Correio da Cidadania

“Não queremos morrer”. O 29M mostra que o Brasil ainda está vivo

 

No último sábado, 29, algumas centenas de milhares de brasileiros decidiram pôr um fim à inércia diante do genocídio protagonizado pelo bolsonarismo e saíram às ruas pelo direito de viver. As pautas eram inúmeras, como se pode imaginar em uma mobilização com milhares de protagonistas, mas, acima de tudo, manifestantes cobraram a emergência de se ter vacina no braço, comida no prato e, sobretudo, o impeachment do principal, porém não único, responsável pela escassez desses dois direitos constitucionais: o senhor Jair Messias Bolsonaro.

Diferente da motocada da morte, um espectro das Marchas sobre Roma, protagonizada pelo senhor Jair e seus vassalos uma semana antes, o 29M teve uma organização para evitar a propagação do Coronavírus. Coletivos, como a Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, produziram verdadeiros tutoriais de como se manifestar em segurança neste contexto de pandemia.

Pessoas foram orientadas a evitar, sempre que possível, o deslocamento por transportes públicos até a concentração dos atos, reforçou-se a necessidade de distanciamento e o não compartilhamento de alimentos durante o ato, bem como o uso de álcool em gel e máscaras N95 ou PFF2. Nas principais capitais, movimentos e indivíduos distribuíram esses EPIs àqueles desprotegidos ou que usavam somente máscaras de pano.


Manifestante na Avenida Paulista, em São Paulo, segura cartaz que simboliza o óbvio: é genocídio. Foto: Street Memories Gallery/Mídia Ninja

E o ato foi uma derrota popular para o governo. A primeira em cerca de um ano. Desde o último sábado, está marcado que as ruas do Brasil já não são um monopólio dos neofascistas do senhor Jair. As manifestações ocuparam as avenidas e alamedas das capitais e metrópoles, e até mesmo nas cidades médias, consideradas bunkers bolsonaristas, como Blumenau e Brusque, em Santa Catarina, e Cametá, no Pará, ouviu-se o grito de “Fora Bolsonaro”.

Tudo foi muito significativo, sobretudo porque a insegurança ainda foi capaz de prender muitos em casa. Ou seja, o que já foi grande deixou a impressão de que poderia ter sido muito maior.

Ainda não é possível saber como e principalmente por quem o 29M será politicamente utilizado. A CPI do Genocídio no Senado Federal surge como candidata a ser a primeira a capitalizar com as mobilizações. Porque se um dos objetivos do ato é devolver a pulsão de vida a quem há um ano guarda a própria ação e se alimenta do desespero com a (des)condução da pandemia, é também uma resposta à pulsão de morte que paira o Brasil.

Para os senadores que apuram as óbvias responsabilidades do senhor Jair e sua trupe no morticínio de quase 500 mil brasileiros pela Covid-19, o povo nas ruas tem o simbolismo de um grito dado pela maioria que andava silenciosa. Um grito de “NÃO QUEREMOS MORRER”, seja pelo efeito da Covid, nos braços da fome ou na linha de tiro.

Outro campo político pronto para ganhar com a pressão das ruas é o “Centrão” – nome inventado pela imprensa para disfarçar o fato de que a banda podre do Congresso é de DIREITA. A queda vertiginosa na popularidade do governo e as centenas de milhares de pessoas pedindo seu impeachment nas ruas colocam cifrões nos olhos da presidência da Câmara dos Deputados e reajusta a tabela do preço a ser pago para ter apoio e proteção. Em português claro: a faixa presidencial está alguns milhões – bilhões talvez – de reais mais cara desde sábado.

Independentemente das nuances citadas, o importante é se manter atento para este novo e considerável fato que brotou do chão das ruas e das lutas. Não é prudente desprezar este nascedouro. As trevas não são eternas. Como certa vez escreveu Buarque de Holanda, até a calma dos lagos se zanga, a rosa-dos-ventos se dana e o leito dos rios se farta a caminho da amargura do mar. Mesmo as multidões em pânico e atônitas um dia despertam.

Fagner Torres é jornalista e produtor do podcast Lado B do Rio, em cujo site este texto foi originalmente publicado.