“A troca de chanceler manterá a política desastrosa nas Relações Exteriores”

Demissão de Ernesto Araújo deve reforçar: problema maior é Bolsonaro
Seguida da renúncia dos comandantes das três forças armadas, a saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores confirmou o transbordamento da crise pela qual passa o Brasil, a nação mais incompetente do mundo na gestão da pandemia do novo coronavírus. Desmoralizado internacionalmente, o país que não consegue vacinar seu povo vê Bolsonaro contra as cordas após a crise com os militares enquanto Carlos França assume a chancelaria. Sobre o mandato de Araújo e as perspectivas com o novo ministro, entrevistamos Pio Penna, diretor do Instituto de Relações Exteriores da Universidade de Brasília.

“O novo chanceler, escolhido a dedo por Jair Bolsonaro e seu círculo próximo, em especial Eduardo Bolsonaro e o próprio Ernesto Araújo, é um nome com pouca ou nenhuma expressão no Itamaraty e na comunidade internacional. Nunca ocupou embaixada ou cargo de destaque ou chefia. É questão de tempo revelar a que veio, porque tem alinhamento ideológico total e absoluto, se subordina ao pensamento do presidente da República, sua família e a chamada ala ideológica”, criticou.

Sobre o mandato de Araújo, é enfático em salientar seu caráter bizarro e completamente irrealista, uma vergonha histórica para a instituição. Colocou o Brasil à margem da cultura política contemporânea e jogou no lixo uma posição global construída ao longo de muito tempo.

“ Um completo desastre, um vexame internacional. Fomos colocados na situação de pária (...) Araújo sempre teve uma postura contrária aos interesses nacionais, que dentro do Itamaraty causou enormes constrangimentos e insatisfação na ampla maioria dos funcionários da instituição. Uma parte ínfima e estatisticamente irrelevante, infinitesimal, o apoia”, analisou.

A entrevista completa com Pio Penna pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como você recebeu o pedido de demissão de Ernesto Araújo, renunciando ao cargo que ocupou por dois anos e três meses?

Pio Penna: Demorou! Já vai tarde!

Correio da Cidadania: Horas depois, o ministro da defesa, Fernando Azevedo e Silva, se demitiu, seguido dos comandantes da Marinha e Aeronáutica, deflagrando uma enorme crise no governo. O que isso pode estar significando nos dias e horas que correm?

Pio Penna: É muito precoce ver relação entre as duas coisas. Parecem dois processos distintos, ainda que dentro de um mesmo contexto.

A saída de Araújo que foi uma surpresa. Este, sim, saiu a partir de uma pressão externa ao governo, tanto de senadores como todo o entorno político que ronda o Brasil.

Sobre os militares, acredito que já tivessem acertado sua saída antes, porque não são de tomar atitudes de última hora.

Correio da Cidadania: O que pensa da nomeação de Carlos França? É possível esperar uma mudança relevante de perfil na chancelaria?

Pio Penna: O novo chanceler, escolhido a dedo por Jair Bolsonaro e seu círculo próximo, em especial Eduardo Bolsonaro e o próprio Ernesto Araújo, é um nome com pouca ou nenhuma expressão no Itamaraty e na comunidade internacional. Nunca ocupou embaixada ou cargo de destaque ou de chefia.

Foi escolhido justamente para cumprir o papel que Ernesto já vinha cumprindo, sendo um nome ainda mais apagado. Não é um nome contestado, mas é questão de tempo revelar a que veio, porque tem alinhamento ideológico total e absoluto, se subordina ao pensamento do presidente da República, sua família e a chamada “ala ideológica”.

Não muda nada. A política externa continuará o mesmo desastre da anterior. A diferença é que se trata de um nome novo, mas o desgaste é questão de tempo, porque ele não tem forças e nem vontade de mudar a posição do Brasil, tanto em relação aos EUA como à China. Deve mudar só o tom, por não ser burro.

Em termos gerais seguiremos sob os preceitos da chamada ala ideológica do governo, o que é um desastre e continuará sendo. Pensar em política externa autônoma para o Brasil é pensar no governo pós-Bolsonaro. É bobagem e ilusão achar que algo concreto mudará.

Este governo troca seis por meia dúzia, a exemplo do Ministério da Saúde. É mais ou menos isso que acontecerá nas Relações Exteriores. Entra alguém completamente alinhado ao pensamento dominante neste governo. Se é que podemos chamar de pensamento.

E digo mais: pode até piorar. É difícil, mas pode, sim, piorar. Afinal, temos um ministro da Saúde que substitui o anterior, que teve uma política absolutamente fracassada, e declara: “entro para dar continuidade”. Podemos esperar o que? Devemos ter uma chancelaria do mesmo perfil de Araújo, talvez menos enfaticamente, porque este tinha uma relação muito próxima, com palavras e gestos, a Olavo de Carvalho e companhia, como fazia questão de mostrar.

Como sabe qualquer estudante de primeiro ano de relações internacionais, as relações entre Estados são permeadas por interesse. E o alinhamento ideológico com Trump e sua encerrada presidência foi completamente sem noção, motivo de piada no mundo inteiro.

Correio da Cidadania: Uma relação que teve de bajuladora tudo que teve de improdutiva.

Pio Penna: Nem improdutiva nem produtiva. Não é que a troca de Trump por Biden vá mudar tanta coisa, já que o Brasil virou um ator marginal nas relações internacionais. Já fomos protagonistas, mas esse tempo passou. Hoje recuperamos aquele velho status de “país de terceiro mundo”, ou nos termos atuais, um país do “sul global” sem nenhuma influência.

Assim, é óbvio que Biden não perderia tempo com as maluquices que acontecem no Brasil. O grave é que tais maluquices estão transbordando as fronteiras, o que é sério sob vários aspectos. Estamos nos tornando uma preocupação para o mundo em termos ambientais, de saúde, de direitos humanos...

Estamos em profundo descompasso com o que há de mais moderno e contemporâneo das relações internacionais, um absurdo.

Correio da Cidadania: O fato de Ernesto ter pedido demissão, e não ter sido demitido, não tem um certo significado?

Pio Penna: Não acredito. Não penso que sairia por vontade própria, tampouco por vontade de Bolsonaro. A saída se deve a fatores externos, da semana passada pra cá especialmente, quando se acentuou um desgaste de longo tempo.

O fato de pedir demissão não quer dizer que ele tenha se antecipado. Penso que tenha buscado se resguardar. E certamente sabe que seria demitido a pedido ou a despeito da visão do governo Bolsonaro, considerando as pressões acerca da sua incompetência.

Correio da Cidadania: Qual o balanço de sua gestão? Que imagem deixa do Brasil diante do mundo?

Pio Penna: Um completo desastre, um vexame internacional. Fomos colocados na situação de pária, de um país esquisito, estranho, diferente, até chacota global. Só não é chacota porque nos tornamos um problema sanitário mundial, inclusive por conta das bravatas ditas por alguém que virou ministro, digamos, por acaso.

Foi uma gestão absurda. A política externa brasileira perdeu muito nestes pouco mais de dois anos que essa pessoa esteve à frente do Itamaraty. Foi uma coisa absurda, conversando com diplomatas percebíamos o constrangimento, que só o respeito pela hierarquia manteve em certo silêncio. Mas a diplomacia não sabia o que fazer, seus membros ficavam acanhados, constrangidos.

Correio da Cidadania: A desastrosa condução da campanha de vacinação também deve ser atribuída à atuação de Ernesto Araújo?

Pio Penna: Tem culpa, mas há um exagero. Tem uma culpa menor. Como dito, ele é apenas um executor de uma política que vem do Palácio do Planalto. Mesmo que tivéssemos uma política externa dinâmica, moderna, a demanda global pela vacina é muito grande e as ações da presidência determinaram nossa sorte de forma muito mais contundente.

Claro, tem parcela de culpa por conta da ideologização infantil e sem noção, ao criticar nossos principais parceiros internacionais.

Esse cara que até agora foi ministro das Relações Exteriores conseguiu criar uma “tempestade perfeita”, isto é, fabricou animosidades com os dois principais parceiros do Brasil: China e EUA. E mais: jogou no lixo importantes parcerias internacionais do âmbito dos BRICS. Agora a Índia, a Rússia e a China têm restrições ao Brasil... Sobrou a África do Sul.

Ele desprezou o esquema multilateral sul-sul e não colocou nada no lugar. Quer dizer, colocou Israel, que não tem absolutamente nada a oferecer a nós, uma relação na qual o interesse era apenas político.

Correio da Cidadania: Você falou em constrangimentos dentro do Itamaraty e no pessoal de carreira no âmbito diplomático. Como conhecedor da área, como pensa que sua figura era percebida dentro do Itamaraty, entre a diplomacia e aqueles que pretendem nela ingressá-la? O que episódios como o de seu discurso na formatura do Instituto Rio Branco em outubro de 2020 revelam nesse sentido?

Pio Penna: Primeiramente, é um diplomata sem presença histórica nenhuma. Foi nomeado embaixador sem nunca ter chefiado uma embaixada. Seu discurso sempre foi muito contraditório, muito truncado, ininteligível, que já mostrava traços de sua personalidade. Não era um diplomata influente no Itamaraty.

As novas gerações o veem com certa estupefação. Ficam assustadas com uma figura como essa sendo guinada por nada a ministro das Relações Exteriores, pois não havia nada que projetasse sua carreira. Seu discurso sempre foi muito confuso. Não tem nada de experiência diplomática pra mostrar, a prática desses últimos dois anos foi a pior possível, cheia de perseguições internas...

Enfim, Araújo sempre teve uma postura contrária aos interesses nacionais, que dentro do Itamaraty causou enormes constrangimentos e insatisfação na ampla maioria dos funcionários da instituição. Uma parte ínfima e estatisticamente irrelevante, infinitesimal, o apoia. Felizmente, houve uma reação, quase uma quebra da hierarquia, tamanho o nível de crítica interna, que culminou na carta assinada por mais de 300 diplomatas em protesto contra ele. É inédito na história brasileira, nunca se imaginou uma contestação tão ampla dentro do Itamaraty. Foram 300 insurgentes que tiveram a coragem de por a cara a tapa, porque na verdade o número é bem maior.

Correio da Cidadania: Diante de suas elucubrações filosóficas e ideológicas, a exemplo do que podemos ver em seu artigo “Por um reset conservador-liberal em 2021”, não estamos falando de uma versão contemporânea de um nazifascista?

Pio Penna: Não de forma pura e simples, mas vai nesse caminho. Ele pega um pensamento “antiglobalização” criado nos EUA, contrário a valores universais como democracia e direitos humanos... É uma reação à cultura contemporânea. De liberal essa gente não tem nada; de conservadora só um pouco.

Não dá pra falar que são verdadeiros liberais e conservadores. É um discurso tão fora da realidade que fica difícil encaixar num quadro teórico, em minha opinião. Digo que não tem conteúdo ideológico concreto, pois não há qualquer outro líder mundo afora que segue a toada. É uma falta de noção e referência total. Não atribuiria a este governo um conteúdo realmente ideológico. Eu diria que são mais anti-ideológicos, são contra todas as ideologias imagináveis. Querem voltar a algo como o século 18, é difícil entender, porque não encontra abrigo em nenhum grupo ideológico consistente.

A tentativa de se colar no supremacismo branco vai nessa linha. Não tem cabimento algum isso no Brasil, sequer são assimilados como brancos pelo movimento supremacista do norte do mundo. O Filipe Martins... Essa gente não tem noção de nada, não sei que mundo está vivendo. White power? Pelo amor de deus! Falar latim em referência ao senado romano? Fazer discurso de posse tentando, e não conseguindo, falar guarani? É tudo muito insano, de hospício, precisam dar um jeito de arrancar essa gente daí. É uma salada que no fim das contas não tem convergência. Deu em tudo isso.

Graças a deus, Ernesto Araújo saiu. Não espero grande coisa pela frente, nossa situação ficou muito complicada diante do mundo. O Brasil está saindo de uma situação que foi confortável no plano internacional para outra totalmente contrária. Vai demorar um tempo pra resgatarmos nosso prestígio internacional. Vivemos a prova de que basta um minuto, um governo, pra jogar tudo que foi construído em décadas na lata do lixo.


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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