“O retorno do conservadorismo no Equador nos mostrará como aprofundar as conquistas sociais sem perder a crítica”

Equador quebra recente onda de esquerda na América Latina: Guillermo Lasso  é o primeiro presidente liberal em 25 anos - Linha Direta
Festejado como um dos expoentes da chamada onda progressista, o Equador viveu a ressaca de sua chamada Revolução Cidadã nos quatro anos de um mandato de Lenin Moreno, sucessor de Rafael Correa, surpreendentemente alinhado aos dogmas neoliberais. Agora, se depara com a eleição a presidente do banqueiro Guillermo Lasso, em meio não só às crises econômicas e sanitárias, como também um processo de lutas sociais com forte protagonismo indígena. É sobre a conjuntura deste país que entrevistamos a socióloga Elaine Santos, que já esteve lá como pesquisadora.

“O debate acerca dos limites e entraves na articulação da política latino-americana é uma discussão feita há décadas entre influências endógenas e exógenas. Porém, nos últimos governos, para encobrir as tensões geopolíticas, se negligenciou a geopolítica (exogenismo) e atualmente o que percebemos é o descuramento do endógeno, ou seja, não teriam existido erros na condução dos governos progressistas que estiveram no poder. Todo o debate político gira em torno dos instrumentos jurídicos, da intervenção externa, do lawfare eleitoral e do poder dos meios de comunicação, tudo analisado separadamente sem qualquer relação entre si e com a história de cada país”, resumiu.

Como se vê, Elaine Santos é crítica do processo político capitaneado por Rafael Correa e não endossa a noção de que as derrotas eleitorais da esquerda sejam meras obras conspiratórias. Na entrevista, ela também explica o desgaste dos últimos anos do modelo de desenvolvimento e comenta a diversidade do movimento indígena do país, que nas eleições foi representado pela candidatura de Yaku Perez, mas vai muito além desta personalidade.

Dentre as lideranças, nunca houve uma posição comum e única (16), existem debates e tendências que pude observar quando estive no país. É importante ressaltar também que apesar da tendência puramente “etnicista” que notamos em muitos movimentos indígenas da América Latina, no Equador coexistem tendências étnicas e de classe. O movimento popular indígena equatoriano é uma referência indiscutível e tem como desafio administrar com sabedoria a mobilização nas ruas com um projeto de poder que especifique com mais detalhes sua agenda programática, para além da sua interposição como uma via entre o correísmo e a direita tradicional”.

A entrevista completa com Elaine Santos pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Como enxergou o processo eleitoral equatoriano, que terminou na vitória de Guillermo Lasso contra Andrés Arauz?

Elaine Santos: A vitória do banqueiro Guillermo Lasso marca a continuidade da direita. Com seus 17 milhões de habitantes, pouco mais de 13 milhões de votantes, o processo eleitoral no Equador foi bastante conturbado e nos ajuda a entender algumas tendências deste subcontinente, a começar pela quantidade de votos nulos contabilizados, que chegou a 16,3% no segundo turno (1) e acabou por ser decisivo para vitória de Guillermo Lasso.

No primeiro turno eram 16 candidatos e as sondagens davam ao candidato indígena Yaku Perez uma pequena vantagem em relação a Guillermo Lasso na segunda e terceira posição. Andrés Arauz Galarza pertencente ao Movimento UNES (Unión por la Esperanza), que abrange as organizações políticas do Movimento Revolução Cidadã e Centro Democrático, apadrinhado pelo Rafael Correa, permaneceu nas sondagens sempre em primeiro lugar. Na chapa eleitoral anunciada em 2020 seu vice seria Rafael Correa, porém o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) rejeitou sua candidatura baseando-se no não cumprimento dos trâmites legais e também no fato de Correa enfrentar vários processos judiciais.

Após o primeiro turno, e alegando inconsistências nas atas, Yaku Perez, derrotado (19,4%), convocou a população às ruas no dia 23 de fevereiro na chamada Marcha por la transparencia y la democracia, alegando uma suposta fraude, e pediu aos seus seguidores que votassem nulo no segundo turno. O voto nulo no Equador teve um forte peso antissistema, muitas lideranças e ativistas consideravam estar entre duas propostas de direita; uma baseada no extrativismo e outra no conservadorismo.

Correio da Cidadania: Quais fatores explicam a vitória da direita neoliberal?

Elaine Santos: A campanha política de Andrés Arauz Galarza (UNES) foi realizada em franca decomposição. Apadrinhado pelo ex-presidente Rafael Corrêa, em nenhum momento conseguiu se distanciar da imagem de corrupção ligada ao correísmo, fato que foi amplamente utilizado por seu adversário Guillermo Lasso, e também por Yaku Pérez no seu ferrenho anticorreísmo.

Arauz acabou por perder o segundo turno para Guillermo Lasso com 52,36 % dos votos e alguns fatores influenciaram a virada de jogo. Na reta final do segundo turno, muitas análises focaram no chamado Lawfare (2) contra a “Revolução Cidadã”.

A meu ver esta análise desconsidera todos os problemas da “Revolução Cidadã” e invalida todo o processo de politização dos equatorianos nas últimas décadas, já que nem tudo pode ser resumido a um golpe judicial. O debate acerca dos limites e entraves na articulação da política latino-americana é uma discussão feita há décadas entre influências endógenas e exógenas. Porém, nos últimos governos, para encobrir as tensões geopolíticas, se negligenciou a geopolítica (exogenismo) e atualmente o que percebemos é o descuramento do endógeno, ou seja, não teriam existido erros na condução destes governos que estiveram no poder. Todo o debate político gira em torno dos instrumentos jurídicos, da intervenção externa, do lawfare eleitoral e do poder dos meios de comunicação, tudo analisado separadamente sem qualquer relação entre si e com a história de cada país.

No Equador, apesar de alguns avanços da Revolução Cidadã, as mudanças estiveram sempre na superfície política. Com isso alguns elementos explosivos foram se acumulando, isto é, facilmente percebido se olharmos a quantidade de manifestações realizadas no país andino desde 2015.

O governo de Rafael Correa se alinhou abertamente aos interesses das transnacionais chinesas e canadenses, atropelando as normas constitucionais tão aclamadas durante sua eleição. As manifestações foram consequências de suas ações de forte repressão contra muitos ambientalistas e lideranças do movimento indígena. A certa altura tivemos cerca de 800 ativistas sociais e ambientais processados e perseguidos; alguns acabaram na prisão, acusados de sabotagem e terrorismo; Yaku Pérez foi um deles. Estes equívocos somados às acusações de corrupção colocaram Correa e todos os que formavam seu círculo apoiador como algozes.

Todo este histórico aqui resumido colocou Andrés Arauz em uma situação bastante complicada, evidenciada no primeiro turno (7 de fevereiro), quando as forças consideradas de “esquerda” (Unes, Pachakutik e Esquerda democrática (3)) obtiveram juntos 67% dos votos, o que mostrou não haver nenhuma unanimidade. No segundo turno nenhuma das forças consideradas de esquerda declararam apoio a Andrés Arauz; Yaku Pérez e a Confederação de Nacionalidades Indígenas (CONAIE) declararam e pediram voto nulo; Xavier Hervas declarou voto no conservador Guillermo Lasso.