Correio da Cidadania

Entre o mercado e a farmácia: o agropop e a pandemia


Muito se fala da pandemia. O vírus novo que apareceu na China e se espalhou pelo mundo todo, causando morte e sofrimento. Um vírus que provoca uma doença feroz, capaz de deixar sequelas inimagináveis. Todos os dias, na TV, nos jornais, na internet, acompanhamos os números de infectados, de mortos, de recuperados, vacinas. No Brasil, onde já passamos das 500 mil mortes, temos até uma CPI para investigar o papel do governo federal no não enfrentamento da pandemia. Mas pouco se diz das causas. O que, afinal, provocou o aparecimento de um vírus tão mortal?

O professor Gilberto Felisberto Vasconcellos tem uma teoria. Para ele as causas podem ser encontradas no tipo de agricultura que o capitalismo produz. Ele lembra que os seres humanos não conseguem mais escapar de uma rotina cotidiana que é o caminho entre o supermercado e a farmácia. Segundo ele, estamos presos nisso. As mesmas empresas que produzem sementes são as que produzem veneno e produzem remédio. Ou seja, os remédios são criados para enfrentar os males provocados pelas sementes e pelos venenos. É uma cadeia muito bem articulada.

O agro é pop, diz a propaganda na TV. E é assim que a ideologia do capital vai tentando convencer a população de que aquilo que é produzido no latifúndio é bom para todos. Não é. “A origem do coronavírus está no sistema agrobusiness”, diz Gilberto. Um sistema que é sustentado pelo petróleo e que apenas visa o lucro para alguns. A comida que vem daí é só um efeito colateral. E também não importa a essas empresas que a comida seja envenenada, que os frangos estejam entupidos de hormônios, que os peixes recebam antibióticos e que os grãos e vegetais estejam encharcados de pesticidas. Isso é bom porque ajuda a indústria farmacêutica. A população que se dane.

Assim, para combater os efeitos dos venenos ali está a drogaria. E ela é a que vai fornecer o remédio para o câncer, o diabetes, o coração, a pressão alta e tudo mais que é gerado pelo modo de produção do capital. Uma jogada de mestre.

O novo vírus junta a economia com a epidemiologia, em mais uma onda geradora de lucro. “O contágio da gripe está ligado ao contágio do capital. Vivemos uma gripe agrofinanceira. O agro é pop. O pop é money. O agro é pix, petróleo, CO2 e céu sujo”.

Gilberto lembra que os pesticidas que envenenam a comida têm origem no Napalm, uma arma química usada no Vietnã. Isso por si só já dá conta do tamanho do problema. Não bastasse a disseminação do veneno pela agricultura e pecuária, a terra inteira ainda vive o drama do desmatamento, da política de terra arrasada. Tudo é devastado para que entre o agropop.

Assim, não é preciso ir longe para saber as causas da aparição de um vírus como esse. A causa é econômica, social, cultural. Está visceralmente ligada ao que comemos e como produzimos a vida. Logo, muito em breve teremos outra epidemia, e mais outra, e mais outra. Mais doenças, e mais dor.

Sendo assim, a única vacina possível é a morte do capitalismo. Ou isso, ou seguiremos como zumbis entre o supermercado e farmácia.

Elaine Tavares

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC

Elaine Tavares