O Labor entre as concessões e a ideologia

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Sir Keir Starmer - news latest, breaking updates and headlines ...

Depois do seu grande fracasso eleitoral, sob a liderança esquerdista de Jeremy Corbyn, o Labor mudou seu rumo, buscando uma linha moderada, capaz de agregar mais eleitores.

Keir Starmer, o novo líder, assumiu com a proposta de unificar o trabalhismo, sem, porém, mudar seu programa socialista democrático. Considerou, também, como prioritária a extinção total do antissemitismo no partido, o que, aliás, Corbyn já havia procurado conseguir.

A diferença é que, enquanto Corbyn achava que apenas poucos membros do Labor eram antissemitas, Starmer discordava. Para ele, de acordo com grupos judeus, defensores de Israel, de dentro e de fora do partido, o Labor estaria fortemente contaminado pelo antissemitismo, o que exigiria uma investigação ampla e implacável para eliminar esse desvio. O processo adotado por Corbyn foi declarado pelo novo líder “completamente inaceitável”.

Logo se viu no que implicavam as prioridades de Starmer. Quando a deputada Rebeca Long-Bailey, compartilhou um post onde atriz Maxine Peake dizia terem os policiais de Minneapolis sido treinados em Israel no método de ajoelhar no pescoço de suspeitos, o novo líder taxou essa informação de “teoria da conspiração antissemita” e afastou a esquerdista Long-Bailey de importante cargo na estrutura partidária.

Chamar críticas a Israel de antissemitas é um argumento sem lógica usado pelo governo de Jerusalém para fugir de acusações, transformando seus acusadores em réus.

Lamentável que um líder socialdemocrata embarque nessa onda. Falando sério, além de não ser antissemita o texto do post não é necessariamente uma “teoria da conspiração”.

Sabe-se que policiais norte-americanos têm realmente passado por treinamentos em Israel (e vice-versa). Fotos publicadas recentemente na imprensa mostram vários policiais israelenses apertando com o joelho o pescoço de suspeitos. Embora, em matéria de violência, seus colegas norte-americanos não sejam propriamente jejunos.

Indiferente aos protestos de Corbyn e seus liderados, Starmer declarou: “Meu principal foco é reconstruir a confiança com a comunidade judaica. Eu não acho que compartilhar aquele artigo estivesse alinhado com esse objetivo principal”.

Ele deu um passo mais largo nesse sentido nos problemas suscitados pelo documentário da BBC, veiculado no programa Panorama, com o título de “is Labor anti-semitic?”

Nele, sete ex-membros e membros do setor de governança do Partido Trabalhista denunciaram o antissemitismo que teria se espalhado pelo partido, com as bênçãos do líder Jeremy Corbyn.

O programa vitaminou a campanha de grupos judaico-americanos, agressivamente apoiada por quase toda a imprensa, que criticava um suposto antissemitismo de Corbyn e sua “influência nefasta” nos quadros do Labor.

Nesse ano, haveria um pleito para escolha do novo governo britânico e a campanha anti-Corbyn teve êxito pois convenceu a maioria dos judeus britânicos. Enquanto historicamente eles pendiam para o Labor, dessa vez apenas 13% disseram que votariam nele. O programa da BBC deixou os trabalhistas indignados.

Seu protesto foi apresentado através do porta-voz partidário: “O programa Panorama não foi uma investigação justa e balanceada. Foi seriamente incorreto, com uma posição politicamente parcial, que violou os princípios jornalísticos básicos, inventou citações e editou e-mails para alterar seu significado. Foi uma intervenção explicitamente enviesada pela BBC numa controvérsia política”.

Inúmeros ataques aos delatores, taxando-os de mentirosos e cúmplices de inimigos do partido, somaram-se à posição crítica do Labor.

Sentindo-se ofendidos, os seta autores das denúncias processaram o partido, exigindo indenizações.

Eis que, um ano depois, já eleita a nova liderança, qualificada como “esquerda suave”, Keir Starmer, surpreendentemente, decidiu pedir perdão aos delatores e pagar indenizações, calculadas entre 500 mil e 600 mil libras.

Além de partidários de Starmer, grupos judaicos do Labor (ou não) aplaudiram a iniciativa, afirmando que ela provava estar o Labor mudando, decidido a limpar a mancha antissemita que o sujava.

Corbyn e seus adeptos protestaram, assim como muitos membros da esquerda partidária, intelectuais, inclusive judeus ingleses, professores e personalidades prestigiadas como o cineasta Ken Loach, que venceu duas vezes o prêmio do Festival de Cinema de Cannes.

A desistência da nova administração partidária passava a ideia de que o programa estava certo, os 7 delatores falaram a verdade e o Labor sob Corbyn havia praticamente abraçado o antissemitismo.

Na verdade, além de não ter sido dado ao Labor o direito de contradição, havia fatos que lançavam justas dúvidas sobre a imparcialidade dos depoentes e dos produtores de Panorama.

Entre eles estavam Ella Rose, ex-funcionária da embaixada de Israel, e Alex Richardson, na ocasião assessor de deputado anti-Corbyn Joan Ryan. Sendo que Panorama não divulgou estas informações à audiência.

O programa também deixou de informar que o depoente Alan Johnson, apresentado como um expert, fora autor de um trabalho para o Centro de Comunicações e Pesquisas britânico-israelense. Keir Starmer não deu bola aos protestos.

Mas deve ter empalidecido ao ler as declarações de Len McCloskey, dirigente do Labor e líder da poderosa Unite, a maior central sindical do Reino Unido: “A própria assistência legal do Partido Labor, eminentes advogados deixaram claro que o Labor venceria (o processo dos 7 delatores) nas cortes. Keir foi advertido e o novo secretário geral foi advertido de que nós perderíamos na justiça”.

E pensando nos 7 milhões de libras que sua organização deu ao labor desde 2019, McCloskey ponderou que o pagamento foi um “abuso do dinheiro dos membros (da Unite)”.

Acrescentou que: ”recebi pessoas perguntando se para a Unite é certo que o dinheiro dos membros seja usado para financiar as dificuldades legais de Keir e pagar compensações quando a orientação informada ao partido foi de que o partido estava numa posição muito forte para defender suas petições”.

Para o líder da Unite não havia dúvidas de que os sindicalistas tinham razão: “Nós temos um fundo político que é o maior em toda a Europa. Portanto, é claro, que meus representados esperam que sejamos influentes na sua aplicação”.

McCloskey ainda disse que seria um problema caso Starmer se afastasse das suas 10 promessas na última campanha pela liderança do Labor, que incluíam posições políticas de Corbyn como taxas mais altas sobre os ricos, abolição das tarifas escolares e “propriedade comum” das ferrovias, correio, energia e água.

A entrevista terminou com o líder da Unite focando Keir Starme: “Ele precisa reconhecer que o barco em que está navegando, se pender demais para a direita, afundará”.

Nos próximos meses, todas as centrais de esquerda pretendem discutir com o líder do Labor a situação do partido, pois “querem saber onde estamos e para que direção iremos”.

No caso do post da deputada de esquerda, Starmer a puniu injustamente, de olho no sucesso que faria diante da plateia de grupos judaicos e de boa parte da comunidade inglesa.

No caso do processo dos delatores do programa Panorama, ele tinha em mãos um parecer dos advogados do Labor de que havia fortes chances de o partido sair vencedor no processo movido contra ele.

Mesmo assim, o novo líder optou por confessar que os autores do processo tinham razão, dispondo-se ainda a pagar uma indenização milionária. Com isso, deixou claro que seriam verdadeiras as acusações de antissemitismo atribuídas ao Labor nos tempos de Corbyn.

Dessa maneira, o ex-líder e seu grupo ficaram numa saia justa, enquanto o entusiasmo dos círculos judaico-ingleses e grupos moderados chegou ao extremo.

Acredita-se que os objetivos das ações de Starmer foram também abater a possível oposição da esquerda partidária à sua política de privilegiar concessões, minimizando posições ideológicas.

Encontrou, porém, um obstáculo inesperado: as centrais sindicais ligadas ao partido, fortes por seus votos e pelas suas doações necessárias para manter a máquina do Labor.

Terá de maneirar seus ímpetos oportunistas sob risco de ver quebrada a unidade do Labor e suas chances nos próximos pleitos eleitorais.

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Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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