Correio da Cidadania

A política não é para amadores

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Tanque leve usado em desfile militar chama atenção nas redes por soltar  fumaça - Brasil - Extra Online

Vivemos um tempo no qual tudo parece fumaça e as pessoas caminham envolvidas por essa atmosfera, sem conseguir enxergar o que está à frente. Ou pior, sem querer ver. Não bastasse isso, o comportamento geral é de completa fragilidade como se o mundo estivesse cheio de pessoas de cristal. Qualquer ventinho derruba e quebra. A crítica é vista como coisa pessoal e os obstáculos da vida aparecem como montanhas intransponíveis. No mundo da política o reinado é o dos memes. Tudo vira piada, sem que qualquer análise mais profunda dê conta da conjuntura complexa e aterrorizante na qual estamos todos mergulhados.

Um exemplo disso foi a pantomima protagonizada pelo mandatário geral essa semana. Mais uma, das tantas. Seguindo o seu roteiro de anúncio de golpe fez os carros de combate desfilarem em Brasília bem no dia de uma votação esdrúxula, também parte da tragicomédia brasileira, na qual os deputados federais decidiram se voltavam ao voto impresso ou se seguia eletrônico. O tema agitou as redes sociais – sim, as redes, não as ruas - e foi um infindável carrossel de memes, tanto sobre o desfile quanto sobre a votação. Mais uma vez as análises rasas de que “a democracia venceu”, o “governo está fraco” e “as Forças Armadas são uma piada”.

Enquanto isso, uma série de outros projetos de lei que arrocham a vida dos trabalhadores vão passando a galope pelo Congresso Nacional, medidas econômicas vão sendo tomadas em favor do capital e a classe dominante nacional e transnacional segue impondo suas pautas, sem qualquer rugosidade.

Observando cada uma das assertivas há que apontar o seguinte:

1 – A democracia não venceu

Seguir com o voto na urna eletrônica não define qualquer vitória à democracia. Sim, voltar ao impresso seria um tremendo retrocesso, pois levaria a um controle bem maior dos eleitores. Mas, seguir como está não tem nada a ver com democracia. Até porque, ainda que não tenha o controle rígido do voto, há o controle moral. E quem manda no processo eleitoral é o poder financeiro. Basta olhar o Congresso e ver onde estão os representantes da maioria da população. Praticamente inexistem.

Os legisladores que são eleitos representam interesses econômicos, grupos de poder. Essa queda de braço – totalmente inútil – serviu para o governo testar seu controle na casa. Está tranquilo. Deputados de partidos como o PDT e MDB votaram com o governo e a velha direita – o PSDB – mostrou que está alinhadíssima. Foram 225 votos e isso não é bolinho. Os deputados votam no rastro da grana. Inclusive alguns dos partidos aliados que votaram contra apenas assinalaram que precisam de mais incentivo, talvez.

Essa é nossa “democracia”. Conforme se abrem os cofres, os votos vão mudando. Nada é ideológico ali. Tudo é business. Portanto, não venceu a democracia. Não era isso o que estava em jogo.

2 - O governo não está fraco

Essa de que o governo está fraco é outra bobagem. O governo está tranquilo. No momento não há absolutamente nada que o ameace. Os bancos registraram lucros extraordinários, as empresas transnacionais também e os latifundiários seguem amealhando terras e produzindo para exportação, sem percalços. A turma do andar de cima não tem do que reclamar. Os ricos estão cada vez mais ricos e a crise criada pelo coronavírus serviu para que mais alguns subissem os degraus na Forbes – a revista que mostra os milionários.

A crise só existe para a classe trabalhadora. Afinal, se o arroz subiu 122%, a carne 61%, a mandioca 67%, o açúcar 53%, a gasolina toca os sete reais e o gás passa dos 100 sem que haja uma convulsão social é porque a turma que comanda está firme no controle das mentes e dos corações.

Vejam que no mesmo dia da votação sobre o voto impresso, os deputados aprovaram o texto-base de uma nova minirreforma trabalhista que acaba com o vínculo empregatício, permite redução de salários, acaba com o vale-transporte, cria contratos de aprendizagem (que significa contratação sem direitos) e ainda permite contribuição facultativa à Previdência. Isso num momento em que a taxa de desemprego é altíssima, com 16 milhões de desempregados e os salários de quem está empregado são baixíssimos.

Não se viu qualquer ação por parte das Centrais Sindicais ou dos movimentos sociais. Para coroar, o Paulo Guedes (o superministro) surfa na onda do aumento dos juros, o aperto monetário mais radical desde 2001 que impactará de maneira tremenda os trabalhadores. Como diz o professor Nildo Ouriques: “o inferno é aqui e agora”. Mas, parece que poucos o percebem. Ah, e vem aí a reforma administrativa, que desmonta o serviço público. Logo, o governo não está fraco. Não ainda. Pode ficar, mas ainda está firme. Enquanto servir aos interesses de cima, pouco importa o drama das gentes.

3 – As Forças Armadas não são uma piada

As teses que circulam na rede dizem que o mandatário geral fez os militares passarem vergonha com o desfile de sucatas, que os milicos estão constrangidos, que até a Guiana pode invadir o território, que tudo isso é uma vingança pessoal pelo fato de o mesmo ter sido expulso do Exército. Não compartilho dessa visão. O desfile mostrou que há muitos milicos de alto rango dispostos a apoiar o ex-tenente, alçado a capitão pela aposentadoria. Se há alguém constrangido, está bem no fundo da caserna.

Os que estão na crista da onda estão garantindo o ouro. E não é medalha. É ouro mesmo. Mais uma vez trata-se de negócios, simplesmente negócios, plata, money. Tem gente ganhando muito dinheiro. E se para isso tiver de apoiar o tenente, que seja. A passeata dos tanques velhos e caminhões desregulados serviu para animar a militância bolsonarista. Isso é necessário para manter o grupo sempre pronto. Nos grupos, a certeza de um golpe é o que os mantém em estado de esperança. “A esquerda tremeu”, “tem que manter esses desfiles todo o mês”, “está vindo o golpe”... Estas são as análises. E a turma no palanque não se abala. Sorri.

O fato é que enquanto os grupos de facebook e uatizapi seguem alvoroçados com os factoides criados pelo governo federal, a boiada passa. E não apenas a boiada real, dos latifundiários que queimam terras e matam gente, mas a boiada de tudo o que interessa aos donos do capital. Não parece haver rugosidades entre eles e o governo. A vida lá no topo da pirâmide está sempre com céu de brigadeiro.

E aqui embaixo seguimos carregando nos ombros o peso dessa gente inútil.

Elaine Tavares

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC

Elaine Tavares
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