Correio da Cidadania

Etanol e dependência

 

O caráter dependente do capitalismo brasileiro torna a se explicitar no recente reacender das discussões sobre fontes renováveis de combustível e, particularmente, o etanol.

Como se sabe, o desenvolvimento do álcool de cana como combustível foi impulsionado pela ditadura militar diante da crise mundial do petróleo no início dos anos 70. Convergiram então interesses do setor usineiro, da indústria automobilística e das distribuidoras de combustível, com o pretenso nacionalismo antidemocrático dos militares.

Mais adiante, este mesmo programa foi progressivamente desestimulado. Os múltiplos desdobramentos possíveis da exploração energética dos recursos naturais brasileiros foram desprezados. Homens da ciência e patriotas, como Bautista Vidal, bradaram em vão que nós tínhamos o petróleo do futuro.

Embora o carro a álcool nunca tenha deixado de existir, perdeu mercado continuamente sob o neoliberalismo nos anos noventa. Em diversos momentos, cogitou-se a extinção do álcool como combustível.

E, no entanto, em anos recentes, as montadoras passaram a produzir motores flex fuel, que aceitam gasolina e álcool. Em poucos anos, a imensa maioria dos veículos passou a ser equipada com eles. E a visita do presidente Bush recoloca o tema à baila, sob a égide do etanol. O que aconteceu? 

Depois de dois relatórios sombrios, o painel interglobal de mudanças climáticas, reunido sob os auspícios da ONU, prepara um terceiro, onde mostra caminhos concretos para conter o aquecimento global. Todos convergem em um ponto: é preciso substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis. Não se trata de pura ecologia: os custos decorrentes do aquecimento previsto seriam muito maiores do que aqueles para preveni-lo. É economia.

A escassez progressiva de petróleo e carvão combinada aos custos indesejáveis decorrentes do aquecimento global orientam o grande mercado consumidor de combustível à busca de fontes alternativas. Em uma palavra, o pró-álcool deixou de ser um tema nacional para se tornar um assunto das multinacionais.

O assunto agora é como inserir o potencial natural do território brasileiro e a tecnologia até então desenvolvida a serviço dos negócios internacionais. Trata-se de subordinar a produção de combustíveis ao interesse das produtoras e distribuidoras multinacionais; a tecnologia de motores aos negócios das montadoras; e no conjunto, a posição brasileira aos negócios do capitalismo central.

Em outras palavras, o que não vingou como um projeto nacional agora avançará como negócio do capital internacional.


As nossas elites depressa cavam seu espaço ao sol e justificam seu papel subalterno: ninguém compete com os Estados Unidos em pesquisa e tecnologia; portanto, é preciso aliar-se. Ali está o grande mercado de combustível, portanto, é preciso abri-lo. É insensato almejar outra posição - a questão é garantir-se como aliado preferencial, antes que outro o faça. Forçando um pouco a comparação, o sonho das elites brasileiras é ser a próxima realeza saudita.

Combustíveis renováveis aparecem aos seus olhos como uma superlativa oportunidade de negócios, como o café na virada do século XIX. O país deve adequar-se a ela. Assim, o padrão de inserção subordinada encontra fôlego novo, às expensas da nação. 

 

 

Fábio Luís é jornalista.

 

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