Trump sacrifica um povo por um acordo de paz entre países que já viviam em paz

Entenda o conflito do Saara Ocidental, a última colônia africana - Notícias  - R7 Internacional

Sob as bençãos de Trump, realizou-se mais um bizarro acordo de paz no Oriente Médio entre nações que não estavam em guerra: Israel e Marrocos. Quem pagou o preço foi o povo dos saarauís – o Saara Ocidental, cuja luta pela independência Trump entregou numa bandeja ao Marrocos, ao reconhecer a anexação desta ex-colônia da Espanha ao reino de Rabat.

Nenhum país do mundo apoia a anexação do Saara Ocidental pelo Marrocos, a não ser os EUA, outrora um defensor do direito dos povos de ter um país independente.

O governo de Washington sai sujo neste episódio, pois está dando força a uma situação de fato que viola as leis internacionais, os direitos humanos dos saarauís e resoluções da ONU e da Corte Internacional de Justiça.

Maomé VI, o atual rei marroquino, não está nem aí para todas estas ilegalidades. Afinal, as relações Israel-Marrocos começaram no século passado, pautadas por uma traição e por crimes de sequestro, tortura, assassinato e ocultação de cadáver.

Em 1965, depois das guerras que haviam travado, o clima era tempestuoso entre Israel e os países árabes, particularmente Egito, Jordânia e Síria. Apesar de comprometido com a solidariedade árabe, o reino marroquino começava a trocar figurinhas com Israel na calada da noite. Por solicitação de Israel, Hassan II (o rei de então) permitiu que agentes do país sionista gravassem um encontro secreto realizado entre líderes árabes visitantes.

O material gravado revelou aos chefes de Israel que as nações árabes não estavam preparadas para a guerra, o que foi uma mão na roda para o exército israelenses que pôde inclusive evitar ataques simultâneos das três nações mais belicosas, o que o ajudou ganhar a guerra em seis dias (Times of Israel, 12/12/2020).

Em entrevista sobre o assunto, o general Shlomo Gazit, da inteligência israelense, admitiu que a gravação marroquina fora “vital” para o triunfo do seu país (New York Times, 11/12/2020).

Houve controvérsias sobre quem iniciou a chamada Guerra dos Seis Dias, mas muitas análises culparam Israel. A mais isenta foi a relatada por documento do Escritório de Inteligência Corrente dos EUA: “...concluímos que os israelenses – ao contrário do que asseguram – deram o primeiro tiro e agora se sabe que a guerra começou por um ataque de surpresa contra a força aérea egípcia o que deixou suas forças de terra vulneráveis a posteriores ataques israelenses”.

Graças à traição marroquina, as forças armadas de Israel puderam pegar o governo do Cairo de surpresa, pois não havia guerra declarada, destruindo a força aérea egípcia no chão, o que deixou seus exércitos sem a necessária proteção de caças e sem chances de vencer o inimigo.

O reino do Marrocos comportou-se de maneira indigna, por ter sido corresponsável pela derrota árabe.

Aliás, foi uma traição com sérios agravantes:

1. Sendo membro da Liga Árabe, o governo de Rabat enganou países irmãos, que confiavam nele a ponto de se reunirem secretamente no próprio reino marroquino;
2. a gravação de reunião foi crucial na derrota árabe na guerra dos seis dias. Sem a mão marroquina, o resultado poderia ser outro.

Consciente da importância do seu colaboracionismo, o governo de Hassan II solicitou que Israel, em paga da sua trairagem, ajudasse a dar fim no incômodo Mohamed Ben Barka, o maior líder da oposição e dos mais respeitados defensores da autodeterminação dos povos atrelados ao colonialismo europeu.

Jerusalém atendeu ao rei amigo, convocando o Mossad, serviço secreto especialista em assassinatos e outros atos criminosos (similar ao Murders Inc., dos gângsteres norte-americanos, e ao Escritório do Crime, dos milicianos do Rio de Janeiro). Ao contrário desses empreendimentos, que trabalham por dinheiro, o Mossad age por patriotismo, para eliminar inimigos de Israel e mesmo figuras inocentes, cuja morte interessa ao regime sionista, como Ben Barka, por exemplo.

A responsabilidade do Mossad no affair Ben Barka está provada por inúmeras fontes. Uma as mais autorizadas é Ronnie Bergman, especialista em questões militares e internacionais do jornal israelense Yedioth Ahronoth. Ele escreve no seu livro Rise And Kill First (Levante-se e Atire Primeiro) que o pessoal do Mossad exerceu papel-chave no atentado contra o líder da oposição marroquina.
Condenado à morte no seu país, Ben Barka estava exilado.

Movimentando-se frequentemente de um país para outro, era difícil de ser encontraado. Mas os operativos do Mossad descobriram sua localização e elaboraram um plano para que agentes marroquinos e franceses o sequestrassem em pleno Paris. Assim foi feito, e eles levaram Ben Barka a uma “casa segura”, fornecida pelo serviço secreto israelense, onde, torturado selvagemente pelos marroquinos e pelo próprio ministro do Interior de Rabat, acabou morrendo.

No problem, os prestimosos homens do Mossad supriram seus colegas do Marrocos com um kit que incluía automóveis, passaportes falsos, duas opções diferentes de venenos e um produto para disfarçar os vestígios desta ação clandestina.

Por fim, coube ao Mossad livrar-se dos restos mortais do corpo, o que ele fez enterrando-os na floresta de São Germano, nos arredores de Paris, cuidadosamente pulverizados com um pó químico para dissolver completamente qualquer vestígio do que fora Ben Barka (ocultação de cadáver é crime).

Não sabemos de mais nada semelhante a estes fatos escandalosos nas demais relações Marrocos-Israel. No entanto, há seis décadas as duas potências vêm colaborando de forma intensa e secreta em questões militares e de inteligência, fornecimento de armas e treinamento para usá-las... E mesmo espionagem em outras nações árabes” (New York Times, 10/12/2020).

Ao aceitar o estabelecimento oficial das suas relações com Israel, o Marrocos recebeu de presente do dadivoso Trump o reconhecimento da anexação do Saara Ocidental,

A região fora uma colônia da Espanha. Um movimento revolucionário, a Frente Polisário, lutava por sua independência. Os espanhóis acabaram por se retirar, prometendo que convocariam um referendo sobre a criação de um Estado saarauí independente. Mas traíram sua promessa.

Em 1974, entregaram o Saara Ocidental aos vizinhos Marrocos e Mauritânia, pelo chamado Acordo de Madri, que Carlos Ruiz Miguel, professor de Direito Constitucional da Universidade de Santiago de Compostela considera “um dos documentos mais infamantes e com mais perniciosos efeitos de toda a sua (da Espanha) história”.

A Frente Polisário não baixou as armas. Acionada, a Corte Internacional de Justiça declarou, em 1975, que não havia justificação legal para essa divisão, e recomendou a autodeterminação do Saara Ocidental.

A Mauritânia desistiu, mas o Marrocos invadiu e anexou a região (o que leis internacionais condenam como aquisição de nações pela força) e organizou uma ocupação em massa por colonos marroquinos, atraídos por salários públicos em dobro, isenção de impostos e taxas, grandes investimentos urbanos e subsídios para habitação (transferência de populações para outro país, crime conforme a Convenção de Genebra). Sob proteção de 20 mil soldados, 350 mil marroquinos mudaram-se para as cidades do Saara Ocidental.

A Frente Polisário enfrentou o exército do rei Hassan II, então apoiado pela França, através de guerrilhas, com apoio da Argélia. Durante a luta, os saarauís combatentes e civis foram submetidos ao mais duro tratamento pelas tropas marroquinas: poços envenenados, destruição de estoques de alimentos, incêndio de casas e plantações, mutilações, estupros, prisões arbitrárias e assassinatos se sucederam numa sinistra escalada.

Para cercar os 2/3 do Saara Ocidental que lhe interessava, o reino marroquino construiu um muro de 2.600km de extensão, cortando o país de norte a sul, deixando para os rebeldes e civis saarauís indesejados uma região desértica, governada desde então pelo Polisário.

Além disso, ordenou uma verdadeira limpeza étnica, expulsando 150 mil saarauís para campos de refugiados no meio de um deserto, junto à cidade argelina de Tindouf.

Nos dias de hoje, é nestas duas regiões que todo o povo saarauí se concentra.
No Saara sob administração de Rabat, os saarauís são vistos como cidadãos de segunda classe. Sua qualidade de vida é extremamente baixa. Enquanto a expectativa de vida dos marroquinos é de 72 anos, a dos saarauís não passa dos 54. Sistemáticas violações dos direitos humanos se sucedem, documentadas pela Anistia Internacional.

Somente em 1991 a guerra foi paralisada, através de uma trégua acordada entre as partes. Marcou-se um referendo para seis meses depois, no qual a população iria escolher entre a independência do Saara Ocidental ou sua permanência no Marrocos, com um estatuto de semiautonomia.

Este referendo nunca se realizou, o governo de Rabat levantou uma série de dificuldades e problemas. Recursos à ONU não prosperam, pois a França, que possui o direito de vetar resoluções do Conselho de Segurança, impede que sigam adiante.

Em 2006, relatório do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU recomendou, depois de constatar abusos das autoridades marroquinas, monitoramento permanente da situação dos direitos humanos no Saara Ocidental. Para esse fim, criou-se uma comissão especial, a MINURSO.

Cedo, Ban-Ki-Moon, então secretário-geral da ONU, reconheceu como falho o monitoramento feito pela comissão, pois seus relatórios eram alterados por pressão das autoridades marroquinas. A polícia controlava o acesso ao local dos depoimentos à MINURSO, o que assustava a população, que ficava sem coragem de expor seus problemas de forma livre.

No dia 14 de novembro deste ano, o Polisário rompeu o acordo de trégua de 1991, alegando ataques dos militares marroquinos a civis saarauís nos acampamentos de EL Garguerat (EuropRess, 14/11/2020).

Teme-se que esta decisão suspenda as negociações de uma vez e traga a guerra de volta. Enquanto somente os EUA apoiam a anexação do Saara Ocidental pelo Marrocos, mais de 80 outros países reconhecem a autodeterminação da região sob a República Árabe Saarauí governada pela Frente Polisário.

The Donald não se toca, ele já está acostumado a contrariar unanimidades internacionais, entidades multilaterais e grupos de nações aliadas tradicionais dos EUA, praticando um menu extremamente variado de ilegalidades e crimes de guerra.

Parece evidente que ele pretende deixar no seu legado o maior número possível de alianças diplomáticas de Israel com países árabes, ideia muito bem vendida nos EUA, e que The Donald espera pesar futuramente em favor da sua sonhada candidatura presidencial, em 2024.

Ninguém estranha que ele não vacile em violar leis e acordos para promover uma causa rejeitada por mais de 80 nações, lançando o peso do nome dos EUA contra um pequeno povo africano.

O que surpreende é que as civilizadas nações europeias, expoentes da cultura, da ciência, das humanidades e do respeito à ordem legal, se omitam, façam de conta que a conspiração contra os direitos do povo saarauí nada tem a ver com elas.

Na verdade, tem a ver, pelo menos com a França, que vem apoiando o reino do Marrocos na submissão de um pobre povo que almeja algo a que todos os povos têm direito: um país independente e seu.

O motivo desse amor pelos fortes e opressores é o fosfato. O Saara Ocidental possui imensas jazidas desse valiosíssimo mineral.

De olho nelas, o reino do Marrocos gasta cerca de 2 milhões de dólares diários com suas forças armadas estacionadas no Saara Ocidental e o Champs Élyseés avalia sua parte no saque, que fez por merecer, no confisco dessa fabulosa riqueza.

Trump, felizmente, está de partida, porém os interesses marroquinos e franceses continuam.

Abandonada, a última colônia do mundo que ainda não se libertou insiste em reivindicar os direitos básicos nas leis da ONU e das grandes democracias modernas.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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