Fome, outra pandemia

Fome e Pandemia | Colunistas
Como frisa o jornalista Luís Nassif, a história ainda haverá de fazer justiça a Paulo Guedes e entronizá-lo como o pior ministro da Economia da história. Ao não impedir a dolarização dos preços de commodities – especialmente alimentos e combustíveis – isso impactou nos preços ao produtor e no Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), que serve de parâmetro para fixar a taxa básica de juros.

Ao não atuar sobre o mercado de câmbio, impor taxas de exportação e não obrigar a Petrobras a usar como referencial de preços os custos de prospecção, o preço dos alimentos sobe vertiginosamente e a fome volta aos lares dos mais pobres.

A TV mostrou filas, em Cuiabá, para comprar arroz e feijão quirela, quebrados, ingredientes que costumam ser destinados à ração animal. E filas em um açougue que doava ossos de boi. Algumas pessoas avançavam sobre a oferta e, ali mesmo, levavam à boca muxibas de carne crua.
Detalhe: Mato Grosso tem o maior rebanho bovino brasileiro, com 31,7 milhões de cabeças.

"Até o ano passado – disse o açougueiro -, vinham em busca da doação cerca de 30 a 40 pessoas. Atualmente, às vezes há mais de 200 na porta. O fato é que o número aumentou dessa forma devido à fome. Nós doamos alguns ossinhos, o que não é muita coisa, mas fazem muita diferença no dia-a-dia deles".

O governo Bolsonaro aboliu as políticas públicas de segurança alimentar, desarticulou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Ao genocídio da pandemia soma-se o do prato vazio.

Embora aumentem a inflação, os preços dos itens da cesta básica e, portanto, a fome, o governo só dá atenção ao agronegócio, cujas exportações batem recordes em plena pandemia. De janeiro a abril deste ano, a exportação de soja passou de 33 milhões de toneladas, superando o índice recorde de 31,9 milhões de toneladas registrado no mesmo período de 2020. A exportação de milho teve alta de 1.854% em abril de 2021. O arroz também atingiu os melhores índices de exportação nos últimos dez anos.

As empresas do agronegócio faturam bastante nesse período de pandemia. A JBS, dona da Friboi e uma das maiores processadoras de proteína animal do mundo, encerrou o último trimestre de 2020 com lucro líquido de R$ 4 bilhões, o que representa crescimento de 65% em relação ao mesmo período de 2019.

A BRF, controladora das marcas Sadia e Perdigão, anunciou lucro líquido anual de R$ 1,4 bilhão, elevação de 14,6% em relação ao ano de 2019. A estadunidense Bunge, com várias operações no território brasileiro, anunciou lucro líquido de 551 milhões de dólares no quarto trimestre de 2020, e triplicou seus ganhos no primeiro trimestre de 2021.

Enquanto o governo federal continuar refém do agronegócio, do latifúndio e das mineradoras, os seres humanos estarão tentando obter ração animal para consumo, e veremos ampliadas as filas de distribuição de carcaças de gado.

O Brasil é mesmo o país dos contrastes. Nosso povo é conhecido como pacífico e, no entanto, ocorrem 60 mil assassinatos por ano. O país é tido como celeiro do mundo e, no entanto, temos 19 milhões de pessoas com fome crônica e 50 milhões em insegurança alimentar. Figuramos entre as dez maiores economias do mundo e, no entanto, 105 milhões ganham menos de um salário mínimo por mês e 40 milhões vivem na miséria (68 milhões de brasileiros recorreram ao auxílio emergencial do governo federal).

O Brasil precisaria modificar seu modelo de produção agrícola. Enquanto grandes extensões de terra são reservadas à produção de commodities, o país importa cada vez mais leite, arroz, óleo e outros produtos básicos. E a cana é destinada a fabricar etanol.

“Em um dos estados mais ricos do agronegócio, as pessoas formam filas para receber ossos. Em um programa, a dona do açougue se disse que fica escandalizada quando vê algumas pessoas roendo os ossos. E isso em um dos estados mais pujantes, que se orgulha da força da economia que está associada a esse modelo de produção”, disse o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, coordenador-adjunto do Fórum Gaúcho contra os Impactos dos Agrotóxicos.

No entanto, segundo a Embrapa, o Brasil alimenta 800 milhões de pessoas em todo o mundo, via exportações, incluída a população de nosso país. Ao lado da China, dos EUA e da Índia, somos o celeiro do mundo. Contudo, suas portas estão fechadas para metade dos 212 milhões de brasileiros, as panelas estão vazias e, nas cidades, as latas de lixo são reviradas por seres humanos em busca de aplacar a fome.

E há quem diga que o nosso povo é cristão, generoso e solidário. O nosso povo é reflexo da elite que nos governa, ganancioso, competitivo, racista, indiferente aos excluídos. Até quando?

Frei Betto

Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos")

Frei Betto