro. De resto, seus sábios especialistas ignoram que o presidente age de forma inaceitável ao não mostrar seus exames sobre a possível contaminação pelo Covid-19 e que seu argumento sobre direito ao sigilo é desprezível.

Um dos aspectos mais dramáticos do momento é ver a extrema-direita capitalizando o discurso contrário ao sistema e à manipulação de uma mídia moldada à imagem e semelhança da ditadura militar, que no fim das contas defende todas as macropolíticas desta extrema-direita. Tudo se resume a uma guerra de facções conservadoras – a velha e a nova – pela liderança do país e o controle da chave do cofre. O bolsonarismo representa apenas uma geração de arrivistas e aventureiros que sonha em ser a próxima elite política e econômica.

No entanto, uma população desprovida de discernimento crítico e ético não será capaz de fazer observação tão óbvia no curto prazo.

Mandetta

A entrevista de despedida do político conservador e privatista que deixa o ministério foi lapidar: agradeceu pela oportunidade, cumprimentou tranquilamente seus algozes, até elogiou os parasitários filhotes do candidato a Mussolini de colônia. Deixa claro que sempre esteve à altura do governo de banditismo e destruição geral do qual fez parte por quase 16 meses.

Afinal, enquanto não teve de lidar com um vírus que balança um governo que insiste em se comportar como oposição, permitiu o fim do bem sucedido Mais Médicos pelo mero ódio ideológico de seu chefe, liberava a privatização da saúde, diminuía o número dos agora valiosíssimos leitos de UTI, enfim, fazia sua parte no projeto “destruir muita coisa antes de construir”.

Na hora da pandemia, foi apenas um médico que seguiu as recomendações da OMS e da comunidade médica. Tentou, e não conseguiu, executar políticas mínimas de controle do vírus e mesmo assim sai de cena elogiando seus sabotadores. Ao contrário do que delirou Fernando Haddad em rede social, não deixa um “legado de respeito pela vida, pela saúde, pela ciência”.

Mas claro que sob Bolsonaro tudo que é ruim sempre deve piorar. Seu sucessor Nelson Teich já anunciou que é preciso manter o isolamento horizontal defendido pela maior parte do país, mas sem parar tudo, conforme desejam as hordas sociopáticas que fazem atos de rua com caixões e faixas escrito “foda-se”. Ou seja, entra em cena afinado com o jogo-duplo do chefe sabotador.

A curva de avanço do coronavírus no Brasil segue as previsões mais rigorosas, o número de mortes após este final de semana será superior a 2500 (sem esquecer que se trata do país com menor índice de testagem entre os 30 mais infectados) e é com esta mídia “crítica” e oposição que o projeto de morte segue em frente, com enormes perspectivas de sucesso.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.