O caminho do Brasil


A ruidosa saída do Ministro da Justiça, herói do Lava Jato, Sérgio Moro, anunciada como uma bomba, ao que parece vai se constituir num minúsculo traque, de pequeno alcance. No depoimento dado à Polícia Federal nenhuma prova contundente apareceu contra o mandatário nacional, seu ex-chefe. Por outro lado, a deserção do ex-juiz está atiçando a militância bolsonarista que agora já aparece nas redes sociais, explicitamente, à luz do dia, chamando para treinamento militar com o objetivo de “ucranizar o Brasil”.

A moça loira e bem nutrida que comanda essa ação chamada de os “300 pelo Brasil” é assessora da ministra Damares - esta conhecida por seu conservadorismo bíblico - Sara Geromini, agora autointitulada Sara Winter (um sobrenome em inglês para melhor representar sua filiação) já foi militante feminista, pró-aborto, quando essa era uma boa onda e garantia recursos. Agora, resolveu surfar na onda que ocupa o poder no Brasil, virou temente a deus. Comporta-se então como uma oportunista, apontando para onde pode ocupar mais espaço.

Nas redes sociais ela aparece sempre armada como se fosse uma dessas heroínas de filme estadunidense. Quer criar uma milícia armada, paramilitar, para acabar com os comunistas. Deu entrevista para um jornal conservador onde diz: “eles agora vão ter medo de nós”. Eles, no caso, são os militantes da esquerda ou qualquer ser humano que se oponha ao governo de Bolsonaro. No acampamento “espontâneo” que ajudou a organizar em Brasília, para um ato de apoio ao presidente da nação, iniciou o que chama de “treinamento” do tal grupo 300.

Provavelmente ela utilizou o nome 300 lembrando a resistência heroica dos espartanos contra o imenso exército persa. Não deve ter lido até o fim a história, pois os 300 acabaram esmagados pelos persas, depois de uma traição dentro de suas próprias fileiras (seria o Moro?). De qualquer forma o tema aqui não é esse.

A questão é que existe um grupo paramilitar se formando no facebook e no ‘uatizapi’ sem que nenhuma ação seja feita por parte das chamadas instituições brasileiras. Conforme a liderança assegura em entrevistas, o objetivo é ucranizar o Brasil, ou seja, promover a matança dos comunistas em nome de um deus vingador.

Agora imaginemos o contrário: que a CUT ou o PCO, ou o PT, o PSOL ou qualquer outro grupo identificado como esquerda estivesse chamando pela rede social a criação de um grupo armado para enfrentar os bolsonaristas. O que aconteceria? A Polícia Federal certamente entraria nas casas das lideranças, prenderia os envolvidos e eles seriam julgados como subversivos, comunistas a serviço da Rússia, traidores da pátria ou qualquer outro nome.

Essa é a realidade brasileira no momento. O grupo dos bolsonaristas é pequeno, mas ruidoso. E também é ousado. Está seguro de que com eles nada acontecerá porque seu presidente tem o controle até da Polícia Federal.

Do outro lado temos uma esquerda acuada, que se comunica através de notas de repúdio ou então fazendo piada sobre a “pequenez” dos grupos que pregam o AI-5 (o fim de todas as garantias individuais e o fechamento do Congresso) e a intervenção militar. Não há ação organizada junto aos trabalhadores, mesmo nessa hora pandêmica onde a maioria está desprotegida e sendo obrigada a seguir vendendo sua força de trabalho sem as garantias de proteção à saúde. As estradas para a ação dos fanáticos e fascistas estão abertas, sem bloqueios.

Essa é uma hora decisiva. A pandemia avança cobrando vidas. Provavelmente o Brasil ainda colocará muito mais mortes do que as atuais quase doze mil. O desemprego crescerá, a pobreza aumentará, o desespero e a fome assomarão, portanto, terreno fértil para o obscurantismo e o fanatismo.

O caminho para a ucranização está livre. Alguns acham graça disso. Mas, sempre é bom lembrar que se os 300 de Esparta foram derrotados, eles enfraqueceram poderosamente o exército de Xerxes, que foi derrotado logo adiante. Não é momento de tripudiar do que parece ser um exército de Brancaleone às avessas. Isso é sério e tem como objetivo matar brasileiros em nome de deus.

É tempo de organizar os trabalhadores e montar as barreiras. Se o fanatismo é risco, a revolução também é. Das instituições não há o que esperar. Tudo o que temos são nossos corpos nus, como diria o grande repórter Marcos Faermann.

Elaine Tavares

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC

Elaine Tavares

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.