Inimigos se unem no Oriente Médio para protegerem-se dos EUA


Ninguém imaginaria que a Arábia Saudita fizesse as pazes com o Irã e a Síria, reparasse seus laços com a Turquia e pedisse a um grande inimigo o favor de ajudá-lo a acabar com a guerra do Iêmen, da qual Riad não vê a hora de se livrar.

Tudo isso poderá chegar a algo inaudito num Oriente Médio eternamente dividido por rixas e conflitos: a união da maioria dos países árabes, isolando Israel e deixando os EUA sem ter o que fazer na região, não mais o Estado indispensável à paz e bem-estar geral.

Quando o recém-eleito presidente declarou o fim do apoio norte-americano à guerra do Iêmen deflagrada há seis anos pela Arábia Saudita contra os houthis, senhores do norte do país, os governantes do reino ficaram com uma pulga atrás da orelha.

Outras desagradáveis pulgas foram pintando depois de Biden suspender o envio de armamentos e munições às forças sauditas na guerra iemenita e passar a receber fortes pressões bipartidárias pela punição do príncipe Mohamed bin Salman autor do bárbaro assassinato do jornalista oposicionista Kashoggi.

Se até agora Biden não atendeu a essas vozes indignadas, a verdade é que já demonstrou não ir com a cara principesca ao criticá-lo pesadamente na campanha presidencial e, depois de eleito, deixar MBS (apelido do príncipe) no limbo, passando a tratar somente com o rei Salman, ao contrário do que Donald Trump costumava fazer.

Enquanto isso, os iranianos sofriam com a evidente relutância do novo presidente estadunidense em voltar ao Acordo Nuclear com o Irã como eles esperavam: retirando todas as sanções aplicadas por Trump, depois de sair do acordo. Algumas delas difíceis de engolir, como as que pesam sobre o Banco Central do Irã e as companhias estatais de petróleo e de navegação e empurram a economia iraniana para o fundo do poço. Todas elas ancoradas na acusação (não provada) de ser o Irã o maior impulsionador de terrorismo do mundo.

As negociações continuam, mas, apesar de os presidentes Biden e Rouhani desejarem que tudo dê certo, não dá para apostar que o jogo vai acabar com todos trocando brindes festivos.

A linha dura iraniana - que venceu as eleições parlamentares e parece ter de barbada o pleito presidencial de junho - é extremamente crítica à atuação do presidente Rouhani e lhe dá estreita margem para concessões.

Por sua vez, Biden tem de enfrentar não só a maioria dos congressistas republicanos, como também as vozes ruidosas da direita na mídia, na iniciativa privada e até nos setores conservadores do seu próprio partido. Isso para não falar nas poderosas ONGS pró-Israel e especialmente, no governo de Jerusalém, cujos líderes civis e militares não param de remar contra o acordo nuclear, chegando alguns a ameaçar com intervenções militares caso o resultado final das negociações não lhes pareça capaz de barrar quaisquer ambições nucleares e militares de Teerã até num prazo extremamente remoto.

Sentindo que está em risco a amizade privilegiada que desfrutavam com o ex-presidente Trump, os sauditas temem graves problemas no fornecimento de armamentos pelos EUA. Uma postura rígida de Joe Biden na defesa dos direitos humanos poderia trazer implicações muito incômodas para o reino - acostumado à prática de malfeitos nesta área, incluindo mesmo uma punição do príncipe coroado.

Diante de um futuro assustadoramente distópico, o rei Salman e seu dileto filho, o príncipe coroado, resolveram se mexer.

Saindo da sua posição de conforto, foram à procura de novas relações, para mostrar que ainda singravam firmes nos mares revoltos da região. Que não dependem da mão forte de Tio Sam para manter sólidas suas ambições de hegemonia no Oriente Médio e sua segurança diante das ameaças latentes, tanto da agressividade do Irã quanto dos perigosos desdobramentos da política de direitos humanos do presidente Biden.

Ousadia não faltou

Sendo a Arábia Saudita sunita e o Irã, xiita, eles nunca foram propriamente amigos do peito.

As coisas pioraram depois de 1979, quando os iranianos derrubaram a tirania do xá e instituíram uma república xiita, vista com péssimos olhos pelos monarcas sauditas, temerosos de que contaminasse sua numerosa população xiita, localizada justamente numa área de grande produção petrolífera.

Nos anos seguintes, na busca da hegemonia regional, os dois países várias vezes se enfrentaram indiretamente, apoiando respectivos aliados em conflitos nas guerras da Síria e do Iêmen. E também em disputas políticas no Líbano, principalmente.

E o relacionamento Irã-Arábia Saudita foi degringolando.

Piorou muito em 2016, quando, ao reprimir manifestações de protesto dos xiitas locais, a monarquia executou o líder deles, o clérigo Nimr al-Nimr.

Pegou mal no Irã, e ativistas atacaram a embaixada do reino, em Teerã, e seu consulado, em Mashhad.

Como retaliação, os sauditas chamaram de volta seus diplomatas, fechando a embaixada e cortando relações com Teerã.

Posteriormente, sob inspiração – ou talvez ação – de Donald Trump e Israel, formou-se uma Aliança de fato entre as três potências contra o Irã. Daí em diante, os parceiros foram pródigos em trocar ataques e ameaças com o regime de Teerã.

Um novo complicador foi causado pela reação dos houthis contra a impiedosa guerra aérea desferida pelos sauditas, com o fim de vencer os adversários pela fome e pelas doenças.

Quando os houthis lançaram um ataque de mísseis que causou grandes prejuízos aos inimigos, paralisando as operações do seu maior campo petrolífero e reduzindo metade da produção, a Arábia Saudita e os parceiros, EUA e Israel, acusaram o Irã de ser responsável pela façanha. O que Teerã negou.

Os atoleiros

Nos últimos meses do governo Trump, os três aliados, ante uma eventual eleição de Biden, tentaram bloquear possíveis alterações na política de máxima pressão sobre o Irã, planejando fortes ações bélicas que o forçassem a retaliar à altura, criando-se assim um clima tão agressivo que impediria os EUA de tomar qualquer atitude pacificadora.

E, em reunião na Arábia Saudita, Netanyahu foi longe, propondo bombardeios das instalações nucleares iranianas. Só não foi aprovado porque MBS temeu que, nesse caso, seu país seria o primeiro a ser alvo da vingança do Irã.

Pois é com esse inimigo mortal que o príncipe coroado quer agora fumar o cachimbo da paz para enfrentar as perspectivas sombrias dos novos tempos.

Em abril, o príncipe, normalmente um duro crítico do Irã, distribuiu afagos a esse país, expressando seu profundo anseio de construir “relações boas e especiais” da Arábia Saudita com o governo de Teerã (Middle East Eye, 28/04/2021).

Não, o príncipe não havia se excedido no árak, soube-se que, no mês anterior, as duas potências já haviam mantido amigáveis conversações secretas, em Bagdá.

O Irã apressou-se em saudar publicamente a “mudança de tom” saudita, que poderia marcar o início de uma nova cooperação entre sauditas e iranianos.

E o fez através de Khatibzadeh, porta-voz do ministro do Exterior: “Nós estamos abertos a resolver problemas que existam entre as duas nações... E nos esforçaremos ao máximo nesse sentido (Middle East Eye, 10/05/2021)”... A monarquia do deserto apressou-se em aproveitar a euforia iraniana pedindo que influenciasse os houthis para toparem um cessar-fogo iniciando o processo de dar fim à guerra. Como se sabe, o Irã é um firme apoiador dos rebeldes.

Depois de sofrer 15 anos de bombardeios pesados que mataram mais de 100 mil pessoas e devastaram todas as suas infraestruturas, os houthis agora estão se saindo bem, lançando mísseis contra objetivos em território saudita e uma ofensiva que se acha perto de conquistar a cidade de Maarib, importante por ser o centro da exploração de petróleo e gás. Os sauditas estão loucos para acabar com essa guerra, que não estão podendo vencer, apesar de já estar lhe custando muitos bilhões de dólares. Sem falar nas perdas contínuas em sua imagem mundial.

Teerã topou. Prontamente, Zarif, seu ministro do Exterior, reuniu-se com autoridades dos houthis em Omã, apelando por mais boa vontade na discussão da paz com os sauditas.

Mas não pensemos que o Irã está agindo desinteressadamente.

Ele espera que sua atitude o retrate perante a comunidade internacional como país conciliador, civilizado, amante da paz.

Pragmático, ele pediu que os sauditas retribuíssem o favor que lhes estava prestando, defendendo as posições iranianas nas negociações com os EUA na volta ao Acordo Nuclear com o Irã, atrelada à suspensão das sanções sobre esse país.

Depois de começar bem suas manobras para atrair o Irã, o príncipe está abrindo seu arco de novos amigos, procurando, imagine, agradar Assad. O mesmo Assad contra quem os sauditas e os EUA haviam financiado, armado, treinado e organizado milícias jihadistas associadas aos oposicionistas em armas.

Nos 10 anos de guerra da Síria, a situação é totalmente favorável ao seu presidente, cujas forças já retomaram quase todo o país.

Por enquanto, Idlib, única cidade importante fora do controle oficial, ainda resiste controlada por grupos de milícias das quais a principal é uma sucessora da al Qaeda. Tropas turcas estão por ali, em fortins de onde monitoram a situação. Estão também no Norte, supostamente protegendo as fronteiras contra os curdos, que dominam uma parte do território ancestral. Tropas norte-americanas ocupam uma importante região petrolífera da síria, explorando seus recursos como se fossem propriedade de Tio Sam.

Biden já deixou claro que seus soldados não sairão de lá. Pode até aumentar seu efetivo.

Foi importante para Assad o fato de o príncipe MBS ter reconhecido publicamente que o governo de Damasco já venceu a guerra.

Logo em seguida, uma delegação saudita de alto nível viajou a essa cidade onde discutiu vários itens, inclusive a inauguração na próxima semana da embaixada da Arábia Saudita, o que consagra o retorno das relações desse país com o regime sírio.

Como as coisas estão correndo bem na Síria, os monarcas do reino saudita passaram a cortejar também a Turquia, indiferentes ao fato de os respectivos governantes – Assad e Erdogan - serem adversários históricos.

O rei Salman e seu filho deram um exemplo de tolerância ao aceitarem a reaproximação com o presidente Erdogan, que foi um dos principais protagonistas da campanha contra o príncipe.

O governo turco investigou, arrolou provas, descobriu suspeitos e condenou MBS como o fautor do complô no qual um esquadrão da morte de cortesãos e militares sauditas foi ao consulado da, Turquia, em Istambul, para assassinar, desmembrar e enterrar em local secreto o jornalista opositor Kashoggi, cujos artigos no Washington Post irritavam o príncipe.

Erdogan e o rei Salman já mantiveram conversas telefônicas e uma delegação foi enviada por Ancara com credenciais para iniciar as tratativas para solução dos problemas pendentes entre os dois países.

E após reunião com o príncipe Faisal, ministro saudita, em Meca, Cavusoglu, ministro do exterior da Turquia, anunciou que seu país e a Arábia Saudita continuarão a resolver suas diferenças.

Por sua vez, o Irã também tem o mesmo objetivo em relação aos Estados do Golfo. O ministro Zarif, das Relações Exteriores, percorreu em missão de boa vontade o Kuwait, Iraque, Omã e Catar, país grato ao apoio prestado por Teerã durante o bloqueio imposto por diversos países árabes (cancelado em janeiro).

Caso estas ações diplomáticas que buscam superar as inimizades entre os Estados islâmicos do Oriente Médio e criar uma união obtenha sucesso, poderá ser formado um novo centro internacional de poder.

O papel dos EUA nos dramas do Oriente Médio continuará a existir. Mas sem a dependência política e principalmente militar da maioria dos países da região em relação a Washington.

Tudo indica que a magna posição dos EUA na região será diminuída, pois ficaria restrita a apenas Israel.

Palestina

Estando a opinião pública israelense em processo de radicalização, a extrema-direita de Netanyahu virou centrista, comparada aos partidos ultras, tão fortes que Natali Bennett, seu principal líder, foi chamado a formar o novo governo.

Quer ele consiga, quer Netanyahu acabe voltando, em uma quarta eleição, deverá ser mantida ou mesmo acelerada a política de expulsão de palestinos, através da expansão dos assentamentos e demolições de casas na Cisjordânia e em Jerusalém, reprimindo com brutalidade manifestações de protestos, para provocar reações agressivas do Hamas e assim justificar a devastação militar de Gaza e massacre dos seus habitantes.

Mas, e Biden?

Vai continuar dizendo que Israel tem o direito de se defender?

Que os palestinos não têm esse direito?

Não é com decisões fáceis, como a suspensão de armamentos para a Arábia Saudita e o retorno das doações aos campos de refugiados árabes que um governo pode se considerar progressista e defensor dos direitos humanos.

É difícil enfrentar a barreira dos interesses israelenses e dos políticos nos EUA ao resolver a questão iraniana com a retirada das sanções de Trump, na volta dos EUA ao Acordo Nuclear com o Irã.

E talvez mais difícil pressionar Israel a respeitar os direitos humanos dos palestinos e seu direito a um Estado independente e autônomo.

Se Biden se julga apto a liderar o mundo, como tem assegurado, deveria meditar sobre isso.

E levar em conta um oportuno pensamento de George Washington, herói da independência dos EUA e seu primeiro presidente.

“A nação que dedica a outra ódio especial ou amor habitual é até certo ponto uma escrava. É escrava da sua animosidade ou da sua afeição, qualquer das duas suficiente para a desviar dos seus deveres e dos seus interesses”.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça