“E daí?” O mensageiro da morte precisa sair

Bolsonaro faz o Brasil descobrir que, para ser presidente, é ...
No dia em que o Brasil bateu o triste recorde diário de mortes pela Covid-19 e ultrapassou a China em números absolutos de óbitos, Bolsonaro, perguntado sobre o fato declarou: "E daí? Lamento. Sou Messias, mas não faço milagre". Nesse mesmo dia, 28 de abril, o opaco ministro da Saúde resolveu dar entrevista para reconhecer o óbvio: o quadro é de "agravamento", sem dizer nada sobre quais serão as medidas, já que a expressão "isolamento social" está proibida de sair da boca do governo.

Teve mais: neste mesmo dia, o ultraliberal Paulo Guedes retomou a tese fake de que a economia estava decolando antes da pandemia e que, por isso, vai rapidamente voltar a crescer em 2021... Um dos dias mais tristes do ponto de vista da pandemia e dos mais delirantes do ponto de vista do governo (cada vez mais miliciano e fanático) simboliza não apenas a contradição mais grave que afeta o país, como dá pistas da dinâmica da crise política institucional, que se agrava de forma dramática desde o início da pandemia.

Tudo isso coloca como única solução emergencial e decisiva a saída de Bolsonaro do poder.

As fissuras no condomínio autoritário são qualitativas

Um dia depois deste show de horrores do governo, Bolsonaro sofreu uma derrota importante, com a suspensão da posse do novo diretor geral da Polícia Federal, grande parça da família, já conhecido informalmente como 05. A explícita tentativa de controlar a PF como uma polícia a serviço do clã-presidencial foi pelo menos temporariamente barrada por decisão liminar do ministro Alexandre Moraes do STF.

Esta parece ser mais uma pista importante do isolamento político do governo dos fanáticos genocidas. Não é simples definir qual foi a data que marcou uma mudança de qualidade nas barbaridades do governo ou daquelas que nos permitam qualificar o seu enfraquecimento.

Desde a convocação das manifestações golpistas lá no quase longínquo 15 de março, quando a pandemia se instalava no país, não foram poucos os momentos de provocação, de crimes de responsabilidade ou de agravamento da crise governamental. Mas entre todos os episódios mais lembrados (demissão de Mandetta, participação em novos atos defendendo o golpe de Estado, dentre outros), o mais relevante foi a demissão do ministro Sergio Moro. Este saiu atirando e atualizando uma série de denúncias que dão sustentação a um pedido de impeachment, atualizado com inúmeros crimes de responsabilidade.

Se a demissão de Mandetta, além de quebra com a orientação técnica do isolamento social, sinalizou uma ruptura mais definitiva com um “setor político da direita tradicional", após a ruptura com a maioria esmagadora dos governadores oriundos da direita, a saída de Moro marcou a ruptura com a componente punitivista e muito popular do governo e do Poder Judiciário, estratégica para a operação seletiva e fraudulenta que permitiu o golpe jurídico-parlamentar de 2016 – como sabemos, o momento em que as portas do inferno foram abertas. Moro expressa o populismo punitivista, o discurso anticorrupção, que foi majoritário na onda direitista que culminou na vitória de Bolsonaro em 2018.

Sua saída do governo materializa uma divisão profunda na base social da direita. Bolsonaro opta assim em uma composição de governo ainda mais autoritária, extremista e estreita mesmo no âmbito da extrema-direita. É coerente com um projeto autoritário, mas está diretamente pautado pela necessidade imediata de autoproteção e defesa do seu clã (envolvido em crimes de fake news, milícias, desvio de recursos), sobre o qual as investigações da Polícia Federal iam fechando o cerco. A seu favor tem o aval ou semitutela dos militares, um terço de apoio popular e o poder da caneta para tentar comprar parte do "centrão", tentando assim blindar-se com um número de deputados que impeçam o Impeachment.

Estes três fatores não são nada desprezíveis. Mas o processo é inequívoco. As próprias pesquisas de opinião marcam um país dividido em torno do impeachment e da renúncia e simbolizam uma dinâmica crescente de desgaste e perda de credibilidade antes mesmo de chegarmos ao pico da trágica pandemia, cuja orientação criminosa do governo resultará num custo humanitário e social sem precedentes.

O gesto do STF de impedir a posse do 05 na PF pode simbolizar uma inflexão mais dura na direção de uma ingovernabilidade para Bolsonaro.

Rodrigo Maia também tem que parar com o seu "e daí?"

As condições para um impeachment de Bolsonaro crescem, especialmente após as denúncias do ex-ministro Sergio Moro. Mesmo setores da direta fazem o coro dos pedidos impeachment crescer. Juridicamente são seis crimes de responsabilidade facilmente comprováveis e a mudança na orientação do isolamento social custará (e já está custando) muito mais milhares de vidas do que já se poderia esperar da pandemia por si só. Apesar destas evidências e fatos, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, questionado naquele fatídico dia 28, à sua maneira escorregadia e com outras palavras, disse o seu "e daí?".

Nada destas atrocidades e denúncias faz o presidente da Câmara comover-se ou indignar-se a ponto de abrir as portas para a instauração de um processo de impeachment. Não se sabe o que Bolsonaro precisará ainda fazer para a Câmara dos Deputados conduzir um xeque-mate ao projeto genocida e autoritário da quadrilha bolsonarista.

Será que se o presidente tentar algum tipo de quartelada Maia acorda? Ou só irá despertar tardiamente quando boa parte da sua base de sustentação do "Centrão" migrar para os cargos no Executivo? Em termos práticos Rodrigo Maia está blindando Bolsonaro. Por sua apatia e covardia, Maia até contribui com o agravamento da tragédia no país; sua demora em agir mantém abertas as portas para mais arroubos autoritários do clã bolsonarista. Seis crimes de responsabilidade não bastam, Rodrigo Maia?

Para tirar Bolsonaro a unidade ampla será uma condição. O momento exigiria que toda a oposição – partidária, nos movimentos sociais – e mais todos os setores e entidades democráticas estivessem se unificando em torno de um amplo pedido de impeachment, especialmente após as novas denúncias.

Mas não é isso o que está prevalecendo, há uma fragmentação de iniciativas, seja na busca midiática de protagonismo ou pelo critério de quem chega primeiro. De outro lado, há uma paralisia e indecisão de setores muito expressivos da oposição no campo da esquerda. É preciso reconhecer que a dificuldade em ter um movimento de massas com protagonismo nas ruas pelo Fora Bolsonaro contribui para este cenário de baixa unidade e vacilações na busca de um objetivo comum.

De toda forma, a urgência diante da catástrofe que se anuncia não deve arrefecer por um minuto a busca por todas as formas de disputa da maioria do povo para intensificar uma campanha pela saída imediata de Bolsonaro na forma mais ampla e unitária que for possível. Quanto mais demorar uma enfática movimentação unitária, mais tempo e vidas serão perdidas. O Brasil precisa de um pouco de esperança e isto será impossível se não conseguirmos abreviar o mandato de Bolsonaro.

Fernando Silva

Fernando Silva é jornalista e membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista

Fernando Silva