Correio da Cidadania

Bomba de efeito retardado: pavio aceso

 

 

Logo no primeiro ano do governo Lula, respondendo às críticas que surgiam dos setores políticos e sociais que o apoiavam, mas que insatisfeitos com os rumos adotados exigiam mudanças de rumos na política econômica, Zé Dirceu, então homem forte do governo, saiu-se com a seguinte frase: “quando decidimos por esta política não estávamos insanos”. Parece-nos que o Zé, de fato, estava como que meio inebriado com o poder e se colocava acima dos verdadeiros aliados do governo. Alguns dos seus amigos afirmam que ele estava insano (doente da cuca), por isso fez tanta besteira.

 

O que se implantou, desde então, foi uma política econômica toda ela voltada para atender aos interesses do grande capital internacional e do seu aliado capital nacional. As normas vindas do “Consenso de Washington”: a desnacionalização das empresas estatais, o aumento progressivo do “superávit primário”, a ampliação das importações, o reforço do agronegócio, a abertura para a produção dos transgênicos, a concessão dos serviços para a exploração das multinacionais, a entrega do petróleo, ao passo que se deveria cooptar e levar ao adormecimento o movimento social combativo. A pessoa e a fala carismática de Lula garantiriam que suas mentiras e “meias verdades” – e dos seus auxiliares – fossem aceitas como verdades absolutas pelos seus apoiadores.

 

Esses, infelizmente, sempre habituados a ver pela imprensa burguesa a trama da politicagem que garante a dominação do capital, esqueceram-se de olhar a política através de um dos seus principais pilares de sustentação: a Economia. Assim, se caminhou durante anos e nosso povo foi aceitando, sobretudo, a política compensatória das Bolsas disso e daquilo como o grande avanço da era lulista.

 

Em troca, foi dando seu apoio, ainda que inconsciente, à política de desnacionalização da nossa já frágil indústria e à remessa de fabulosas quantias do dinheiro público para os serviços da Dívida Pública (que, ainda assim, já ultrapassou o absurdo dos R$ 4 trilhões, sobre os quais pagamos altíssimos juros e que não para de crescer), comprometendo o tão desejado desenvolvimento econômico e social, nacional e autônomo.

 

E o resultado dessa política estreita, corrompida e corruptora já vem aflorando há anos, embora sempre camuflada pelas mentiras e meias-verdades dos homens e mulheres do governo, principalmente do senhor Guido Mantega.

 

Porém, já advertia Abraham Lincoln: “engana-se a poucos por todo o tempo; engana-se a muitos por pouco tempo. Mas não se engana a todos por todo o tempo”. E as meias verdades e mentiras foram sendo desnudadas uma por uma. Assim, a cada dia que passa, Mantega e seus auxiliares encontram enormes dificuldades para explicar os erros e fracassos dessa política suicida.

 

Depois de 11 anos de governo petista, percebe-se que estamos na “roda viva” da macroeconomia capitalista, nesses tempos dominados pela política financeira espoliadora de inúmeras nações; estamos mergulhados num processo sem volta do crescimento do superávit primário; no processo de desnacionalização da nossa indústria; na dependência das importações de manufaturados que provocou o maior déficit da nossa balança comercial, atingindo a incrível marca de U$ 105 bilhões somente em 2013; no modelo de energia elétrica que estimula a desindustrialização; na invasão incontrolada do capital estrangeiro em nossa economia, tanto industrial (vede as montadoras) quanto agrícola; e quanto mais a comentar em termos de crescente dependência?

 

Internamente, sentimos os efeitos dessa mesma política suicida ao constatar que a criminalidade já se torna incontrolável, dizimando nossa juventude ou jogando-a nos braços do narcotráfico; que a insegurança invade os lares, escolas, trabalho e ruas; com o emprego formal em constante desce e sobe, gerando a incerteza nos lares, somando a isto o aumento da velocidade de sua rotatividade e a estratificação do emprego informal e precário; com o achatamento do padrão de vida; com o descontrole atual da inflação.

 

Crescem as informações da corrupção que tomou conta dos poderes – como no caso da corrupção praticada pelo governo tucano em São Paulo e que remonta à época de Covas e envolve seu sucessor Geraldo Alckmin; além do “rombo” da Previdência e do sucateamento dos serviços de saúde e da educação públicas.

 

No caso da Saúde e Educação, merece destaque o triste resultado do exame aplicado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo, em que 60% dos recém-formados em escolas de medicina do Estado foram reprovados, até por não conseguirem diagnosticar simples sintomas de tuberculose ou indicar tratamento para casos comuns de pressão alta.

 

A partir desses dois casos apenas, podemos imaginar o nível de formação técnica desses novos “médicos”. Fruto de um sistema de ensino sucateado, a serviço do lucro e em desprezo total da vida humana.

 

Por tudo isto, é possível afirmar que, se o país já vinha muito mal com a política imposta pela ditadura militar, piorou com a chegada ao governo dos Sarney, Collor, FHC e do PT, capitaneado por Lula e agora Dilma. É possível afirmar que, politicamente, Zé Dirceu e o governo estavam insanos, sim senhor. E o fruto da insanidade está recaindo nas costas do povo trabalhador.

 

Diante de tamanha crise econômica e social, as jovens gerações vêm reagindo e exigindo um mínimo de ética e de justiça, exigindo seu direito de intervir em tudo que diga respeito às nossas vidas e aos rumos da nação. E o que nos oferece o governo Dilma? Tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para reprimir o justo movimento social, reinstalando, de certa forma, a “Doutrina da Segurança Nacional” dos tristes tempos da ditadura militar.

 

A bomba de efeito retardado está armada há tempos, está com seu pavio aceso. Não se pode calar diante de tamanho atentado ao direito de manifestação e de exigência de um mínimo de JUSTIÇA. Por tudo isto, é fundamental dedicar todo apoio às manifestações da juventude.

 

 

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Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.