À espera de 2022

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Frente ampla para derrotar o fascismo é destaque na Semana ...
Neste final de semana, dois números me chamaram atenção: de um lado, ganhou destaque que 75% dos brasileiros dizem apoiar a democracia (Datafolha); de outro, ficou escondido que a polícia matou 26% mais em março e abril de 2020 em relação ao ano anterior (Monitor da Violência do G1) mesmo com a drástica diminuição de circulação das pessoas por conta da pandemia. É uma linha evidente que, sem lidar com o papel mortífero da polícia na sociedade, em especial contra pretos e pobres, só haverá um desejo de democracia, refletido no discurso, como aponta a pesquisa.

Além disso, ao considerar que, no governo Bolsonaro, os benefícios sociais atingiram o menor patamar desde Sarney, é notável que a democracia brasileira acompanha o rito neoliberal, se restringindo aos processos eleitorais e à representação em instituições que promovem um espetáculo que o chumbo grosso da polícia desnuda para aqueles que estão sob sua mira.

Para falar em democracia, que de tanto ser golpeada a cada instante parece ter mil vidas, as manifestações contra o governo Bolsonaro trouxeram-na de volta durante o mês de junho. Saindo do espetáculo cruel de escárnio das mortes pela pandemia, promovido todo domingo pelo presidente desde março, a organização de torcidas nas suas alas antifascistas e demais segmentos se uniram para trazer a democracia de volta ao debate público.

Tratadas pela grande mídia como manifestações “pela democracia”, a designação mostra que estamos em um processo ainda em disputa, no qual o autoritarismo do presidente precisou recuar seguidamente desde então, até que agora parece estar domesticado com a prisão de seu amigo Queiroz e as investigações que envolvem seu filho Flávio Bolsonaro, que raramente aparece com sobrenome nas manchetes midiáticas.

A moderação de Jair Bolsonaro só vale até a página 2 e a orientação vem sempre dos militares: é hora de compor se não quiser ficar sozinho com os seus e deixar Mourão com seus bons modos tocando o barco com algumas fendas abertas chamado Brasil. Nada impede que Jair Bolsonaro volte aos seus arroubos em breve. É parte do projeto político dos militares.

Paralelamente, a formação da Frente Ampla bambeia sem Lula e Moro – as duas figuras políticas mais populares junto com Bolsonaro –, o que faz desta um palco para a afirmação dos liberais na roupagem de uma nova direita sensata, que tem em Luciano Huck sua figura proeminente, mas também conta com João Dória e agregados como MBL e Vem Pra Rua, sendo que vale salientar que todos esses perfilaram com Jair Bolsonaro em 2018.

Neste arranjo, Fernando Haddad, Flávio Dino e Marcelo Freixo figuram como brindes para legitimar um processo que levará às eleições de 2022, com ou sem Jair. Basta ver a pregação de tolerância com que FHC tenta já blindar Jair Bolsonaro, com interesse dos liberais em emplacar as (des)necessárias reformas, retomadas por Paulo Guedes e Rodrigo Maia, sob os olhares do STF. As instituições voltam a funcionar no “novo normal”.

O acordo para assegurar 2022 está costurado: resta saber se Jair Bolsonaro vai se comportar. Se não o fizer, será descartado em nome do grande acordo nacional. Mourão segura o rojão. Nada indica que Bolsonaro está desde já fora da disputa, pelo contrário, permanece forte candidato. Moro parece candidato também. A esquerda perdeu uma grande oportunidade ao se manter focada na oposição ao presidente, numa posição etérea em que não fez a diferença, o que faria caso tivesse se (re)conectado à população que ficou ao léu ou mesmo temporariamente vinculada ao “benefício do governo Bolsonaro”, sem saber que o mesmo foi ideia gestada também pela esquerda.

Ao não conseguir desempenhar esse papel de forma coordenada, salvo nos governos estaduais nordestinos com o projeto Mandacaru, a esquerda deixa caminho livre para a nova direita sensata e segue na trilha dela, segue atrás. Resta saber como se articulará neste cenário que já começa a se desenhar e passará pelos resultados das eleições municipais que, neste 2020, devem sair apenas em dezembro, sem deixar de ser decisivos.

No fim das contas, a pandemia já matou quase 60 mil brasileiros, mas só se pensa em abrir a economia como se a demanda fosse voltar automaticamente para os mesmos níveis. Não voltará. Seja no âmbito local, visto no exemplo dos 50% de bares e restaurantes que fecharam suas portas em São Paulo (35% já o fizeram e 15% devem fazer), seja no âmbito global, no exemplo dos 25% de demitidos no Airbnb. Esse é o “novo normal” que deve vigorar até mesmo quando a vacina vier a público, o que nas previsões mais otimistas está previsto para daqui um ano.

Marcelo Castañeda é cientista social e professor de Estudos Organizacionais da UFRJ.
Twitter: @celocastaneda

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