Carnaval de resistências

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Há resistências possíveis. A festa mais popular do país foi a primeira grande manifestação de massas de crítica à onda conservadora e ao governo Bolsonaro. Não apenas como negação, mas afirmação, dos direitos e da nossa história não contada.

De norte a sul, nas escolas de samba, nos blocos de rua, nos enredos, marchinhas, alegorias e fantasias não faltaram bom humor e muita crítica. Uma pluralidade que bem representa a diversidade do nosso povo e sua disposição em não deixar o novo condomínio no poder esquecer que a intolerância e o ódio não são a identidade do Brasil.

A verdadeira identidade foi apresentada no resgate da resistência histórica e atual dos negros e negras, dos povos indígenas, das mulheres, da nossa classe trabalhadora.

O laranjal de Bolsonaro e do PSL, as peripécias e negociatas da sua família e amigos não passaram desapercebidos. Laranja foi uma das cores predominantes em inúmeros blocos e alegorias. E não estamos falando de pouca gente. Só na cidade de São Paulo, segundo números da prefeitura, 5 milhões de pessoas participaram dos blocos de rua!

O anúncio da vitória da Mangueira, no final da tarde da quarta-feira de cinzas, com o seu enredo "História pra ninar gente grande", acabou sendo uma belíssima síntese para coroar esse Carnaval de resistências, das "Marias, Mahins, Marielles, Malês".

E o governo enquanto isso? Continua duríssimo e aloprado. Na véspera do Carnaval, em edição extra do Diário Oficial na noite de sexta feira, dia 1º, o publicou Medida Provisória que elimina a contribuição sindical da folha de pagamento dos trabalhadores. Uma forma de estrangular os sindicatos e aumentar o poder de pressão e chantagem sobre as centrais na negociação da reforma da Previdência. A MP foi assinada por Bolsonaro e Paulo Guedes, sinalizando que é parte da política ultraliberal do mercado financeiro de promover reformas, arrancar direitos e atacar as possibilidades de organização e resistência.

Mas para o presidente isso não foi o suficiente para mostrar como se "brinca" o Carnaval. Longe disso, no meio dos dias de folia e críticas, o próprio presidente publicou em suas redes sociais um vídeo preconceituoso, inadequado, homofóbico e com nítido objetivo de atacar o carnaval e sua diversidade. Um protocolar comunicado da presidência, ainda na terça de carnaval, tentou negar esse último objetivo após o estrago feito e a polarização causada. Quem acredita?

Bolsonaro deu mostra inequívoca de que pretende governar chefiando apenas sua ala mais extremista e intolerante, forçando a polarização e atraindo mais seguidores desse nicho de intolerância, ainda que às custas de aumentar a oposição e a repulsa ao seu governo.

Andaram junto nessa onda de intolerância presidencial as cúpulas do fundamentalismo religioso, tanto evangélico como católico, que destilaram ataques a enredos de escolas de samba, blocos etc. Mostrando que são incompatíveis com a liberdade de manifestação, a diversidade cultural e sequer entendem o significado de liberdade e tolerância religiosa.

Esperamos que nos dias 8 e 14 de março milhares voltem às ruas para afirmar os direitos e bandeiras das mulheres e todos os "esquecidos" pela história oficial; que no 14 de março a memória e a defesa por justiça para Marielle e Anderson continuem de pé, pois os executores, e tão importante quanto, os mandantes deste crime precisam ser descobertos.

Teremos a difícil tarefa de convencer o povo de que o pior está por vir no terreno dos direitos sociais com a reforma da Previdência dos banqueiros e de Bolsonaro e que valerá a pena colocar nossos blocos na rua para que possamos ter um futuro com direitos.

Uma última reflexão

Alguns comentaristas, na própria Rede Globo que detém os direitos da cobertura dos desfiles das escolas de samba, disseram que o enredo da Mangueira era a história dos vencidos. Será mesmo?

O Brasil de hoje, e o que essas imensas festas populares mostram, é produto de quase 520 anos de resistências, de seculares lutas e revoltas populares, desde que a colonização aqui chegou: lutas de indígenas, negros, mulheres, dos LGBTs, camponeses, movimentos sociais e da dinâmica classe trabalhadora brasileira, forjada na brutalidade do "desenvolvimento" predatório do nosso peculiar capitalismo colonizador e oligárquico.    

Esta história ainda está sendo feita e contada, não terminou. Não estamos vencidos, nem esquecidos.           

Fernando Silva

Fernando Silva é jornalista e membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista

Fernando Silva

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