O coronavírus e o meio ambiente

Garimpo ilegal dentro da Terra Indígena Munduruku, no Pará, em setembro de 2019
Garimpo ilegal em terra Munduruku; foto: Christian Braga, Greenpeace, setembro de 2019

Enquanto todos estamos, ou deveríamos estar, trancados em casa em quarentena para evitar a propagação do novo coronavírus, e tentando nos manter informados sobre a pandemia, a floresta Amazônica segue sendo devastada a todo vapor. De acordo com o sistema de monitoramento do INPE, foram desmatados 327 km2 de floresta na região em março deste ano, elevando o total desmatado no período de 12 meses para um absurdo total de 9.152 km2. Trata-se do valor mais alto dos últimos dez anos! Em 2020 já foram destruídos 796 km2 de florestas, o equivalente a 100 mil campos de futebol, 55% a mais que nos primeiros três meses do ano passado, que já havia sido terrível.

Aparentemente, este aumento se deve em boa parte a um aumento substancial em atividades madeireiras. Enquanto isso, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demitiu um analista do IBAMA contrário à exportação de madeira sem autorização do órgão ambiental. Em toda parte, comunidades indígenas pedem a remoção de garimpeiros invasores de suas terras, com medo da infecção pelo novo vírus mortal.

Enquanto novas invasões acontecem em toda parte, Ricardo Salles vai além: demitiu o diretor do Ibama Olivaldi Azevedo por ter cumprido a lei e comandado uma operação contra garimpos ilegais nas Terras Indígenas Apyterewa, Araweté e Trincheira-Bacajá, nas proximidades da cidade de Altamira, no Pará. Ou seja, o ministro do Meio Ambiente é o agente da devastação. O que não é novidade nenhuma, dado seu histórico nos episódios do óleo no Nordeste e das queimadas na Amazônia. E agora, quando todos os olhos da sociedade estão voltados para a pandemia, Salles age mais livre do que nunca.

A boa notícia é que tanto o enfrentamento contra o vírus que ataca o nosso sistema respiratório quanto contra aquele que destrói nossas florestas, pode ser feito simultaneamente, através da campanha pela remoção do presidente da República, de preferência junto com o seu vice, escolhido a dedo para ser tão ruim quanto ele.

Claro que nosso ignóbil presidente, apesar de ser um agente catalisador, tanto do vírus quanto da devastação, não é o gerador desses processos, nem nada seria resolvido automaticamente com sua remoção. Mas já seria um bom começo. Para ter uma visão mais ampla dos problemas, e entender como as crises ambiental e da saúde se conectam, é preciso dar um passo atrás e tentar ver tudo de uma perspectiva mais abrangente.

Enquanto alguns comparam a crise epidemiológica atual à Peste Negra, que matou milhões de pessoas na Idade Média, é importante destacar uma diferença fundamental. Hoje temos um quantidade enorme de informações detalhadas sobre essa pandemia específica e também seus aspectos mais gerais. Coronavírus é uma categoria ampla de vírus, comuns em várias espécies animais em várias partes do mundo, e que possuem este nome devido ao seu aspecto, que lembra uma coroa. Este vírus, assim como outros parasitas, vive em relativa harmonia com seus hospedeiros naturais e permanece restrito a uma espécie de hospedeiro. O problema começa quando algum vírus consegue romper essa barreira e passar para outra espécie, frequentemente causando sérios prejuízos à saúde do novo hospedeiro.

Uma das hipóteses para essa passagem é que ela tenha acontecido no final do ano passado em um dos chamados “mercados úmidos” em Wuhan, na China, onde animais silvestres são mantidos vivos e abatidos, misturados a animais domésticos em condições precárias de higiene. Sem dúvida estes mercados são uma aberração e precisam ser fechados. Pelo bem da humanidade e da vida selvagem, não só os hábitos alimentares, mas também alguns aspectos da medicina tradicional chinesa precisam ser revistos, eliminando o uso de espécies silvestres.

Antes que se comece a apontar os dedos para os chineses de forma racista, é bom que fique claro que a próxima epidemia pode muito bem sair daqui. Muita gente no Brasil, por exemplo, se infecta todos os anos com lepra consumindo carne de tatu. Com a exceção de populações tradicionais que, ao se alimentarem de carne de caça, também contribuem para a preservação da biodiversidade pela conservação da natureza nos seus territórios, e/ou que a consomem em uma taxa baixa, para sua subsistência, todo consumo de caça deve ser banido.

Aliás, não apenas isso, mas também deve ser profundamente repensada nossa relação com o grupo de animais domesticados que nos provêm uma enorme variedade de alimentos, sobre os quais por vezes impomos uma dose de sofrimento inaceitável e que também são a fonte de várias das epidemias que nos atormentam recorrentemente, como a doença da vaca louca, a gripe suína e as gripes aviárias. Para não falar das enormes áreas necessárias para a criação de gado bovino que tem um custo ambiental gigantesco, especialmente no Brasil, na forma de desmatamentos, degradação e compactação do solo na região Amazônica.

Os impactos da humanidade sobre o meio ambiente, alterando a composição da atmosfera e mudando o clima do planeta, destruindo e alterando profundamente seus ecossistemas, superexplorando espécies animais e vegetais, movendo espécies invasoras globalmente, poluindo a terra, a água e o ar, são imensos. Estas alterações já são, e tendem a ser cada vez mais, fonte de enorme sofrimento humano.

Ou seja, nós mesmos sofremos com o resultado de nossas ações cada vez mais desastradas e inconsequentes. Entretanto, não podemos ceder à tentação de crer em analogias biologicamente indefensáveis que comparam o planeta a um super-organismo, como a chamada hipótese de Gaia, tão citada nesses dias em função da pandemia, e defendem que ele estaria “reagindo” por meio do novo coronavírus.

Em poucas palavras, o planeta não tem nem de longe o mesmo nível de “integração fisiológica” de um organismo, nem a mesma necessidade de equilíbrio homeostático. Em vários episódios ao longo de história da vida na Terra, mais de 50% de suas espécies foram destruídas e o planeta sempre seguiu se recuperando indiferente à sobrevivência de seus componentes biológicos. A ideia de que “nós somos o vírus do planeta e o coronavírus é seu sistema imunológico” não se sustenta. Enquanto os organismos são reativos, através do seu sistema imunológico, o planeta é fundamentalmente indiferente a nós.

Aliás, doenças tão mortais quanto esta, ou ainda mais, devem ter surgido inúmeras vezes na história da humanidade enquanto nosso impacto sobre a superfície da Terra não era maior que aquele causado por qualquer outra espécie de grande vertebrado. A diferença é que o grau de contato entre os grupos humanos era tão baixo que os novos agentes mortais quase sempre se extinguiram junto com infeliz grupo dos primeiros indivíduos infectados, ou seus bandos vizinhos. Hoje não. Mal a doença foi detectada, no final do ano passado, já ficou claro que seria praticamente impossível deter sua propagação por todas as grandes regiões do globo, dado o nível de integração e interdependência em que vivemos.

A deflagração da pandemia criou alguns fenômenos interessantes. Destaca-se a notável diminuição nos níveis de emissão de carbono na atmosfera. Por mais traumática que seja a situação atual, fica claro que essa diminuição é possível. Também observa-se animais selvagens circulando nos arredores ou mesmo dentro de centros urbanos em toda parte ao redor do mundo, em áreas por onde não passavam com medo das pessoas que agora estão reclusas em suas casas.

Espera-se que a economia global entre em recessão e ao final desse processo tenhamos muitos milhões de novos desempregados em todo o planeta, o que é assustador, evidentemente. Mas também não deixa de ser uma oportunidade para repensarmos a economia, que em sua forma atual, se funciona, envenena o planeta e assim nos mata, e se para, também nos mata de fome (sendo que mesmo com a economia bombando uma porcentagem enorme de seres humanos morre de fome sistematicamente ou passa sérias necessidades por conta dessa economia que funciona só para alguns). Se todo o planeta está junto nessa doença, e vai sofrer junto, cada vez mais, os efeitos da degradação ambiental e das mudanças climáticas, também temos a oportunidade de planejar juntos uma saída mais fraterna, mais equilibrada, com mais igualdade social, com menos consumo, mais cultura, mais ciência, mais humildade diante do mundo natural e respeito ao meio ambiente. Está claro que as opções neoliberais são incapazes de dar conta desses objetivos, que dependem do Estado e de organismos internacionais “globalistas”, como dizem seus detratores. A esperança é que saiamos dessa quarentena com forças para lutar por um mundo mais justo.

Lendo esse parágrafo anterior, boa parte da população brasileira desqualificaria todas as ideias desse texto como sendo coisas de “comunista”, e a mim mesmo como um ser humano desprezível. Como é possível que ideias tão sensatas possam despertar reações tão negativas? É incrível o nível de polarização a que nosso país chegou. Enquanto não há vacina nem tratamento contra o novo coronavírus, a única atitude possível para evitar o colapso do sistema de saúde do país é o chamado “distanciamento social”, que exige que a maior parte das pessoas do país fiquem isoladas em suas casas. Mesmo tratando-se de uma recomendação da Organização Mundial de Saúde, adotada por quase todos os países do planeta, o presidente do Brasil e boa parte dos seus apoiadores fazem pouco caso da epidemia e sugerem que essa estratégia de quarentena seria um plano maquiavélico de dominação comunista ou estratégia para remover Jair Bolsonaro do poder.

Apesar dos milhares de mortos vítimas dessa pandemia em nosso país, cerca de 30% da população ainda apoia o presidente e sua política de priorizar a manutenção das atividades econômicas em detrimento dos cuidados para se evitar as contaminações. Se essa considerável fatia da população não leva a sério essa ameaça que cresce exponencialmente podendo levar o país ao caos nas próximas semanas, como querer que entendam a gravidade de ameaças bem menos palpáveis, mas igualmente reais e potencialmente muito mais graves, como o aquecimento global e a crise de perda global de biodiversidade? Como querer que se levantem para defender os oceanos ou a floresta Amazônica? É muito difícil ter algum otimismo. Por outro lado, uma parcela ainda maior da população compreendeu a gravidade da pandemia.

Portanto, talvez também possa compreender a questão mais ampla e menos imediata. É nisso que precisamos apostar.

Rodolfo Salm

PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará.

Rodolfo Salm

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