Greve de massas na Colômbia: “é uma grande luta continental de viés econômico e político”

Dois anos depois da grande greve de 2019, o povo colombiano novamente se levantou contra as propostas neoliberais do presidente Ivan Duque. Tendo a cidade de Cali como epicentro, os protestos se tornaram nacionalmente massivos e até obrigaram o país a abdicar da Copa América de futebol que deveria sediar. A grande diversidade dos grupos que participam e são mortalmente reprimidos pelo governo é um dos pontos centrais de sua força. Para descrever tal quadro, o Correio entrevistou Hector Mondragon, assessor de movimentos indígenas e camponeses do país e professor universitário radicado no Brasil.

“A participação massiva dos jovens e das mulheres tem sido a nota dominante. É assim desde 2016 com as mobilizações pelos acordos de paz, mas se incrementou na greve de 2019. Em 9 de setembro de 2020 aconteceu em Bogotá um levantamento em todas as favelas contra a violência policial; 13 jovens foram mortos e 72 feridos a bala. A partir daí a composição social dos protestos mudou, acrescentando-se e dominando os setores mais pobres. Na raiz desta radicalização juvenil, está o fato de que o nível de pobreza monetária dos menores de 25 anos é 43% em nível nacional e 50,6% nos centros povoados, e a taxa de desemprego dos jovens é de 29%”, explicou.

Em toda a entrevista, Hector Mondragón, autor dos livros "Los ciclos económicos en el capitalismo"; "La estrategia do império" e desarrollo y equidad con campesinos" , coloca a questão econômica como impulsionadora da revolta social, em conexão não apenas com países vizinhos como também levantes populares recentemente vistos em Haiti, Indonésia, Myanmar, Estados Unidos e Nigéria.

“No fundo é a mesma crise total do neoliberalismo no meio de uma nova crise cíclica capitalista. Não só as mobilizações gigantes no Chile, mas também em 2019 as mobilizações no Haiti, a greve de outubro no Equador, e a valente luta dos indígenas, camponeses e operários da Bolívia contra o golpe de estado policial fascista, antecederam e impulsionaram a dimensão da greve na Colômbia”.

Protestas en Colombia: Las protestas contra el Gobierno colombiano dejan al  menos 24 muertos | Público
Correio da Cidadania: Em 2019 uma reforma tributária apresentada pelo mesmo presidente Ivan Duque também havia sido o motivo do estopim que o sindicalista Carlos Arturo Garcia Marulanda, entrevistado por este Correio, qualificou como “a ação unificada de massas mais importante da história política da Colômbia”. Por que, dois anos depois, o presidente do país voltou a fazer uma proposta tão semelhante? Além disso, estava na mesa todo um pacote de desonerações aos empresários e reforma trabalhista com viés precarizante. Isso mudou algo de lá pra cá?

Hector Mondragon: São propostas diferentes, mas complementares. A lei de 2019 se centrava em diminuir os impostos aos mais ricos e criar isenções em favor dos investidores transnacionais. Isso produziu um buraco fiscal que cresceu com as vantagens concedidas aos bancos por conta da pandemia. O projeto de 2021 procurou tapar o buraco com impostos nas compras dos pobres e na renda da classe média. Ante os protestos, o governo quer privatizar parte das empresas de energia rentáveis. A ira da maioria da população se incrementou porque o auxílio emergencial foi um terço do auxílio do Brasil em 2020 e para uma porcentagem ínfima da população.

Do pacote tributário anterior e da reforma trabalhista pra cá, não mudaram nada até agora. Assim como o projeto tributário já tinha antecedentes, o trabalhista traz uma sequência de cortes dos direitos aos trabalhadores e um regime discriminatório contra os trabalhadores jovens ou novos. Também tem um projeto que atinge os direitos dos aposentados.

Correio da Cidadania: Quais as principais bandeiras desse movimento popular? Qual a composição e diversidade desse movimento?

Hector Mondragon: O comitê de greve aprovou desde dezembro de 2019 uma petição que inclui as mais importantes reivindicações econômicas, políticas e culturais dos movimentos sociais. Foi complementada e apresentada formalmente ao governo em 20 de julho de 2020 como um documento de 98 pontos. O governo não respondeu. A prioridade entre estas demandas na greve nacional de 28 de abril de 2021 foi rejeitar as reformas tributárias, da saúde e trabalhista; estabelecer uma renda básica de emergência para enfrentar a fome; compra rápida de vacinas contra a Covid-19 e orçamento suficiente para o sistema de saúde; redução dos pedágios e suas tarifas; reforma da polícia; que parem os assassinatos de líderes sociais; e defesa dos acordos de paz.

Devido à selvagem repressão contra a greve, agora é prioridade o respeito ao direito de protesto, fim do assassinato de manifestantes, informação exata sobre os desaparecidos durante a greve e liberdade para os presos.

A participação massiva dos jovens e das mulheres tem sido a nota dominante. É assim desde 2016 com as mobilizações pelos acordos de paz, mas se incrementou na greve de 2019. Em 9 de setembro de 2020 aconteceu em Bogotá um levantamento em todas as favelas contra a violência policial; 13 jovens foram mortos e 72 feridos a bala. A partir daí a composição social dos protestos mudou, acrescentando-se e dominando os setores mais pobres. Na raiz desta radicalização juvenil, está o fato de que o nível de pobreza monetária dos menores de 25 anos é 43% em nível nacional e 50,6% nos centros povoados, e a taxa de desemprego dos jovens é de 29%.

As assembleias populares dos bairros, pontos e portais de resistência em Cali e Bogotá, as Primeiras Linhas organizadas em todas as cidades e a União das Resistências de Cali são formas de auto-organização que inclusive têm sido reconhecidas pelos governos locais. A presença dos artistas tem sido muito importante e vários deles estão entre os assassinados e torturados pela repressão.

Além disso, tem sido chave a mobilização dos povos indígenas, que têm conseguido construir as organizações mais fortes e ativas. Estão muito bem formadas as guardas indígenas, sem armas, mais treinadas, que têm ido aos bairros para apoiar os jovens e compartilhar sua experiência, que já se espalhou antes para que guardas camponesas e quilombolas se ativem em várias regiões do país. Tem-se realizado grandes assembleias, a mais importante a de Túnia no Cauca, que reúnem os sectores populares rurais e urbanos e toma decisões sobre o curso do movimento.

Correio da Cidadania: Como você descreve a repressão do Estado? Por que um país com um histórico de violência tão brutal, um país que pode até ser considerado tecnicamente em guerra, aparece tão pouco no noticiário internacional?

Hector Mondragon: Assim como Chile era publicitado como a economia modelo, a Colômbia é apresentada como a democracia mais antiga da América Latina. Mas os politólogos a chamam eufemisticamente “democracia restringida” ou “restrita”. Um modelo que se espalha com assassinatos de opositores, massacres, deslocamentos da população, açambarcamento de terras, grilagem e repressão, mas com eleições periódicas. Na Colômbia há 82 mil pessoas desaparecidas, bem mais que nas ditaduras militares. Somente na greve de 2021 desapareceram 84 manifestantes até agora.

Quando o neoliberalismo está estourando, o capital internacional se interessa por este modelo, que permite uma aparência de democracia, mas com uma alta letalidade, que pode eliminar a organização, os protestos e levantamentos dos povos.

Por outra parte, os Estados Unidos têm no regime da Colômbia seu instrumento estratégico na região, para controlar América do Sul e Panamá e, neste período, continuar a agressão contra Venezuela.

As agências de notícias filtram as informações sobre a violência governamental e paramilitar. Porém, com o esclarecimento do caso dos chamados “falsos positivos” (assassinato de mais de 6 mil jovens pelos governos de Uribe), assim como na greve nacional de 2021 este cerco informativo está se quebrando. Posso mencionar que BBC, Deutsche Welle e até o New York Times têm publicado importantes denúncias sobre a repressão brutal aos protestos.

Correio da Cidadania: Os Acordos de Paz de 2016 e a evidente vontade política da ultradireita em destruí-los fazem parte da insatisfação popular que toma as ruas neste momento?

Hector Mondragon: Sem dúvida, sim. Os jovens tinham muita esperança nos acordos, que são seu futuro. Nas regiões de grande presença de comunidades indígenas e quilombolas, o voto pela paz superou 80%. Mas, os setores interessados em não devolver as terras que roubaram dos camponeses e em ocultar casos graves de violações dos direitos humanos fizeram propaganda homofóbica contra os acordos porque tem um capítulo sobre equidade de gênero e, depois, partidários do ex-presidente Uribe realizaram a campanha eleitoral de Duque anunciando que fariam farrapos os acordos.

É o que aconteceu, porque aos assassinatos de líderes sociais se somam os de 200 ex-combatentes. Com uma execução mínima dos programas de substituição voluntária de cultivos ilegais, estão aspergindo com glifosato regiões rurais e as negociações com o ELN estão suspensas. É assim que, tanto a greve de 2019 como a de 2021, exigem os acordos de paz.

Correio da Cidadania: O país aponta para um levantamento de massas parecido com o que se vê no Chile, isto é, uma vasta parcela da população não voltará a aceitar o atual modelo de reprodução social?

Hector Mondragon: No fundo é a mesma crise total do neoliberalismo no meio de uma nova crise cíclica capitalista. Não só as mobilizações gigantes no Chile, mas também em 2019 as mobilizações no Haiti, a greve de outubro no Equador, e a valente luta dos indígenas, camponeses e operários da Bolívia contra o golpe de estado policial fascista, antecederam e impulsionaram a dimensão da greve na Colômbia. É um período de greve de massas na América Latina que se expressou também em 2020 com o bloqueio da Bolívia que impôs a convocatória a eleições; com as manifestações contra a corrupção e o levantamento popular em novembro contra a tentativa de golpe de Estado parlamentar no Peru; e com o levantamento contra a violência policial em Bogotá, em setembro.

Também é agora um fenômeno internacional, pois vimos nas redes sociais a explosão da ira contra a violência policial e o racismo após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Os grandes protestos contra a violência policial na Nigéria, a greve geral dos trabalhadores na Indonésia e as manifestações pela democratização da Tailândia também quebraram as quarentenas, assim como em 2021 a greve camponesa da Índia e as manifestações contra o golpe militar em Myanmar.

A greve de massas une as lutas econômicas e políticas, passa de umas a outras e também permite unir e une os mais diversos setores da população. Os coronéis políticos estão apavorados que as eleições de 2021 lhes causem uma derrota eleitoral histórica como no Chile ou uma eleição presidencial como a do Peru. Tem armas velhas de fraude, mas sabem que sem violência contra os protestos e perseguição à oposição não poderão vencer de novo.

Correio da Cidadania: Como está a relação com os EUA, com quem a Colômbia mantém enormes laços político-militares? A eleição de Joe Biden pode mudar alguma coisa?

Hector Mondragon: O governo de Duque e seu partido político deram um tiro no pé apoiando publicamente Trump na campanha eleitoral em 2020. O embaixador da Colômbia forneceu aos trumpistas os dados dos colombianos em Miami para enviar fake news assegurando que Biden é “castro-chavista” e camarada do líder da oposição colombiana Gustavo Petro. Isso produziu um relacionamento muito frio entre os dois governos.

Porém, nos assuntos militares, os Estados Unidos não têm mudado nem um centímetro sua presença direita na Colômbia, principalmente para assegurar os planos sobre a Venezuela.

Correio da Cidadania: Como os acontecimentos do país dialogam com o momento político e social do resto da América do Sul? Como enxerga a atual etapa do neoliberalismo na região?

Hector Mondragon: É uma grande luta continental de viés econômico e político. Os povos da América Latina estão objetivamente unidos e os acontecimentos se precipitam. Precisamos tomar consciência desta realidade latino-americana, para que consigamos as transformações que nossos povos necessitam.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.